Minhas Finanças

As propostas para a poupança não bater os fundos

Especialistas veem 5 formas de incentivar a indústria de fundos ou de reduzir a atratividade da caderneta - sem que o atual poupador seja necessariamente prejudicado

EXAME.com (EXAME.com)

EXAME.com (EXAME.com)

DR

Da Redação

Publicado em 10 de outubro de 2010 às 03h34.

Não será fácil para o Palácio do Planalto reduzir a remuneração da caderneta de poupança. A medida, bastante impopular, é necessária para que o investimento em títulos do governo continue a ser atrativo - o que é fundamental para a rolagem da dívida pública. No entanto, os bancos, que administram os fundos que investem em títulos públicos e cobram taxas de administração muitas vezes salgadas pelo serviço, também têm interesse na redução do retorno da poupança como forma de evitar uma migração para a caderneta. Logo, a decisão poderia ser entendida como uma transferência de riqueza dos mais pobres - os principais clientes da poupança - para os bancos - que já registram lucros bilionários.

Para especialistas, entre as opções do governo, a mais impopular seria a pura e simples redução da remuneração da poupança. Nesse caso, acabaria a garantia do retorno de 6% ao ano mais Taxa Referencial (TR) da caderneta. No passado, quando a caderneta ameaçou render mais que os fundos de renda fixa, o governo reduziu a TR. Mas, na última sexta-feira (3/4), a TR chegou a zerar e, para os especialistas, com a continuidade da redução dos juros de mercado, em breve possíveis mudanças na TR não serão mais suficientes para evitar que a poupança renda mais que grande parte dos fundos DI.

Para o diretor-presidente da BrasilPrev e ex-secretário do Tesouro Nacional, Tarcísio Godoy, caso o governo decida reduzir os juros da poupança, uma possível compensação seria a cisão da caderneta em duas. O dinheiro já aplicado continuaria sendo remunerado pelas regras atuais, enquanto as novas regras passariam a valer para as aplicações futuras. Da mesma forma, os contratos já assinados de financiamento imobiliário - que utilizam a TR como fator de correção das parcelas - não sofreriam alteração.

A economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ione Amorim, propõe outra forma de compensação. Ela defende a criação de mecanismos que garantam ao pequeno poupador, que não utiliza outros produtos de investimento, uma vantagem sobre o grande aplicador. "Não é justo punir o pequeno investidor pela possível migração de recursos dos fundos para a poupança", diz ela.

Ione também chama a atenção para a necessidade de se definir muito claramente todos os pontos de mudança, para que não se repitam os erros do passado. "Até hoje há na Justiça processos referentes aos planos Bresser e Verão." Ela também diz que o governo pode arriscar a confiança no sistema ao mexer na poupança. "Foram necessários anos para que o trauma causado pelo confisco durante o governo Collor fosse superado", lembra.

E se a mudança for nos fundos?

Para Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), uma forma de incentivar os investidores a permanecerem nos fundos seria a criação de novas faixas para o Imposto de Renda, permitindo a quem investe a longo prazo pagar menos IR. Atualmente, a alíquota mais baixa é de 15%, incidente sobre aplicações com prazo superior a 720 dias. Já a poupança é isenta.

Na opinião do vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), Keyler Carvalho Rocha, o maior incentivo para o investimento em fundos pode não vir do governo, mas dos bancos. Para ele, a redução das taxas de administração poderia impedir a saída dos fundos. "Não acredito, entretanto, que alguma medida nesse sentido seja tomada. Os bancos não aceitarão ganhar menos com as taxas de administração e o governo não vai abrir mão da receita de impostos", diz Rocha.

A poupança tem a vantagem de não ter a cobrança dessa taxa. Por outro lado, o diferencial dos fundos é oferecer remuneração diária. Ou seja, independente da data de resgate, o investidor recebe o rendimento correspondente ao período aplicado, enquanto na poupança, se o saque ocorrer antes da data de aniversário, o rendimento do mês inteiro é perdido.

Por que a poupança precisa render menos?

As discussões sobre as mudanças na poupança começaram em 2007, quando sucessivos cortes levaram a taxa Selic a 11,25% ao ano pela primeira vez. Até então, não havia preocupações sobre a remuneração da poupança porque os altos juros sempre fizeram dos fundos de investimento uma opção mais atrativa para os investidores.

Com a Selic caindo a patamares nunca vistos, uma luz amarela se acendeu em Brasília. Hoje, os fundos DI com alta taxa de administração já rendem menos que a poupança e, naturalmente, os investidores começam a trocá-los pela caderneta. Se a trajetória de queda dos juros for mantida pelos próximos meses, como indica o Banco Central, os fundos DI passarão a render cada vez menos e um número cada vez maior de investidores deverá substituí-los pela caderneta.

Essa migração, além de secar uma importante fonte de captação do governo, faria transbordar os recursos para o crédito imobiliário. Como a legislação vigente obriga a destinação de ao menos 65% dos depósitos em poupança a financiamentos de imóveis e projetos de infra-estrutura habitacionais, quanto mais dinheiro aplicado, mais os bancos precisam emprestar. Se não for possível emprestar todo o dinheiro, a sobra da poupança é recolhida ao Banco Central, o que impossibilita sua utilização para outros fins.
 

Acompanhe tudo sobre:[]

Mais de Minhas Finanças

Quanto eu teria hoje se tivesse investido em Embraer no começo do ano?

Quanto eu teria hoje se tivesse investido na Cogna no começo do ano?

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 1 mil na bolsa no começo do ano?

Mega Sena 2.963: ninguém acerta e prêmio acumula para R$ 63 milhões