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A América sombria de Trump

Pouco depois das 23h30, como previsto, começou a música, e balões com as cores da bandeira americana e uma chuva de confete caíram sobre os delegados e participantes da convenção do republicana, em Cleveland. Foi um momento de dissonância cognitiva: momentos antes Donald J. Trump tinha acabado de fazer um discurso sombrio, ameaçador e essencialmente negativo. Em uma hora e quinze minutos, Trump descreveu um país em que os cidadãos estão se voltando contra a polícia, em que imigrantes ilegais se aproveitam de fronteiras mal guardadas roubar empregos dos americanos e cometer crimes. Os Estados Unidos retratados por Trump estão humilhados e enfraquecidos diante do resto do mundo depois de anos de uma política externa equivocada e subserviente. O slogan de sua campanha é Make America Great Again: fazer da América de novo um país excelente, magnífico, grande, importante. Ao aceitar a indicação para ser o candidato republicano à Presidência, Trump deu muita ênfase ao diagnóstico do problema, mas apresentou pouquíssimas ideias de como pretende resolvê-lo.

É verdade que discursos que encerram convenções não costumam detalhar propostas. O objetivo maior é inspirar os eleitores, construir pontes com as alas derrotadas nas primárias e dar o pontapé inicial na campanha de eleição geral, que acontece em 8 de novembro. Trump optou pelo medo. Ele projetou a imagem de um país acuado e em crise, violento e indefeso. “Sou o candidato da lei e da ordem”, disse Trump mais de uma vez. “Os ataques contra a nossa polícia e o terrorismo em nossas cidades ameaçam nosso modo de vida. Qualquer político que não entenda esse perigo não está apto a liderar nosso país.”

O Trump que falou em Cleveland foi o mesmo candidato que surpreendeu os republicanos – e o mundo todo – nos últimos 12 meses. Quem esperava que ele apresentasse uma nova face, tanto para apaziguar a inquietação da ala tradicional de seu partido quanto para contar sua história para o eleitorado, se decepcionou. Trump adotou o mesmo estilo dos comícios que vem fazendo pelo país, apelando para a sensação de insegurança e incerteza sentida por muitos americanos.

Trump dedicou a maior parte do tempo para falar de imigração. Ele contou a história de uma jovem de 21 anos do Estado de Nebraska, assassinada um dia depois de se formar na universidade em primeiro lugar de sua sala. Segundo Trump, ela foi assassinada por um imigrante ilegal que já tinha sido preso e libertado pela polícia. Depois de assassinar a jovem, ele foi mais uma vez colocado em liberdade. “Mais uma criança mais sacrificada no altar das fronteiras abertas”, disse o candidato. Na arena, ouvi-se um canto que o acompanha em seus comícios nos últimos meses: “Construa o muro! Construa o muro!”, em referência à promessa de ampliar o muro na fronteira com o México.

Trump também falou longamente sobre a ameaça do terrorismo externo, causada por “15 anos de guerras no Oriente Médio” – um período que inclui a presidência do republicano George W. Bush. Ele acusou Obama – e a então secretária de Estado Hillary Clinton, sua adversária em novembro – de fracassos na arena internacional que tornam os Estados Unidos um país menos seguro. “Vamos rever o histórico dela [Clinton]: o Isis não existia, a Líbia era um país estável, a violência estava diminuindo no Iraque, o Irã estava sufocado pelas sanções e a Síria estava mais ou menos sob controle. O que temos hoje? Este é o legado de Hillary Clinton: morte, destruição, terror e fraqueza”, disse Trump. “Mas o legado dela não precisa ser o nosso legado.”

Trump também reafirmou seu desafio à ortodoxia econômica do Partido Republicano. Prometeu acabar com os acordos multilaterais que levam empresas e empregos para fora do país. “Prometo nunca assinar acordos comerciais que punam nossos trabalhadores.

Nossos acordos com a China serão renegociados. Vamos renegociar o Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte). Se não fizermos um novo acordo, vamos sair. Nosso país vai voltar a produzir coisas.” Um dos pontos-chave para a campanha de Trump é conquistar os votos de trabalhadores desencantados com a globalização e que tradicionalmente tendem a votar no Partido Democrata. Dirigindo-se a eles, Trump afirmou: “Pessoas que não têm voz. Eu sou a sua voz”.

O tom geral da fala de Trump também teve ecos da campanha do Brexit, reforçando as ideias de nacionalismo, da ameaça da imigração incontida e de um senso de orgulho perdido. O mesmo discurso populista e jingoísta que levou os britânicos a votarem no abandono da União Europeia será uma constante nos Estados Unidos um país com desigualdade crescente e uma sensação cada vez mais palpável de que os benefícios da globalização são injustamente distribuídos. “Não podemos mais nos dar ao luxo de ser politicamente corretos. Aqui na nossa convenção não vai ter mentira. Vamos honrar o povo americano com a verdade”, disse Trump. “Americanismo, não globalismo, será nosso credo. Vamos reconquistar o respeito que merecemos.”

Trump também fez as inevitáveis promessas de corte de impostos, de acabar com o Obamacare, o sistema de oferta de planos de saúde criado pelo atual presidente e de manter os direitos de comprar e manter armas de fogo. Uma das surpresas foi o aceno que ele fez à comunidade LGBT, mencionada por ele quando falava do massacre num clube gay de Orlando que deixou 49 mortos. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger nossos cidadãos LGBT da violência e opressão de uma ideologia estrangeira e odiosa.” Quando a frase foi aplaudida, ele desviou do texto preparado e disse: “Tenho de dizer que, como republicano, é muito bom ouvi-los aplaudindo o que acabei de dizer”.

As primeiras reações ao discurso foram de surpresa. Muitos esperavam que Trump suavizasse suas posições, ou pelo menos que tentasse apresentar um lado mais humano e afável, afinal de contas foi a primeira vez que milhões de americanos assistiram a um discurso seu na íntegra. Outros expressaram choque pela escolha de um tom tão lúgubre ao longo de praticamente todo o discurso, o mais longo feito por um candidato numa convenção em mais de 40 anos. “O que Donald Trump fez esta noite uma desgraça. Ele descreveu uma ‘América Mad Max’”, disse Van Jones, comentarista político da CNN, em referência ao filme que retrata um futuro distópico. “Trabalhei com algumas das comunidades mais difíceis deste país e não sei do que ele estava falando.” Foi com uma receita parecida que Trump levou a candidatura republicana. Também na CNN David Axelrod, um dos maestros das campanhas que elegeram Barack Obama, afirmou: “A questão é se a mesma tática será suficiente para conduzi-lo à Casa Branca”.

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