Recorde na estatal: Petrobras registrou seu quarto recorde consecutivo de valor de mercado e o sexto somente em outubro (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Repórter
Publicado em 16 de outubro de 2026 às 05h40.
A Petrobras (PETR4) ultrapassou R$ 800 bilhões em valor de mercado nesta quarta-feira, 14, e atingiu o maior patamar de sua história na Bolsa de Valores, a B3. Com as ações preferenciais próximas de R$ 58 e valorização acumulada de quase 100% em 2026, no pregão desta quinta, 15, a estatal se tornou uma das grandes protagonistas do mercado brasileiro neste ano. A disparada, porém, traz dúvida se ainda há espaço para ganhar com a ação ou boa parte do potencial de valorização já ficou para trás.
A resposta depende, sobretudo, da trajetória do petróleo, que voltou a superar US$ 106 o barril nesta quarta, e das expectativas para os resultados financeiros da companhia.
Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, no fim de fevereiro, o preço da commodity subiu e permaneceu próximo de US$ 100, impulsionando as perspectivas de geração de caixa e distribuição de dividendos da petroleira. Nesta quinta, 15, por exemplo, o tipo Brent, referência mundial, registrava ligeira queda de 0,18%, mas ainda está acima dos US$ 100, cotado a US$ 105,85, por volta das 14h30.
O movimento também reflete a melhora operacional da empresa, a descoberta de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas e o rali da Bolsa após o primeiro turno das eleições presidenciais.Ainda assim, a valorização acelerada tornou a entrada no papel menos atraente para parte dos analistas, que veem riscos de uma reversão caso o petróleo recue ou as expectativas sobre a política de investimentos da estatal mudem.
“Quem não comprou o papel antes, se comprar agora vai entrar no final da festa. Então, eu não recomendo entrar agora”, afirma Flavio Conde, head de ações da Inside Research. Para o analista, quem já tem os papéis pode continuar posicionado enquanto persistirem as dificuldades para o escoamento do petróleo no Oriente Médio e a cotação do barril permanecer elevada.
A alta da Petrobras tem três motores principais, segundo João Luis Debom, sócio da Supernova Investimentos: a valorização do petróleo, a evolução operacional da companhia e as perspectivas abertas pela exploração de novas áreas.
A escalada do Brent está relacionada ao conflito entre Estados Unidos e Irã e às restrições ao tráfego no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte mundial de petróleo.
Para a Petrobras, a commodity mais cara aumenta o potencial de receitas e margens, desde que os demais fatores permaneçam favoráveis. “As ações da Petrobras dobraram de preço porque o preço do Brent, que no começo do ano era em torno de US$ 60, na primeira semana de janeiro, foi agora para US$ 105 e US$ 106”, diz Conde.
O avanço do petróleo, porém, não explica sozinho a valorização. A companhia também ampliou a produção. Os dados preliminares da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam que a estatal produziu 2,96 milhões de barris por dia em setembro. No campo de Búzios, a produção superou 1 milhão de barris diários pelo segundo mês consecutivo.
Os resultados financeiros reforçaram as perspectivas positivas. No segundo trimestre de 2026, a Petrobras registrou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, quase o dobro do observado um ano antes. O fluxo de caixa operacional somou R$ 61,8 bilhões, enquanto o fluxo de caixa livre chegou a R$ 38,6 bilhões.
A geração de caixa permitiu aprovar R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio e reduzir a dívida bruta para US$ 70,8 bilhões.
“Como o custo dela ficou igual, a margem de lucro aumentou bastante e os investidores foram comprando para se beneficiar desse lucro maior, que vai gerar um dividendo maior em relação ao ano passado”, afirma Conde.
Outro fator que entrou no radar dos investidores foi a descoberta no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. Para Debom, a notícia adicionou um prêmio de opcionalidade às ações, ao ampliar as perspectivas sobre o potencial da Margem Equatorial.
A valorização também ganhou força em outubro, depois do primeiro turno das eleições presidenciais, quando a Bolsa brasileira avançou e recebeu recursos de investidores estrangeiros. Nesta quarta-feira, a Petrobras registrou seu quarto recorde consecutivo de valor de mercado e o sexto somente em outubro.
Em levantamento divulgado em agosto, o preço-alvo médio de 12 casas de análise para PETR4 era de R$ 55,83, abaixo da cotação de R$ 57,94 registrada nesta quarta-feira, segundo Maria Carolina Luchesi, especialista de investimentos da Hike Capital.
As revisões mais recentes, feitas após a alta do petróleo, apontam preços-alvo entre R$ 64 e R$ 70 para o fim de 2027. O intervalo indica que ainda pode haver potencial de valorização, mas esse espaço depende de premissas que podem mudar ao longo dos próximos meses.
“O preço atual incorpora um Brent elevado. A média dos preços-alvo divulgada pela própria Petrobras em 7 de agosto era de R$ 55,83 para PETR4, abaixo da cotação de R$ 57,94 desta quarta-feira”, afirma Luchesi.
Na avaliação de Debom, a assimetria entre os riscos e os possíveis ganhos piorou para quem pretende entrar agora. O BTG Pactual mantém recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 65, mas considera cenários que vão de R$ 42, em uma hipótese pessimista, a R$ 83, em uma otimista. O Itaú também recomenda a compra, com preço-alvo de R$ 64 para o fim de 2027.
“Minha visão: quem já tem a ação não precisa vender, mas vale rebalancear se ela cresceu demais na carteira. Para quem não tem, eu entraria aos poucos, não de uma vez. Comprar Petrobras hoje é, na prática, apostar que o petróleo segue acima de US$ 100”, diz Debom.
A Hike Capital também recomenda cautela na avaliação do momento de entrada, sem fazer recomendações individuais de compra ou venda. Para Luchesi, a decisão depende menos da valorização passada e mais da premissa de preço do petróleo que o investidor considera sustentável.
A agência americana de energia (EIA) projeta Brent médio de US$ 74 em 2027. Se a cotação se aproximar desse patamar, o caixa livre da Petrobras poderá diminuir, reduzindo também a capacidade de distribuir dividendos.
A distribuição de proventos é um dos principais argumentos de investimento na Petrobras. A política da companhia prevê a distribuição de 45% do fluxo de caixa livre enquanto a dívida bruta estiver abaixo de US$ 75 bilhões, condição que a empresa atendia no segundo trimestre.
Os R$ 1,35 por ação aprovados em dividendos e juros sobre capital próprio no período equivalem a aproximadamente 2,3% da cotação de R$ 57,94. O percentual, contudo, corresponde a um trimestre marcado por petróleo excepcionalmente caro e não deve ser extrapolado automaticamente para os próximos períodos.
O UBS BB projeta dividend yield líquido de 10% a 11% para 2026 e de 13% a 14% em 2027, segundo relatório divulgado em setembro. O banco elevou o preço-alvo das ações ordinárias e preferenciais de R$ 60 para R$ 62 e manteve recomendação de compra.
As projeções reforçam o potencial de geração de renda, mas também evidenciam a dependência da tese em relação ao preço da commodity. Se o petróleo cair, a geração de caixa e os dividendos poderão ser menores do que o esperado.
“Os dividendos seguem a mesma lógica”, afirma Luchesi. “A EIA projeta Brent médio de US$ 74 em 2027, nível que reduziria o caixa livre e, por consequência, os proventos.”
Além do petróleo, as eleições presidenciais podem influenciar o desempenho dos papéis. Como empresa de controle estatal, a Petrobras está exposta às expectativas sobre política de preços dos combustíveis, decisões de investimento e prioridades do governo.
Conde avalia que uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) poderia favorecer as ações, caso diminuíssem as preocupações com interferências políticas na companhia. Em um cenário de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ele vê a possibilidade de uma reação negativa, diante da perspectiva de aumento dos investimentos.
“Se o Flávio for eleito, o papel pode subir mais ainda porque o risco de ingerência do governo vai diminuir bastante. Se o Lula for reeleito, as ações podem cair um pouco porque eles podem aumentar os investimentos em função desse caixa maior”, afirma.
O risco de governança, porém, não se limita ao resultado eleitoral. Para Luchesi, as expectativas sobre política de preços e decisões de investimento influenciam a avaliação da Petrobras independentemente de quem estiver no governo.
A companhia prevê US$ 109 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030, com concentração dos recursos em exploração e produção. O plano mantém a distribuição de 45% do fluxo de caixa livre e não contempla dividendos extraordinários.
Outro ponto de atenção é a diferença entre os preços dos combustíveis no Brasil e as cotações internacionais. Segundo os cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o diesel vendido pela Petrobras estava em 14 de outubro R$ 3,34 por litro abaixo da paridade de importação, sem considerar subvenções.
Se essa diferença persistir, poderá alimentar preocupações sobre a política de preços e seus efeitos sobre as margens da companhia.