Educação financeira: dívidas afetam foco e produtividade no trabalho. (Tom Werner/Getty Images)
Colunista
Publicado em 3 de junho de 2026 às 17h30.
Quase 80% das famílias brasileiras estão endividadas. Agora pense no seguinte: milhões dessas pessoas estão hoje em seus locais de trabalho tentando produzir, participar de reuniões e tomar decisões enquanto pensam em boletos atrasados, limites estourados e contas que não fecham no fim do mês. Esse não é apenas um problema pessoal. É também um problema econômico.
Quando se fala em educação financeira, muita gente ainda pensa apenas em planilhas, investimentos ou em como fazer o dinheiro render mais. Mas a verdade é que educação financeira não é, essencialmente, sobre dinheiro. É sobre comportamento humano, tomada de decisão e, principalmente, produtividade.
Existe um problema silencioso acontecendo dentro das empresas brasileiras que raramente aparece nos relatórios corporativos: funcionários endividados. A única informação que a empresa tem é quantos estão endividados no crédito consignado, já que essa modalidade vem descontada diretamente da folha de pagamento.
E o impacto disso é muito maior do que parece.
Uma pessoa que está com a vida financeira desorganizada não deixa o problema em casa quando sai para trabalhar. Ela leva essa preocupação para o escritório, para a fábrica, para a reunião e para cada decisão que precisa tomar ao longo do dia. Lembro que, quando eu tinha 17 anos e comecei a trabalhar, esse era o lema da empresa: “não levar problema pessoal para o trabalho”. Ao longo dos anos, descobrimos que não há como fazer essa separação, muito embora devamos, como empregados, tentar ser o mais produtivos possível, independentemente do que esteja acontecendo no nosso mundo lá fora.
A mente fica ocupada tentando resolver boletos atrasados, renegociar dívidas ou entender como vai fechar o mês. Não sobra energia mental para pensar estrategicamente, inovar ou produzir no máximo da sua capacidade.
Esse não é um problema isolado.
Hoje, quase 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Mais preocupante ainda: cerca de um terço dessas famílias já está inadimplente, ou seja, não consegue pagar suas obrigações em dia, de acordo com os mesmos levantamentos da CNC.
Quando olhamos para esses números sob a perspectiva das empresas, o impacto fica evidente.
Estamos falando de milhões de trabalhadores que chegam ao trabalho já mentalmente sobrecarregados por preocupações financeiras.
Pesquisas internacionais indicam que mais de 60% dos trabalhadores afirmam que o estresse financeiro afeta diretamente sua produtividade e desempenho no trabalho, segundo levantamento da consultoria PwC sobre bem-estar financeiro no ambiente corporativo.
Em outras palavras: a desorganização financeira não é apenas um problema individual. Ela é um problema econômico abrangente.
Empresas perdem produtividade. Equipes perdem foco. O país perde eficiência.
Se milhões de trabalhadores estão constantemente preocupados com dinheiro, a economia inteira opera abaixo do seu potencial.
Esse cenário gera um ciclo difícil de quebrar. O trabalhador endividado precisa produzir bem para crescer na carreira e melhorar sua renda. Mas, ao mesmo tempo, a pressão financeira reduz sua capacidade de desempenho.
É como tentar correr uma maratona carregando uma mochila cheia de pedras.
Por isso, cada vez mais empresas ao redor do mundo começam a enxergar a educação financeira como uma ferramenta estratégica de gestão de pessoas. Eu mesmo já fiz centenas de palestras em empresas com este objetivo.
Não se trata de ensinar funcionários a investir na bolsa de valores. Trata-se de algo muito mais básico e poderoso: ajudar as pessoas a organizar sua vida financeira, entender como o dinheiro funciona e tomar decisões melhores.
E aqui existe um ponto que muitas vezes é ignorado quando se fala de dinheiro: nossas decisões financeiras raramente são racionais. Elas são emocionais.
Quando uma pessoa está financeiramente pressionada, com dívidas acumuladas ou sem clareza sobre sua própria situação, o estado emocional muda completamente. Surge ansiedade, medo, sensação de perda de controle e, muitas vezes, vergonha.
Esse estado emocional afeta diretamente a forma como tomamos decisões.
Pessoas sob estresse financeiro tendem a agir no curto prazo, buscam soluções imediatas e acabam tomando decisões que aliviam a pressão do momento, mas que pioram ainda mais a situação no futuro. É nesse contexto que surgem empréstimos mal planejados, uso excessivo do crédito e decisões impulsivas.
Não é falta de inteligência financeira. É o impacto das emoções sobre o processo de decisão.
Quando as emoções estão desorganizadas, as decisões financeiras quase sempre seguem o mesmo caminho.
Por isso, educação financeira não é apenas ensinar a matemática do dinheiro. É também ajudar as pessoas a desenvolver consciência sobre o próprio comportamento, entender seus gatilhos emocionais e construir hábitos mais saudáveis na relação com o dinheiro.
Quando uma pessoa ganha clareza sobre sua situação financeira, a primeira mudança que acontece não é na conta bancária. É na mente.
Funcionários financeiramente organizados tendem a ter menos estresse, menos absenteísmo e maior foco no trabalho.
Isso se traduz diretamente em produtividade.
Existe ainda um ponto sensível que muitas empresas evitam discutir, mas que também faz parte dessa realidade. Em ambientes onde profissionais lidam com recursos financeiros, decisões de crédito ou movimentação de valores relevantes, a pressão financeira pessoal pode aumentar a exposição a riscos. Isso não significa, de forma alguma, que pessoas com dificuldades financeiras sejam desonestas. A grande maioria jamais cruzaria essa linha. Mas gestores experientes sabem que situações de estresse extremo podem levar indivíduos a tomar decisões que normalmente não tomariam. Por isso, cuidar da saúde financeira das pessoas dentro da organização também é uma forma de fortalecer a governança e reduzir vulnerabilidades que poderiam, em casos isolados, gerar prejuízos para a própria empresa.
Algumas empresas já perceberam todo esse problema e começaram a implementar programas de educação financeira corporativa, oferecendo workshops, mentorias, conteúdos educacionais e ferramentas que ajudam seus colaboradores a lidar melhor com o próprio dinheiro. (Aqui posso fazer um jabá? Eu estou vendendo uma ferramenta que ajuda, chama-se granai, pode ver em www.minhagranai.com.br). Não é indicado fazer esse “jabá” no artigo da Exame.
O retorno desse tipo de iniciativa vai muito além do bem-estar individual. Ele aparece em clima organizacional, engajamento e, principalmente, desempenho. Mas existe uma dimensão ainda maior nessa discussão.
Quando falamos em educação financeira, não estamos falando apenas de melhorar a vida de indivíduos ou de empresas específicas. Estamos falando de infraestrutura econômica.
Da mesma forma que um país precisa investir em estradas, energia e tecnologia para crescer, ele também precisa investir em capital humano. E capital humano inclui capacidade de tomar boas decisões financeiras.
Uma população que entende como funciona orçamento, crédito, juros e planejamento de longo prazo tende a cometer menos erros financeiros, acumular mais patrimônio ao longo da vida e depender menos de soluções emergenciais. Isso fortalece o sistema econômico como um todo.
Pessoas financeiramente organizadas consomem melhor, investem mais e tomam decisões de longo prazo com mais consciência. Isso gera estabilidade, que gera crescimento.
Educação financeira não é um luxo. Não é um tema secundário. É uma competência essencial para qualquer sociedade que deseja prosperar.
Se queremos um país mais produtivo, mais estável e com maior mobilidade econômica, precisamos tratar a educação financeira com a mesma seriedade com que tratamos outras políticas estruturais.
Não é apenas sobre ensinar pessoas a investir. É sobre ensinar pessoas a decidir melhor.