Obras avançam mesmo com juros altos: já as vendas... (Montagem EXAME com elemento do Canva)
Repórter de Mercados
Publicado em 31 de março de 2026 às 09h43.
O mercado imobiliário brasileiro entrou em 2025 pressionado por juros elevados, mas terminou o ano entregando além do esperado. O volume de imóveis concluídos cresceu 13,7% em relação a 2024, segundo dados dos indicadores Abrainc/Fipe. O avanço reflete, sobretudo, a maturação de projetos iniciados em ciclos anteriores, mas também a capacidade das incorporadoras de manter obras mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo.
Na prática, o dado mostra um setor que segue ativo na produção, ainda que a dinâmica de vendas tenha mudado entre os segmentos.
“O crescimento de 13,7% nas entregas mostra que o setor chegou a 2025 com um volume relevante de obras em andamento”, afirma Luiz França, presidente da Abrainc. Segundo ele, o forte avanço dos lançamentos no período (alta de 30,1%) ajuda a sustentar um pipeline relevante para os próximos anos.
Ainda assim, há pontos de atenção. O crédito caro começa a afetar decisões na ponta, tanto das empresas quanto das famílias.
A leitura de 2025 passa por uma divisão clara entre segmentos, com efeitos distintos do ambiente macroeconômico.
De um lado, o segmento de médio e alto padrão começou a desacelerar. Segundo o Indicador de Confiança do Setor Imobiliário Residencial, elaborado pela Abrainc em parceria com a Deloitte, as vendas caíram 21% no quarto trimestre, enquanto a procura recuou 23%.
O principal fator é o custo do crédito. Diferentemente do segmento econômico, o financiamento nesse mercado é mais sensível à taxa de juros, o que reduz a capacidade de compra e alonga o ciclo de vendas.
“O impacto do crédito mais caro já é percebido, tanto na maior seletividade dos lançamentos quanto na decisão das famílias, que ficam mais cautelosas diante do custo de financiamento”, diz França.
Do outro lado, o Minha Casa, Minha Vida segue em trajetória oposta. O segmento econômico registrou alta de 0,7% nas vendas e de 2,5% na procura no mesmo período. A sustentação vem de fatores estruturais: acesso ao crédito via FGTS, desemprego em mínima histórica (5,6%) e aumento da intenção de compra, que atingiu 50%, segundo dados da Brain.
"Soma-se a isso o fato de que o país vive um momento favorável do ponto de vista demográfico, com crescimento da população na faixa de 35 a 40 anos, grupo que concentra maior renda e decisão de compra", explica.
Esse descolamento ajuda a explicar por que o setor continua operando apesar de um ambiente financeiro mais restritivo.
Essa diferença de comportamento já aparece nas decisões das incorporadoras. Entre executivos que atuam no MCMV, 97% pretendem lançar novos empreendimentos nos próximos 12 meses e 94% planejam adquirir terrenos, segundo a pesquisa Abrainc/Deloitte. O programa hoje funciona como principal motor do setor, garantindo demanda e previsibilidade.
Para França, esse papel não é circunstancial. “O Minha Casa, Minha Vida deve ser visto como um programa de Estado, voltado a enfrentar um déficit habitacional de cerca de 6 milhões de moradias”, afirma.
Já o segmento de médio e alto padrão passa por um ajuste, mas sem sinais de desequilíbrio estrutural. O estoque atual levaria cerca de 14 meses para ser consumido, nível considerado saudável. A retomada, no entanto, depende de variáveis macroeconômicas.
“Esse segmento é mais sensível ao custo do capital e à confiança. Uma recuperação mais consistente passa, principalmente, pela queda dos juros”, afirma França.
Enquanto isso, o mercado de luxo segue em trajetória distinta. Em São Paulo, o Valor Geral de Vendas (VGV) atingiu R$ 29 bilhões em 2025, alta de 61%, enquanto os lançamentos somaram R$ 30 bilhões — avanço de 102%. Em bairros como Vila Nova Conceição, Moema e Jardins, o preço médio superou R$ 40 mil por metro quadrado.
Apesar do cenário mais restritivo, as incorporadoras seguem ativas na aquisição de terrenos — um movimento que pode parecer contraditório à primeira vista. A explicação está no horizonte de longo prazo do setor.
“O mercado imobiliário não responde ao trimestre. A compra de terrenos está ligada à formação de pipeline para os próximos ciclos”, afirma França.
O próprio nível de estoque reforça essa leitura. Hoje, o setor opera com cerca de 11,9 meses de oferta, patamar considerado equilibrado, que permite continuidade dos investimentos com disciplina. Além disso, o forte crescimento dos lançamentos em 2025 indica que as empresas seguem preparando a próxima onda de projetos, mesmo em um ambiente mais desafiador.
O setor entra em 2026 com demanda ainda presente, produção elevada e pipeline em formação. O principal fator de virada, no entanto, continua sendo o mesmo: juros.
“A redução consistente das taxas é central, porque melhora o acesso ao crédito e reduz o custo de capital”, afirma França.
Mas não é o único ponto. Estabilidade regulatória, previsibilidade institucional e condições adequadas de produção — incluindo mão de obra — também entram na equação. A construção civil é intensiva em trabalho, e mudanças nesses fatores impactam diretamente o custo final dos imóveis.
O retrato atual mostra justamente esse potencial latente. Há demanda, há capacidade produtiva e há interesse das empresas. O que falta, na avaliação do setor, é um ambiente mais previsível para transformar esse cenário em um novo ciclo de expansão mais forte.