Mercado Imobiliário

Selic não caiu: vale a pena financiar imóvel mesmo com juros altos?

O Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros brasileira inalterada e o mercado projeta o primeiro corte para março

4. Brooklin (Germano Lüders/EXAME.com)

4. Brooklin (Germano Lüders/EXAME.com)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 07h07.

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu manter a Selic em 15% ao ano na primeira reunião de 2026, realizada na quarta-feira, 28. O patamar, o mais alto em quase duas décadas, reflete o ciclo de aperto monetário iniciado em setembro de 2024, com o objetivo de conter a inflação, que tem rondado o teto da meta.

A decisão veio acompanhada de um novo sinal: a expectativa de que o ciclo de cortes comece em março, na segunda reunião do ano. O mercado já precifica um corte de 0,25 ponto percentual.

“Essa sinalização do Banco Central aumenta a confiança de que o ciclo de cortes vai começar de fato”, afirma Peixoto Accyoli, CEO da rede de franquias RE/MAX Brasil. “Mas é importante lembrar que os efeitos disso sobre o crédito imobiliário não são automáticos. Eles levam tempo para chegar ao consumidor final".

Apesar de a Selic não ser o único fator que determina as taxas de financiamento, ela exerce influência direta sobre o custo do crédito no país. Juros mais altos reduzem a capacidade de compra das famílias e impactam a demanda por financiamentos, o que tende a esfriar o mercado imobiliário.

Além disso, a alta da taxa básica torna os investimentos em renda fixa mais atrativos. Parte dos investidores migra recursos que antes iriam para a poupança ou o setor imobiliário, reduzindo a base de captação dos bancos e pressionando a oferta de crédito.

“Como os financiamentos habitacionais no Brasil, especialmente os do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos), são sustentados majoritariamente por recursos da caderneta de poupança, essa migração para ativos mais rentáveis reduz a base de captação dos bancos”, explica Accyoli. “Isso limita a oferta de crédito e pode pressionar as taxas para cima, mesmo com a demanda contida".

O impacto atinge também quem já tem um financiamento. Embora a maioria dos contratos esteja atrelada a taxas fixas, o ambiente de juros altos pesa no orçamento das famílias, por meio da alta no custo geral do crédito. “Nesses casos, vale a pena acompanhar o mercado e avaliar, se for possível, a portabilidade do financiamento para uma instituição com melhores condições”, aconselha o executivo.

O financiamento ainda é uma opção viável?

Mesmo com a Selic em 15%, o financiamento pode continuar sendo uma alternativa racional — principalmente para quem precisa resolver uma demanda habitacional concreta ou sair do aluguel.

Isso porque o crédito imobiliário não opera no mesmo patamar da Selic. As taxas oferecidas pelos bancos são mais baixas, especialmente em instituições públicas. Em operações concretas, já é possível encontrar financiamentos ao redor de 12% ao ano, dependendo do perfil do comprador e do relacionamento com o banco.

Segundo Accyoli, a decisão de financiar em um ciclo de juros altos não é, por si só, um erro. O risco maior está em assumir parcelas que comprometam excessivamente a renda ou comprar um imóvel fora da realidade de mercado. “Com preço correto, entrada adequada e visão de longo prazo, financiar agora pode ser uma decisão racional e defensiva”, diz.

Além disso, o sistema brasileiro permite portabilidade e renegociação do contrato, o que possibilita ao comprador ajustar a taxa, a parcela ou o saldo devedor no futuro, quando os juros caírem de forma mais consistente.

Esperar o corte da Selic compensa?

Diante da promessa de queda da taxa básica nos próximos meses, surge a dúvida: vale a pena adiar a compra de um imóvel?

Para Accyoli, a resposta é não. “Existe uma defasagem natural entre a decisão de política monetária e a chegada dessa redução às taxas finais dos financiamentos. E, quando acontece, o efeito costuma ser gradual.”

Mesmo nas projeções mais otimistas, o mercado trabalha com uma Selic ao redor de 12,5% no fim do ano — uma diferença de 2,5 pontos percentuais em relação ao nível atual. Isoladamente, essa redução não compensa o adiamento de uma decisão relevante, como trocar de imóvel ou adequar a moradia à dinâmica familiar.

Outro ponto relevante é o comportamento do próprio mercado. Quando há sinalização clara de queda de juros, a demanda tende a se antecipar, especialmente por imóveis bem localizados e com maior liquidez. Na prática, quem espera pode até conseguir uma taxa um pouco menor, mas enfrenta preços mais altos.

Além disso, medidas recentes ampliaram o acesso ao crédito e já estão destravando a demanda. A elevação do teto do SFH de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões — com manutenção de taxas competitivas e uso do FGTS — aumentou significativamente o universo de compradores.

O mesmo vale para o Minha Casa, Minha Vida, que agora inclui novas faixas de renda e imóveis de até R$ 500 mil. A base de compradores foi ampliada e a pressão sobre o mercado de locação começou a diminuir, especialmente nas grandes cidades.

O que muda para o Minha Casa, Minha Vida?

Apesar da Selic elevada, os contratos do Minha Casa, Minha Vida não são os mais impactados. Como utilizam recursos do FGTS e contam com subsídios públicos, eles conseguem manter juros mais baixos e estáveis.

Ainda assim, há efeitos indiretos. “O rendimento do FGTS tende a ficar defasado em relação a outros investimentos, o que pode aumentar a pressão por saques e comprometer a sustentabilidade do fundo no longo prazo”, aponta Accyoli.

Além disso, os custos de produção — como financiamento para incorporadoras, materiais e mão de obra — também sobem em cenários de juros altos. Isso pode afetar a viabilidade de novos empreendimentos, sobretudo nas faixas de menor renda, onde as margens são mais apertadas.

E para quem já está financiando?

Para contratos com taxa fixa, que são maioria no país, a alta da Selic não altera as condições pactuadas. O mutuário continua pagando o valor definido em contrato até o fim do financiamento.

Em contratos atrelados à TR (Taxa Referencial) ou com componentes pós-fixados, pode haver alguma oscilação nos encargos, mas esses modelos representam uma fatia menor do total.

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