Marketing

Em Cannes, Mercado Livre defende criatividade com riscos: 'ideias precisam causar estranhamento'

Em conversa com a EXAME, Sean Summers, CMO do Mercado Livre, afirma que marcas precisam evitar a perda de relevância em um mercado com excesso de estímulos

Sean Summers, CMO do Mercado Livre: empresa instalou um hub latino na Riviera Francesa (Divulgação)

Sean Summers, CMO do Mercado Livre: empresa instalou um hub latino na Riviera Francesa (Divulgação)

Soraia Alves
Soraia Alves

Repórter de Marketing

Publicado em 25 de junho de 2026 às 08h17.

Última atualização em 25 de junho de 2026 às 08h39.

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CANNES - Mais do que prestigiar as campanhas mais criativas do mundo, o Cannes Lions sempre destacou o papel da criatividade como diferencial estratégico para o crescimento de empresas e marcas. Faz sentido, portanto, a criação da categoria Creative Brand Lion, novidade desta edição que desloca o olhar da indústria da publicidade para dentro das empresas, especialmente para a forma como elas transformam criatividade em vantagem competitiva.

"Olhamos para diferentes fatores, inclusive para os investimentos realizados pelas marcas ao longo dos anos para estruturar a criatividade como ferramenta de negócio. As companhias precisam mostrar resultados que geraram impacto concreto e de forma consistente. E isso não é algo fácil de construir. Foi uma avaliação bem complexa para os jurados", explica Sean Summers, CMO e EVP Retail Media do Mercado Livre.

O executivo integrou o júri inaugural da categoria, que teve AB InBev e Mastercard como primeiros vencedores. O Mercado Livre, inclusive, também concorreu. Fundada há 27 anos n Argentina como uma plataforma de comércio eletrônico, a companhia ampliou sua atuação para áreas como logística, serviços financeiros, publicidade digital e produção de conteúdo, transformando-se em um dos maiores investidores em comunicação da América Latina.

O hub latino na Riviera Francesa

Summers recebeu a EXAME em um espaço especialmente criado pelo Mercado Livre na Croisette, principal avenida de Cannes que concetra a maioria das ativações do festival. Organizado pelo Mercado Ads, braço de publicidade digital do Mercado Livre, o LATAM Club reúne executivos, anunciantes, agências, afiliados e criadores de conteúdo, e celebridades parceiras da companhia, incluindo os pilotos de Fórmula 1 Gabriel Bortoleto e Franco Colapinto.

A iniciativa acontece em um contexto de maior protagonismo latino-americano na indústria global da comunicação. Há anos profissionais latinos são destaque no Cannes Lions, mas agora a busca é por ampliar essa influência também em discussões sobre tecnologia, mídia, comércio e transformação digital.

Para Summers, a necessidade constante de adaptação acaba sendo um diferencial para os negócios latinos, natualmente mais propensos à experimentação.

"Nós sabemos que, para nos destacarmos em um cenário com as melhores empresas e marcas, não podemos fazer o mesmo que o restante do mundo", destaca. "Historicamente, a América Latina convive com instabilidades, e isso faz com que tenhamos que assumir riscos todos os dias, tanto na vida cotidiana quanto nas empresas. Acho que, justamente por isso, somos mais abertos às ideias, o que é uma condição importante para gerar resultados. A criatividade latino-americana é distinta."

A lógica do risco no Mercado Livre

A ideia de assumir riscos influencia diretamente a estratégia de comunicação da companhia. Summers defende que as marcas precisam reservar espaço para ideias capazes de gerar estranhamento e surpresa.

"Eu sempre digo que precisamos executar o básico muito bem, mas uma parte das ideias tem de ser algo que provoque desconforto ou que ninguém sabe exatamente como o consumidor vai reagir", diz.

Em sua avaliação, a maior ameaça para as marcas não é o fracasso de uma campanha, mas a irrelevância:

"Se não assumirmos riscos, viramos papel de parede: uma marca que se mistura à paisagem e não é notada pelo consumidor em meio ao excesso de estímulos visuais atuais."

Os riscos, no entanto, são comedidos. Segundo o executivo, o ideal é que apenas 10% a 20% das ideias sejam o que ele chama de "crazy shit".

Entre tradição e transformação

Outro diferencial, para Summers, é o balanço que as empresas devem ter hoje em relação às formas de investir em criatividade. Para o executivo, o Cannes Lions 2026 tem reforçado mudanças na própria dinâmica da indústria. Uma delas é o papel dos criadores de conteúdo, que passaram a ocupar um espaço de destaque ao lado de anunciantes, agências e plataformas de tecnologia.

"Os criadores são as estrelas do festival. No ano passado já havia muitos. Mas, neste ano, a presença deles explodiu", observou.

Essa tendência é acompanhada de perto pelo Mercado Livre. Para o hub em Cannes, por exemplo, a companhia levou um time afiliados e criadores de conteúdo, incluindo nomes como Thais Carla, Evelyn Regly e Gizelly Bicalho.

O investimento da companhia no nicho tem dado grandes retornos. Atualmente, o Programa de Afiliados e Criadores do Mercado Livre registra mais de 7 milhões de inscritos na América Latina , sendo a maior rede de afiliados e criadores da região. Em 2025 chegou a representar 88 pedidos por minuto dentro do Mercado Livre.

No entanto, Summers contesta a visão de que a ascensão dos creators representa o fim da mídia tradicional. A empresa mantém parcerias com grupos de mídia de grande alcance, a fim de atingir um público ainda mais amplo.

"Tentamos alcançar consumidores que nunca fizeram uma compra online. Pode parecer incrível, mas há muitas pessoas com esse perfil. O alcance no universo dos serviços financeiros, então, é menos desenvolvido ainda. Por isso, para nós, a mídia tradicional ainda tem um papel muito importante", finaliza.

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