Segundo melhor fundo da década está comprando ações

Com rendimento acumulado de 1.433% desde 2000, fundo de ações da BNY Mellon ARX acredita que papéis de consumo básico e de grandes bancos estão com preços atrativos

São Paulo – Todo mundo já sabe que, para ganhar dinheiro em bolsa, é necessário comprar na baixa e vender na alta. O difícil é ter coragem para colocar o plano em prática em dias como a última segunda-feira (08/08), em que o Ibovespa derreteu 8%. Mas foi exatamente isso que fez Rogério Poppe, gestor do BNY Mellon ARX Income FIA, um fundo de ações que rendeu 1.433% entre janeiro de 2000 e a última sexta-feira, o segundo maior retorno da categoria (veja o ranking abaixo, extraído da base de dados da consultoria Economática).

Nome Classificação Anbima Retorno entre janeiro de 2000 e 5 de agosto de 2011 (%) Taxa de administração máxima ao ano (%) Taxa de performance (%) Aplicação inicial mínima Tipo de investidor
Tempo Capital FIC FIA Ações Livre 2269,07 2,6 20% da variação da cota do FUNDO que exceder 100% da variação do IBrX fechamento 300.000 Invest. Qualificado
BNY Mellon ARX Income FIA Ações Dividendos 1433,03 3 - 20.000 Todos
Small Cap Valuation Ib FIA Ações Small Caps 1377,46 2 15% s/ 100% do IBOVESPA 5.000 Todos
Dynamo Cougar FIA Ações Livre 1299,6 2 15% s/ 100% do IGPM + 6% 100.000 Invest. Qualificado
Bradesco Prime FICFIA Small Cap Ações Small Caps 1235,55 3 - 1.000 Todos
Franklin Temp Valor e Fvl FIA Ações Livre 1011,13 2 20% da valorização da cota do fundo que exceder IGPM acrescido de 6% ao ano 50.000 Invest. Qualificado
Itau Acoes Dividendos FI Ações Dividendos 962,28 1,5 - 5.000 Todos
Safra Mult Dividendos FIA Ações Dividendos 935,57 1,5 NE 0 Todos
Fama Futurewatch I FIC FIA Ações Livre 907,05 2,5 20% que exceder 100% do IGPM + 6% 50.000 Invest. Qualificado
Santander FI Dividendos Acoes Ações Dividendos 897,07 4 - 1.000 Todos

Na opinião do gestor, as ações dos grandes bancos e de empresas consumo básico já estão com preços atraentes o suficiente para motivar qualquer investidor com perspectiva de longo prazo a pensar em aproveitar a oportunidade para comprá-las. Em entrevista a EXAME.com, ele deixou claro que não adianta tentar adivinhar o fundo do poço para a bolsa e explicou como tem encarado os atuais dias de pânico. Leia a seguir os principais trechos:

EXAME.com – Como o fundo enxerga o atual momento das bolsas?

Poppe – Estamos vivendo um momento de pânico. É muito difícil de tomar decisões agora. Mas temos aproveitado para usar parte do dinheiro que tínhamos em caixa para comprar algumas ações. Há um mês, estávamos com cerca de 10% do patrimônio de 450 milhões de reais do fundo parado à espera de boas oportunidades. Hoje o caixa do fundo caiu para 5%. Achamos que esse é um ponto interessante de entrada para comprar papéis que enxergamos com preços atrativos. É lógico que é muito desconfortável olhar as cotações de nossos papéis em um momento em que a Standard & Poor’s rebaixa a nota americana. Mas ainda temos uma perspectiva de obter um bom retorno no longo prazo.

EXAME.com – Que ações vocês estão comprando?

Poppe – Estamos focados em ações ligadas à economia doméstica, que são menos dependentes do crescimento global. Acreditamos que há boas oportunidades no setor financeiro e em ações ligadas ao consumo, cujos resultados são considerados mais previsíveis neste momento. Os grandes bancos estão com preços especialmente atrativos para quem olha as expectativas de retorno no longo prazo e o potencial de lucratividade. Essas instituições conseguiram apresentar bons resultados e superaram diversas crises nos últimos anos. É lógico que uma eventual retração no crédito causada pela crise é uma preocupação que temos. Mas ainda vemos e o governo disposto a sustentar a atividade da economia. É por isso que estamos confortáveis com o investimento em grandes bancos.

EXAME.com – E dentro do setor de consumo, quais seriam as melhores opções?

Poppe – Preferimos as ações de empresas que dependem menos do crédito e vendem bens de primeira necessidade ou de necessidade recorrente. São companhias que terão demanda firme em qualquer cenário. Com a renda ainda em alta, achamos que essas empresas mais defensivas vão superar bem a crise e representam uma oportunidade.


EXAME.com – Que cuidados precisam ser tomados para investir em bolsa neste momento?

Poppe – A gente não sabe até onde a crise pode ir. Então estamos tomando o cuidado de selecionar as empresas que não oferecem risco para a sustentação do negócio em si. Olhamos os balanços e verificamos os fundamentos, a liquidez de curto prazo, o endividamento, a geração de caixa, posições em dólar e qual seria o comportamento da empresa se houvesse uma alta da moeda americana. Por mais que o movimento da bolsa seja frenético nesta semana, a gente procura fazer essa análise com calma. Sempre que compramos um papel, é porque estamos confortáveis em mantê-lo por vários anos. Tanto que o giro da carteira do fundo é de cerca de 30% ao ano. Lógico que se tudo mudar, podemos mudar a estratégia. Mas não é esse o objetivo do fundo.

EXAME.com – Qual é a visão para o setor de commodities?

Poppe – Achamos que se houver uma recessão mundial, o preço das commodities tende a cair para um patamar que não conhecemos. Portanto, os preços dos produtos vendidos por uma Vale ou uma Petrobras serão menores, o que prejudicará a geração de caixa. Se o investidor olhar para o múltiplo atual, vai achar o investimento interessante. Há um mês, a ação da Vale poderia ser considerada baratíssima porque estava sendo negociada por um valor correspondente a 5 ou 5,5 vezes o lucro anual. Mas não dá para comprar essa ação baseado somente nisso porque existe um cenário bem provável de que o preço do minério de ferro caia para 170, 150 ou 120 dólares a tonelada. Como não sabemos avaliar até onde os preços podem cair, estamos mais confortáveis em correr o risco de ações ligadas ao mercado interno neste momento.

EXAME.com – Até que ponto o cenário mudou de um mês para cá?

Poppe - Mudou bastante. O Brasil vai crescer menos neste ano e no próximo e isso deve ter reflexos no preço das ações. Também estamos dando muita ênfase ao endividamento das empresas porque, se a crise durar seis meses, algumas delas devem passar por um estresse financeiro. Só estamos comprando bolsa porque, com o Ibovespa a 48.000 pontos, existe um potencial de retorno que não existia seis meses atrás.

EXAME.com – Então nem pensar em investir em empresa endividada neste momento?

Poppe – Não, é preciso olhar caso a caso. Concessionárias de serviços públicos, como empresas do setor elétrico e de telefonia, têm forte geração de caixa e uma demanda quase constante. Então não há problema que uma empresa dessa esteja endividada porque seu faturamento não vai cair 30% ou 40% em um cenário de estresse. O que a gente não vai fazer é comprar uma empresa que esteja endividada e não possa sobreviver com o próprio caixa em um cenário extremo. Imagine que haja restrições de crédito no Brasil. Uma empresa endividada e com pouco caixa pode ter de pagar juros altíssimos para financiar sua operação, o que prejudicaria os resultados.

EXAME.com – O fundo sempre busca empresas com forte geração de caixa?

Poppe – Temos esse enfoque em geração de caixa no curto prazo. Não é o objetivo do fundo investir agora em empresas que prometem gerar caixa daqui a dois ou três anos. Compramos muitas ações de energia e telecomunicações. Chegamos a ter 30% do dinheiro aplicado nessas ações em 2011. Hoje estamos com cerca de 25%. 


EXAME.com – Como você enxerga a situação nos Estados Unidos e na Europa, que tanto tem chacoalhado o mercado nos últimos dias?

Poppe – Acho que os investidores têm tirado um pouco do crédito que depositavam nos governos dos países desenvolvidos em relação à capacidade deles para resolver os problemas. Em 2008, o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) iniciou uma política de relaxamento monetário. Outros bancos centrais também foram proativos e até mesmo governos do Brasil e da China injetaram dinheiro na economia para compensar um momento de retração do setor privado. Dois anos depois, começa a se espalhar pelo mercado uma percepção de que os governos não conseguiram resolver a crise. As principais economias não estão crescendo. Já o questionamento em relação à capacidade desses países para arcarem com as próprias obrigações não para de aumentar. A decisão da S&P de rebaixar os EUA mostra isso. O que a S&P está dizendo é que os governos não podem mais assumir gastos elevados sem comprometer a capacidade futura de pagamento. Ao mesmo tempo, os governos não têm mais muitas ferramentas para usar.

EXAME.com – O que mais eles podem fazer?

Poppe – O Federal Reserve já fez sua parte com a política monetária, baixando os juros. Eles até podem anunciar uma nova política de relaxamento monetário, mas somente isso não parece ser a solução. Poderia haver um efeito positivo para o preço das commodities, o que ajudaria o Brasil. O problema é que alivia a situação, mas não resolve. A votação do aumento do teto da dívida no Congresso americana mostrou a incapacidade dos EUA em coordenar políticas que sustentem o crescimento. Eles precisam de algum tipo de pacote fiscal que possa sustentar a dívida no longo prazo ao mesmo tempo em que injeta algum recurso na economia no curto prazo.

EXAME.com – E na Europa, como se resolve o problema?

Poppe – Também vejo essa falta de coordenação entre os governos na Europa. É uma situação até pior porque envolve soberania. Na década de 1990, o governo brasileiro anunciou um plano para resgatar os estados que estavam bastante endividados. A União assumiu a dívida dos estados, mas impediu que eles voltassem a se endividar e apresentou uma lista de exigências fiscais aos governadores. Na Europa, uma solução desse tipo poderia funcionar. O problema é a soberania. A Alemanha sabe que é importante ajudar outros países da zona do euro até para a própria sobrevivência, mas como eles imporiam restrições fiscais a outros países? Em algum momento, acredito que eles terão de chegar a algum tipo de solução na área fiscal. Qualquer outra medida que seja anunciada é paliativa, é resolver os problemas empurrando com a barriga. Se a Europa quiser voltar a crescer, terá de agir.

EXAME.com – Como o Brasil está posicionado para enfrentar o que vem por aí?

Poppe - O Brasil continua muito bem economicamente. A Bovespa tem despencado porque precisa dos investidores estrangeiros para que os preços das ações se sustentem. Também existem algumas vulnerabilidades reais. A economia brasileira depende demais do crescimento externo e do preço das commodities. É possível que mais adiante haja algum tipo de estancamento do crédito, ainda que de alguma forma não tão grave quanto em 2008. Nesse caso, também haveria adiamento de investimentos e uma expansão menor do PIB em 2011 e em 2012. De certa forma, a presidente Dilma está tentando montar às pressas um pacote para ajudar a indústria, com medidas para compensar a taxa de câmbio e reduzir a competição de produtos importados. É algo que pode funcionar no curto prazo.

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