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Em tempos de fartura de IA, publicar um livro ainda é sinal de autoridade?

Às vésperas de mais um Dia do Escritor, o debate segue aceso entre autores, publishers e editores

Livros: Em 25 de julho é celebrado o Dia Nacional do Escritor (Getty Images)

Livros: Em 25 de julho é celebrado o Dia Nacional do Escritor (Getty Images)

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 23 de julho de 2026 às 11h41.

Última atualização em 23 de julho de 2026 às 11h43.

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Todo 25 de julho, Dia Nacional do Escritor, alguém repete a frase que virou senso comum, especialmente no mundo corporativo: “Quem tem livro tem autoridade”.

Será mesmo?

Durante décadas, isso foi uma quase verdade. Publicar custava caro: tempo, rigor, um editor disposto a apostar em você, meses de trabalho que ninguém via. Economistas chamam isso de “sinalização”. O sinal comunica algo quando produzi-lo é custoso. Foi exatamente essa lógica que a inteligência artificial colocou à prova.

A entrada em cena da IA mudou esse cenário, e os números medem esse abalo. Um estudo de Imke Reimers (Cornell) e Joel Waldfogel (Universidade de Minnesota), publicado como working paper pelo NBER em maio, mostra que os lançamentos mensais de e-books na Amazon giravam em torno de 100 mil até 2022; hoje, beiram 300 mil.

O conteúdo com IA detectada saiu de perto de zero para mais de 60% ao fim do período.

No Brasil, o apetite acompanhou a oferta. As editoras venderam 185 milhões de exemplares impressos em 2025 e faturaram R$ 4,5 bilhões, crescimento real de 3,3%, segundo CBL, SNEL e Nielsen BookData. Leitores de 18 a 34 anos lideram o consumo.

Para esta coluna, procurei quatro profissionais que vivem essa virada por dentro.

Para Anderson Cavalcante, CEO da Buzz Editora, o livro assumiu novo papel na economia do conhecimento. “O ativo mais valioso da próxima década será credibilidade. E poucas ferramentas comunicam credibilidade com tanta profundidade quanto um livro”, afirma. O perfil de quem publica também mudou: agora, empresários, médicos, executivos e pesquisadores tratam o livro como ferramenta de posicionamento.

“Vivemos uma economia da atenção. A vantagem competitiva será construída na economia da confiança. Um livro continua sendo consultado anos depois porque registra uma forma de pensar.”

Cavalcante fala em responsabilidade intelectual: “Quem decide transformar sua experiência em livro assume um compromisso com o futuro”.

Matheus de Souza, escritor e educador radicado em Paris, testa a tese na própria carreira. Publicou Nômade Digital (Autêntica Business, 2019), que vendeu mais de 110 mil exemplares, mais de 100 mil deles em formato digital. Hoje, toca a newsletter Passageiro, com mais de 20 mil assinantes, a maior newsletter monetizada do Substack Brasil no segmento de literatura.

Fora dos livros, a conta de Matheus é outra: mais de 300 artigos em um blog, 142 edições semanais, coberturas e textos para assinantes. “Já devo ter escrito mais de 10 livros de graça que estão na internet. Só não organizei isso em um ‘objeto livro’”, explica.

“Se eu colocasse no meu perfil do LinkedIn ‘escrevi mais de 500 mil palavras na internet’, tanto faz. Agora, se eu falasse ‘escrevi 15 livros’, as pessoas dariam mais credibilidade.”

Sobre IA na escrita, o uso é zero: “Olho o que a escrita de IA produz e acho tão sem alma que penso: posso fazer melhor. Por que terceirizar a coisa que eu mais gosto de fazer?”, diz o escritor que cruzou o norte do Vietnã de moto até a fronteira com a China e escreveu sobre a viagem. “A máquina nunca vai sorrir para uma criança em um vilarejo, comer carne de porco em uma barraquinha à beira da estrada. Ela não sente.”

Fato.

Personagem não se sustenta

Mayte Carvalho, empreendedora e autora de quatro livros publicados dentro e fora do Brasil — entre eles Persuasão (Buzz, 2020), hoje em sua décima tiragem e presente no Legacy Catalog da New York Public Library, e Ouse Argumentar (Planeta, 2022) — desloca o eixo: “Independentemente de IA, muitos autores já poderiam utilizar ghostwriters. A legitimidade da escrita sempre foi posta em xeque.”

Para ela, a tecnologia mexe nas métricas: tiragem, cópias vendidas, línguas e países. “Coloca um autor desses no palco, em uma entrevista: não vejo como sustentar um personagem por tanto tempo de forma coerente.”

Mayte trata o livro de não ficção como plataforma. Quando a Planeta lançou Ouse Argumentar, ela vendeu treinamento para a Ambev e um projeto para a Audible com a Casa do Saber sobre o mesmo tema. O próximo título, sobre comunicação multicultural, nasceu de uma palestra na IBM. “Vejo como franquia de conteúdo multiplataforma líquida. Se o autor possui um ethos que sustente seu conteúdo, ele tem arcabouço para construir legado”, explica.

Também quis ouvir André Duek, empreendedor internacional, autor do best-seller Potência Empreendedora (Gente, 2023) e coautor de Imigrantes Empreendedores (Mazalti, 2026). Para ele, o livro segue sendo um enorme sinal, “principalmente biografias ou guias de temas atemporais”.

Duek, que vive nos Estados Unidos, escreveu para registrar um legado familiar de resiliência. “Recebo inúmeras mensagens de leitores relatando que o conteúdo mudou o patamar profissional deles. Isso não tem preço.”

O crachá e o prazo de validade

Junte as quatro vozes e aparece um desenho. Minha leitura é que a autoridade por ter escrito um livro vem de um hábito formado quando publicar era difícil. E hábitos têm prazo de validade.

Com a estante lotada de títulos gerados em uma tarde, sobra o teste que Mayte descreve tão bem: o palco, a entrevista, a pergunta que ninguém combinou antes.

Essa é a parte do trabalho que a máquina jamais assume por você. Ela não sobe ao palco, não encara a crítica, não sustentará, em 2036, aquilo que você assinou em 2026. 

Então, neste Dia do Escritor, o conselho que eu daria a qualquer autor com um manuscrito na gaveta é: escreva o livro que você defenderia linha por linha diante de quem viveu o assunto na pele.

Se imaginar esse confronto provocar um calafrio, ótimo. O sinal está funcionando.

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