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Mercado vê juros altos por mais tempo nos EUA

Choque de energia sem solução mantém inflação alta e reduz margem dos bancos centrais para esperar

Treasuries: rendimentos de 30 anos no maior nível desde 2007 reabrem debate sobre renda fixa. (Paul Yeung/Bloomberg)

Treasuries: rendimentos de 30 anos no maior nível desde 2007 reabrem debate sobre renda fixa. (Paul Yeung/Bloomberg)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 19 de maio de 2026 às 07h15.

Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, Treasuries, com vencimento em 30 anos voltaram a rondar patamares não vistos desde 2007, e a inflação global parece ter vindo para ficar.

O pano de fundo é a reunião do G7 em Paris, onde ministros de finanças e presidentes de bancos centrais das maiores economias do mundo se encontraram nesta semana com uma realidade em comum na mesa.

O choque de preços ao consumidor que muitos esperavam ser passageiro está se mostrando persistente. A guerra no Irã gerou um choque de energia, pressionando combustíveis, alimentos e custos em diferentes cadeias.

O secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Mathias Cormann, falou que "quanto mais tempo isso durar, maior será o risco de efeitos secundários".

Ele destacou, ainda, que "se observarmos aumentos salariais como efeitos secundários, os bancos centrais precisarão agir, mesmo que a perspectiva de crescimento econômico seja um pouco mais fraca."

O que sinaliza os Treasuries?

O mercado de swaps de inflação de cinco anos nos EUA também voltou a subir, acompanhando a escalada dos preços de energia, em mais um sinal de que os investidores não estão apostando numa reversão rápida da inflação.

E quanto mais tempo essa percepção se mantiver, mais os rendimentos dos títulos longos, como o caso do de 30 anos, tendem a se sustentar em patamares elevados, segundo fontes ouvidas pela agência.

A estrategista-chefe de investimentos globais da Nuveen, Laura Cooper, resumiu o impasse. "A questão é: quando o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) vai mudar de estratégia para tentar demonstrar que realmente pretende conter essas pressões inflacionárias?".

Enquanto essa resposta não vem, o mercado segue precificando juros altos por mais tempo, o que mantém os rendimentos dos Treasuries pressionados para cima, esclareceu à Bloomberg Television.

Inflação desigual no G7

Dados divulgados nesta terça-feira, 19, ajudam a entender por que o debate está tão tenso. No Japão, a economia cresceu bem acima do esperado no começo do ano, o que reforça o caminho para novas altas de juros.

No Reino Unido, o cenário é oposto. Os empregadores cortaram postos de trabalho no ritmo mais intenso desde o início da pandemia, mostrando que a pressão inflacionária já está pesando nas decisões de contratação.

No Canadá, a inflação deve ter saltado para 3,1% em abril. Mas quando se olha só para os preços que oscilam menos, como serviços e bens industriais sem energia, o quadro é mais estável.

Mas isso não consola muito, na visão dos especialistas. A alta nos preços chegou no bolso das famílias do mesmo jeito, puxada em boa parte pelo petróleo. E os bancos centrais sabem que ignorar isso tem um custo.

A dúvida é por quanto tempo esse argumento segura uma postura mais cautelosa.

Sem recessão, por enquanto

O ministro de finanças francês Roland Lescure, anfitrião do encontro, tentou equilibrar o tom na abertura das discussões. Ele disse que há "menos crescimento, mais inflação, mas até agora não estamos em recessão."

Cormann também reconheceu a resiliência da economia global, mas não deixou de fazer um alerta. "Ainda assim, há claramente um grande risco de queda."

A OCDE deve revisar suas projeções nas próximas semanas.

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