"Repertório, quando acumulado com coerência, ajuda a produzir reconhecimento e a consolidar autoridade" (OsakaWayne Studios/Getty Images)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 10 de julho de 2026 às 16h33.
Passei metade da minha vida profissional dentro de redações que tinham a velocidade como religião. Aprendi cedo que sair na frente do concorrente importava, que o furo justificava a manchete do dia seguinte e que quem publicava primeiro quase sempre ficava com o crédito, ainda que a reportagem completa só aparecesse horas depois.
Na Jovem Pan AM, em 1997, havia uma impressora matricial que soltava a notícia urgente a conta-gotas, cuspindo folhas inteiras em branco com apenas uma primeira linha preenchida: “Forte tremor de terra sentido em Caracas”. Segundos depois, chegavam dezenas de outras páginas, completando, parágrafo a parágrafo, o despacho enviado por um correspondente da Reuters, da AFP, da EFE ou da Xinhua.
Aquela primeira linha, acredite, bastava para colocar uma redação inteira em movimento. Antes mesmo de sabermos exatamente o que havia acontecido, sabíamos que o mundo tinha mudado em algum lugar.
Foi assim no rádio. Depois, no Jornal da Tarde, entre 2000 e 2008, quando a notícia já corria pelas telas e a internet começava a se transformar na principal régua de quem estava por dentro e de quem havia chegado tarde. Essa lógica permaneceu praticamente intacta por décadas.
O prêmio era o clique, e o clique recompensava quem chegava primeiro.
Essa relação foi mudando sem alarde até que, em abril deste ano, o Cade abriu um processo para aprofundar a investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google, incluindo os resumos produzidos por Inteligência Artificial nas plataformas de busca.
Independentemente do desfecho da investigação, o debate revela uma mudança mais profunda do que parece à primeira vista: se uma parcela crescente das pessoas encontra respostas sem necessariamente visitar quem produziu a informação original, a antiga associação entre publicar primeiro e ser encontrado deixa de funcionar como consequência automática.
É um tema que ultrapassa o jornalismo.
Quem constrói reputação, desenvolve uma marca, ocupa posições de liderança ou tenta se tornar referência em determinado assunto talvez devesse observar esse movimento com ainda mais atenção do que os próprios veículos de comunicação.
Os acordos anunciados recentemente entre a OpenAI, o Grupo Folha e o Grupo UOL são um bom exemplo dessa transformação. Existe, evidentemente, um componente comercial, embora seja reducionista enxergar somente isso. O que está em jogo é o reconhecimento de que, num ambiente mediado por IA, ser uma fonte confiável passa a ter um valor estratégico diferente daquele que orientou boa parte da economia da atenção nas últimas décadas.
Durante muito tempo, nossa preocupação era conquistar espaço nos mecanismos de busca. Agora começamos a conviver com sistemas que localizam páginas, sintetizam informações, cruzam referências e identificam sinais de confiabilidade, uma diferença aparentemente discreta, mas capaz de alterar a maneira como conteúdos, marcas e pessoas são encontrados e reconhecidos.
Talvez estejamos assistindo à passagem de uma internet que premiava principalmente quem era encontrado para outra na qual ganha importância quem reúne condições para ser recuperado. A mudança parece técnica, embora suas consequências sejam profundamente humanas.
Ao longo dos últimos anos, acompanhei empresas, executivos e profissionais investindo enormes quantidades de tempo para aumentar alcance, frequência e volume de publicação. Vários conseguiram crescer rapidamente, enquanto outros passaram a produzir conteúdo de forma quase industrial. Poucos, entretanto, dedicaram o mesmo esforço à construção de um território intelectual reconhecível, capaz de conectar ideias e dar sentido ao que publicaram ao longo do tempo.
Existe uma diferença importante entre produzir muito conteúdo e produzir repertório, porque o conteúdo atende ao presente, enquanto o repertório organiza uma trajetória, reúne experiências, estabelece relações e permite que uma ideia encontre continuidade muito depois de sua primeira publicação.
Conteúdo pode gerar audiência. O repertório, quando acumulado com coerência, ajuda a produzir reconhecimento e a consolidar autoridade.
Esse talvez seja o aspecto menos comentado da IA: ela não cria autoridade, pois continua sendo responsabilidade das pessoas estudar, escrever, pesquisar, experimentar, errar, revisar e sustentar ideias durante anos. A novidade está no fato de que essa consistência passa a deixar rastros cada vez mais visíveis para sistemas treinados para reconhecer padrões.
Não me parece coincidência que o jornalismo esteja discutindo novas formas de distribuição, licenciamento e organização de seus acervos. Tampouco considero casual que tantas empresas tenham redescoberto a importância de produzir conhecimento próprio, em vez de depender exclusivamente das tendências do dia, das conversas que desaparecem em poucas horas ou da lógica das redes sociais.
A velocidade continua valiosa e, em muitas situações, faz toda a diferença. Uma cobertura jornalística, uma comunicação de crise ou uma decisão empresarial não podem aguardar pacientemente que o tempo faça seu trabalho.
O problema começa quando transformamos velocidade em estratégia permanente e passamos a operar como se toda relevância dependesse da capacidade de reagir antes dos demais.Quem viveu a internet das últimas duas décadas acostumou-se a imaginar que relevância era uma consequência direta da presença constante: publicar mais, reagir mais rápido e tentar estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mesmo quando já não havia muito a acrescentar.
Nessa pressa por presença, acabamos muitas vezes confundindo exposição com autoridade, embora autoridade jamais tenha sido apenas uma questão de frequência. Ela depende de uma sucessão de contribuições que se confirmam, se aprofundam e, em algum momento, passam a formar uma associação clara entre determinado assunto e quem o conhece o suficiente para falar sobre ele.
Por isso, o desafio dos próximos anos talvez esteja menos em acompanhar todas as conversas e mais em decidir quais delas merecem receber nossa atenção por tempo suficiente para se transformarem em conhecimento. Quando qualquer pessoa ou empresa consegue publicar imediatamente, a vantagem deixa de estar apenas no instante da publicação e passa a depender daquilo que permanece depois que a urgência desaparece.
A velocidade pode colocar alguém no centro da conversa por algumas horas. O repertório é o que oferece razões para que seu nome continue fazendo parte dela quando o assunto já tiver evaporado da timeline.