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Síndrome da Sardinha: a obsessão pelo bilhete premiado

No afã de encontrar a próxima 'grande porrada', pequenos investidores deixam passar oportunidades muito mais óbvias
'Todos que tomam contato com a bolsa carregam no seu subconsciente o sonho do bilhete premiado' (AFP/Pierre-Philippe Marcou/AFP)
'Todos que tomam contato com a bolsa carregam no seu subconsciente o sonho do bilhete premiado' (AFP/Pierre-Philippe Marcou/AFP)
Por Ricardo Schweitzer*Publicado em 02/04/2022 08:15 | Última atualização em 01/04/2022 23:52Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Por Ricardo Schweitzer*

Dia desses estava no Instagram respondendo a algumas perguntas de seguidores e revelei que cerca de 10% do meu portfólio de renda variável está atualmente alocado em teses de reestruturação – os famosos turnarounds.

Aquilo foi o pontapé inicial para um diálogo muito interessante com um investidor, que revelou ter quase 70% da carteira investido nesse tipo de tese. Nas palavras dele, minha estratégia era coisa de quem já tem bastante dinheiro; que quem tem pouco capital precisa arriscar mais, pois seu maior risco é não ganhar.

Respeito o ponto de vista e desejo sorte ao colega investidor. Mas, humildemente, ouso discordar: sou árduo defensor da ideia de que quem tem pouco, está começando, tem a seu favor o fator tempo, os aportes e as teses de investimento consolidadas.

Tome por referência qualquer uma das principais blue chips da bolsa brasileira. Na maioria das janelas de tempo, os retornos anualizados que investimentos relativamente óbvios proporcionam é suficientemente atrativo para, ao longo de alguns anos e com reinvestimentos, se amealhar razoável patrimônio. Uma carteira replicando o Ibovespa serve bem a esse propósito. Uma carteira de dividendos, composta unicamente de empresas bem estabelecidas e com políticas generosas de proventos consegue, inclusive, superar o principal benchmark da bolsa brasileira em diversas janelas de tempo.

Se, em termos consolidados, os retornos de nosso mercado de capitais fossem medíocres, talvez o argumento do colega encontrasse sustentação. Talvez seja a situação dos investidores japoneses diante de um índice Nikkei desanimador há décadas. Mas não é, absolutamente, a realidade aqui.

A mim parece, na verdade, que as teses de turnaround exercem um fascínio no pequeno investidor que resulta em uma representatividade desproporcional delas nos portfólios PF Brasil afora. E isso tem lá suas razões de ser.

Em maior ou menor medida, todos que tomam contato com a bolsa carregam no seu subconsciente o sonho do bilhete premiado: almejam encontrar aquela ação – aquela, singular – que os deixará ricos mediante um extraordinário retorno. XPTO é a nova Magalu…

(Ainda cabe falar em “nova Magalu” depois de MGLU3 acumular 64% de queda no último ano?)

O grande problema é que há muito mais OGXs, Agrencos, PDGs e tantas outras tranqueiras do que Magalus esperando para serem descobertas. Além do mais, o investimento exclusivo em teses altamente arriscadas demanda preparo e controle que a grande maioria dos investidores – e, ainda mais, a grandessíssima maioria dos pequenos investidores que alegam que precisam arriscar porque não têm capital… – simplesmente não tem.

Não tenha dúvida: mesmo entre os felizardos que encontraram a Magalu original, apenas uma ínfima minoria foi capaz de permanecer com as ações por tempo suficiente: muitos desistiram antes de a tese virar; outros sucumbiram aos drawdowns que inevitavelmente ocorreram ao longo do caminho; outros, por fim, simplesmente venderam cedo demais. Mas é lógico que todo mundo se acha diferente; acredita que, quando for consigo a situação, agirá de outra forma… sim, claro.

Por óbvio, pouca gente está interessada em ficar rico devagar. E é precisamente pelo desinteresse pelo caminho mais fácil (ainda que mais demorado) que a maioria, francamente, não chegará a lugar algum.

Longe de mim demonizar os turnarounds: adoro-os como analista (são sempre, acima de tudo, desafios intelectualmente instigantes) e como investidor (porque não sou de ferro…). Mas não guardo, nem de longe, a ilusão de que eles mudarão meus investimentos de patamar. Não vão: dando certo, adicionarão alguns pontos percentuais no meu desempenho anual – que, no longo prazo, fará diferença significativa –, e só. Dando errado, não me trarão risco de ruína – esse, sim, o principal risco que qualquer investidor consciente deveria, em primeiro lugar, evitar.

A pergunta é: a que grupo você quer pertencer? Lá na frente, olhando para trás, com qual trajetória você quer se identificar?

Até a próxima.

*Ricardo Schweitzer é analista CNPI, consultor CVM e investidor profissional. Escreve na EXAME Invest a cada duas semanas.

Twitter: @_rschweitzer
Instagram: @ricardoschweitzer