Líderes Extraordinários

Líderes se abrem primeiro e a IA não vai mudar isso

Em um ambiente cada vez mais tecnológico, vulnerabilidade, escuta e confiança continuam sendo competências exclusivamente humanas

Liderança vulnerável: escuta, humildade e abertura nos conflitos fortalecem pessoas e organizações. (Pexels)

Liderança vulnerável: escuta, humildade e abertura nos conflitos fortalecem pessoas e organizações. (Pexels)

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 16h00.

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Quando eu tinha 16 anos e apenas uma vaga ideia do que prestar no vestibular, perguntei ao Flávio, colega de escola um ano mais velho, o que era Administração. O Flávio parecia saber das coisas e estava decidido que esse seria seu curso. A explicação dele foi brutal: alguém precisa mandar nos outros, esse alguém pode ser eu.

No imaginário das pessoas e ainda em parte das empresas a alta liderança habita o último andar do prédio, nas salas mais protegidas, rodeada por assistentes que visam preservar o precioso tempo de quem decide das distrações do dia a dia.

Os ventos mudaram e novas gerações vêm empurrando a liderança para novos papéis e novas atitudes (finalmente!). Essa semana, ouvi o ótimo Mario Sérgio Cortella falar que liderança se constrói com generosidade mental, coerência ética e humildade intelectual. Preciso. E para que generosidade e humildade existam de fato é preciso que a liderança não se coloque acima dos demais, mas ao lado. É entre pares que a magia acontece e o primeiro passo para desmontar a hierarquia tem de ser dado pela liderança.

Hierarquia traz previsibilidade e certa ordem, mas cria barreiras importantes de comunicação e atrapalha de fato a conversa honesta e construtiva. O desenvolvimento do outro e de si mesmo acontece quando há espaço para vulnerabilidade, para ser você mesmo.

O momento mais oportuno para o líder criar esse ambiente é quando seu time mais precisa: no conflito. É no momento de tensão, de estresse, de conflito aberto que a liderança deveria dar o primeiro passo, refletir sobre seus próprios erros e se abrir para o outro. Oferecendo não a sua sabedoria, mas a sua vulnerabilidade. Os seus erros, seus fracassos e o que eles trouxeram de aprendizado. Seus medos e inseguranças. Ofereça a sua dor, o que o outro não sabe, mas que pode dar a ele conforto de saber que você é humano e que o entende.

Não foi assim que liderança foi ensinada. Liderança forte, para muita gente, ainda é o falar mais alto, falar primeiro e por último. Não queremos pequenos ditadores nas empresas, eles até podem acelerar crescimento por um período, mas não constroem no tempo.

A mentalidade de construir fundações sólidas e negócios milenares tem de estar na cabeça de cada liderança nossa. O crescimento, das empresas ou das pessoas, nunca é linear. Teremos anos bons e anos ruins, mas a qualidade da liderança não deve oscilar como o resultado financeiro ou comercial do negócio ao longo do tempo. Quando construímos pessoas com humildade de escuta, autenticidade, velocidade de aprendizado e capacidade de se abrir primeiro quando o conflito surge criamos o solo para que a longevidade da organização aconteça.

E no meio de tanta discussão se a IA nos substituirá é bom lembrar que a IA não sente, não tem inteligência emocional e jamais entenderá o outro como um humano o faria. Essa é a nossa linha de defesa e é onde a liderança será sempre insubstituível.

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