Liderança: IA pressiona executivos a reverem modelos de gestão e inovação. (AzmanL/Getty Images)
Colunista
Publicado em 8 de junho de 2026 às 16h30.
Última atualização em 8 de junho de 2026 às 17h02.
Há uma conversa que muitos líderes têm consigo mesmos entre uma reunião e outra, ou mesmo tarde da noite. Não é sobre metas. É uma pergunta mais incômoda: o que é esperado de mim agora?
Essa pergunta não costumava aparecer com tanta frequência. Por décadas, o papel do líder era claro: definir direção, alocar recursos, cobrar entregas, manter a coesão do time. Havia uma lógica interna que, mesmo quando o mercado mudava, permanecia reconhecível.
Essa lógica está sendo pressionada. Por forças que não respeitam o calendário de transformação das organizações.
A liderança baseada em comando e controle surgiu de uma necessidade real: coordenar pessoas em escala, reduzir variabilidade, garantir previsibilidade. Funcionou. E os princípios que ela consolidou — hierarquia clara, processos definidos, responsabilidade com nome e rosto — não perderam validade.
O que perdeu validade é a aplicação desses princípios como resposta padrão para todos os problemas. Inclusive os que exigem exploração antes de solução.
O líder do século passado foi treinado para dar respostas. O desafio de hoje é saber quando a pergunta ainda não foi feita corretamente.
A transição para a era da informação mudou a natureza do conhecimento útil dentro das organizações. Quem sabe o quê, quem acessa o quê e quem é capaz de interpretar o quê — tudo isso foi redistribuído de formas que os organogramas ainda não representam.
O líder que centraliza decisões porque centraliza informação começa a perder velocidade. Não por déficit de capacidade, mas porque o volume e a complexidade da informação já superam o processamento individual.
A inteligência artificial não criou esse problema. Ela o tornou difícil de ignorar. Ela expõe a diferença entre o líder que opera no centro do fluxo de decisões e o líder que orquestra um sistema maior do que ele mesmo.
O Fear of Missing Out, quando aparece em líderes, costuma ser tratado como ansiedade a ser superada. Essa leitura é imprecisa.
O FOMO que muitos experimentam hoje — diante de tecnologias que se movem sem aviso, de competidores que operam com lógicas diferentes — não é produto de insegurança. É a percepção de que o terreno está se movendo e que os instrumentos disponíveis foram calibrados para outro tipo de solo.
Sentir que algo está acontecendo e que você ainda não tem ferramentas para nomeá-lo não é fraqueza. É o sinal de que você ainda está prestando atenção.
O risco está na resposta equivocada: a compulsão por adoção acelerada, a busca por uma ferramenta que resolva a sensação de defasagem, a confusão entre transformação e aquisição de software.
Quando se diz que o líder precisa inovar, a imagem que vem junto é a do visionário — alguém que enxerga o futuro antes dos outros, que rompe paradigmas. Essa imagem é inacessível para a maioria das pessoas e, mais relevante, não corresponde ao que a inovação exige na maior parte do tempo.
A inovação que transforma organizações começa com uma pergunta sobre por que algo funciona de um jeito quando poderia funcionar de outro. Começa com a disposição de não saber, enquanto se explora. Começa com líderes que criam condições para que outras pessoas pensem de formas que o próprio líder ainda não consegue.
Esse papel é diferente do líder que dá as respostas. E talvez seja o mais difícil — porque exige renunciar à certeza como fonte de autoridade.
Há uma diferença entre inovar como iniciativa e explorar como postura. A primeira é o que as empresas fazem quando criam laboratórios, contratam consultores para mapear tendências, lançam programas com metas definidas. Não é errado. Mas produz, com frequência, inovação periférica — que não altera o núcleo do modelo de negócio.
Explorar como postura é outra coisa. É o líder que mantém, no meio da operação, uma pergunta aberta sobre o que ainda não compreende. Que experimenta antes de escalar. Que aceita resultados ambíguos sem forçar uma conclusão antes do tempo.
Explorar não é um projeto com início, meio e fim. É uma forma de habitar a liderança em períodos de incerteza estrutural.
Quando essa postura é percebida pelo time, ela muda a cultura ao redor do líder. Pessoas que sentem que seu líder está explorando junto tendem a assumir riscos de formas mais consistentes.
A tensão entre o líder que fomos treinados a ser e o que o momento parece exigir não tem resolução limpa. Não porque seja impossível aprender. Mas porque ambos os modelos respondem a necessidades legítimas. As organizações precisam de previsibilidade e de exploração. De estrutura e de adaptabilidade.
O dilema não é escolher entre um modelo e outro. É desenvolver a capacidade de transitar entre eles — sabendo quando a situação pede controle, quando pede abertura, e quando pede admitir que ainda não se sabe o que ela pede.
O líder que consegue habitar essa tensão sem precisar resolvê-la antes do tempo talvez seja o perfil mais necessário deste momento.
Essa capacidade não vem de curso nem de framework. Vem de reconhecer quando se está operando no território conhecido — e quando é o território desconhecido que merece atenção.
Este artigo não oferece respostas definitivas sobre o futuro da liderança. Oferece, intencionalmente, a pergunta.