Marketing

Quer entender marketing e consumo? Escute a geração Alpha

Sem passar o cartão nem fazer PIX, ela já manda no carrinho. Ignorar essa escuta vai custar caro

No Roblox, avatares “feios de propósito” e estética quase quebrada não são descuido: são código. Para a geração Alpha, linguagem visual, ironia e silêncio funcionam como filtro de pertencimento — quem precisa de explicação não é o destinatário (Rafael Henrique/Getty Images)

No Roblox, avatares “feios de propósito” e estética quase quebrada não são descuido: são código. Para a geração Alpha, linguagem visual, ironia e silêncio funcionam como filtro de pertencimento — quem precisa de explicação não é o destinatário (Rafael Henrique/Getty Images)

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 20h00.

Se você entra numa conversa entre adolescentes hoje e escuta coisas como “6-7” (six-seven), “negative aura”, “NPC mode”, “choppelganger”, memes sem final ou áudios errados, não caia na armadilha de concluir que “falta repertório”. A conclusão correta é outra: você não é o destinatário daquela linguagem.

A geração Alpha não conversa para explicar. Conversa para reconhecer pares, testar pertencimento e manter os adultos fora da sala. Sua linguagem é curta, irônica, opaca e muitas vezes deliberadamente vazia. Não por pobreza simbólica, mas por excesso.

Nesse mundo saturado de discurso pronto, reduzir sentido virou estratégia.

Antes de decidir o que consumir, essa geração decide em quem confiar, quando ignorar e quanto esforço emocional vale a pena investir. Por isso seus códigos parecem nonsense. Os Alpha não nasceram para convencer. Nasceram para circular.

Essa lógica não aparece apenas nos memes. Ela organiza comportamento, estética e relação com marcas: avatares feios de propósito no Roblox, beleza “quase quebrada”, rejeição a discursos polidos, ironia sem punchline e silêncio como resposta.

O bonito excessivo soa suspeito. O discurso fechado parece invasivo. Para essa molecada, performance perfeita gera distância.

E o marketing? Bom, esse segue errando ao tratar adolescentes como “os consumidores do futuro”.

Pesquisas mostram que esse futuro já chegou. Um estudo da consultoria Teneo revela que a geração Alpha influencia quase metade das decisões de gasto familiar nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Na América do Norte, isso equivale a US$ 255 bilhões em consumo; no Reino Unido, cerca de £25 bilhões em gastos discricionários domésticos.

Não, eles ainda não fazem PIX nem passam o cartão, porém, copilotam decisões que vão de alimentação e moda a viagens e compras relevantes para o lar. Sou pai de dois (9 e 11 anos) e confirmo essa tese (e pago por ela) no dia a dia.

O impacto vai além do volume. A pesquisa da Teneo desmonta pressupostos centrais do marketing digital, inclusive a ideia de que todo adolescente vive para validar o que aparece no TikTok.

Menos sustentabilidade, mais estética

Apesar de serem a primeira geração totalmente nativa do ambiente online, apenas 22% dizem confiar em informações vindas das redes sociais, enquanto 80% afirmam confiar mais nos pais e familiares como fonte de orientação. A autoridade, portanto, não está no algoritmo. Está no vínculo.

Outro dado reforça essa virada. Diferentemente da geração Z, frequentemente associada a escolhas éticas e ambientais, a geração Alpha prioriza estilo e apelo visual acima de sustentabilidade. Diante de duas opções de produto, 51% escolhem o que “combina mais com seu estilo”, contra apenas 16% que priorizam impacto ambiental. Para eles, identificação vem antes do discurso moral.

Essa formação começa cedo e acontece de forma contínua. Pesquisas do OneHope mostram que jovens utilizam sinais emocionais simples – likes, vitórias em jogos, silêncio, ausência de resposta – para interpretar valor, sucesso e pertencimento. A tecnologia molda o ambiente.

As relações moldam quem eles se tornam. Mesmo hiperconectados, seguem profundamente sensíveis à escuta, à presença e à segurança emocional.

É aqui que o marketing tropeça. Enquanto marcas investem em mensagens cada vez mais explicativas, cheias de propósito declarado e narrativa fechada, adolescentes fazem o oposto: reduzem, esvaziam, cortam sentido.

Não por rebeldia. É para preservar energia emocional. Mensagens muito didáticas, morais ou ansiosas por engajamento soam invasivas para uma geração que aprendeu cedo a desconfiar.

Isso não significa que a geração Alpha rejeita marcas. Ela rejeita ser conduzida, catequizada ou convencida por linguagens que não respeitam seu espaço.

Ouvi-la de verdade, logo, não é copiar memes nem adotar gírias. É observar onde confiam, como constroem critério e por que fecham a porta para certos discursos.

O que hoje parece linguagem juvenil amanhã se consolida como padrão adulto de consumo.

A persuasão calculada perdeu força. A escuta genuína virou vantagem competitiva.

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