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Como lucrar com os solavancos da bolsa

Conheça duas estratégias em que o investidor pode ganhar independentemente de a bolsa cair ou subir

Rodeio: em momentos em que a bolsa dá mais solavancos que um touro bravo, estratégias em que o investidor ganha tanto na alta quanto na baixa ficam interessantes (CONTIGO)

Rodeio: em momentos em que a bolsa dá mais solavancos que um touro bravo, estratégias em que o investidor ganha tanto na alta quanto na baixa ficam interessantes (CONTIGO)

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João Sandrini

30 de dezembro de 2013, 10h08

São Paulo – Nas últimas semanas, as bolsas mundiais têm ido do pânico à euforia e de volta ao medo em uma velocidade impressionante. Se em um dia os investidores vendem ações e fogem da bolsa como se o mundo fosse acabar, no pregão imediatamente seguinte todo mundo parece acreditar que os bancos centrais dos EUA, da Europa e até mesmo do Brasil ainda têm munição suficiente para debelar qualquer ameaça à economia. Investir em ações em momentos de tanta incerteza é como tentar domar um touro em um rodeio: independente da direção do próximo coice, é importante se segurar firme para não se espatifar.

Para quem já está ficando mareado com tantos solavancos, aqui vai uma boa notícia. É possível lucrar na bolsa sem apostar na alta nem na baixa das ações. Há estratégias em que simplesmente não importa para que direção o mercado vá. O que faz o investidor ganhar dinheiro é a própria volatilidade do mercado e uma boa escolha de ativos.

A forma mais simples de fazer esse tipo de aposta é por meio de fundos long and short. Nessas aplicações, o gestor escolhe não apenas uma ação que acredita ter potencial para ficar comprado (ou “long”, no jargão do mercado financeiro) como também elege um papel caro ou com fundamentos ruins em que permanece vendido (“short”).

A posição vendida é montada por meio do aluguel de ações. Atrás de uma remuneração extra para as aplicações, um investidor qualquer coloca sua carteira disponível para eventuais interessados em emprestá-la. O fundo long and short aluga essa ação e imediatamente a vende no mercado e aguarda uma oportunidade de recomprá-la mais à frente com um preço menor. Quando isso acontece, o locatário compra o papel e o devolve a seu verdadeiro dono, embolsando a diferença de valores.

A grande diferença desse tipo de estratégia para a pura e simples compra de ações é que o investidor pode lucrar tanto se a bolsa cair quanto subir. Caso o papel comprado tenha desvalorização de 5% e o vendido perca 20%, por exemplo, esse investidor embolsa a diferença de desempenho entre os dois papéis – no caso, 15%. É irrelevante, portanto, se a bolsa vai ou não para o lado esperado pelo mercado. O que importa é a capacidade do gestor do fundo de avaliar se uma ação tem melhores fundamentos que a outra e montar o par certo de compra e venda.


Ao menos nos últimos 12 meses, os gestores não decepcionaram. Segundo dados da Anbima (associação de bancos e fundos de investimento), os fundos long and short neutros tiveram valorização de 12,48%. Foi a terceira categoria mais rentável do período, atrás apenas dos fundos multimercados que investem em juros e moedas (12,78%) e dos fundos de renda fixa (12,67%).

Outra opção

O investidor mais sofisticado também pode montar por conta própria estratégias long and short. Diversas corretoras já distribuem aos clientes indicações de pares de ações que podem ser usados para tentar formar um par lucrativo. Para o investidor mais sofisticado, há uma estratégia particularmente complexa e arriscada que envolve o mercado de opções. Nesse mercado, é tudo ou nada: o investidor pode perder tudo o que investiu e também pode obter uma rentabilidade muito superior ao montante investido. Se você não tem medo de riscos elevados, o primeiro passo para montar a estratégia é entender o funcionamento desse mercado.

As opções dão ao investidor o direito de comprar ou vender um determinado ativo no futuro a um preço especificado no presente. Os contratos de opções negociados em bolsa funcionam exatamente como na vida real. Da mesma forma que uma empresa do setor de construção pode fechar um contrato de opção de compra de um terreno daqui a um ano por 1 milhão de reais, um investidor também pode comprar o direito de adquirir uma ação preferencial da Petrobras (PETR4) por um preço de 20 reais (cotação próxima à atual) daqui a dois meses, por exemplo.

Para garantir esse direito, no entanto, o comprador da opção terá de pagar um prêmio ao vendedor. Em geral, quanto mais factível for o exercício da opção, maior será o prêmio. Se um investidor quer ter o direito de comprar uma ação preferencial da Petrobras daqui a dois meses por 18 reais, terá de pagar um prêmio elevado porque o papel hoje vale mais de 20 reais. Já se o valor de exercício for de 25 reais, é provável que o prêmio custe apenas alguns centavos, já que a ação preferencial precisará subir 25% no período para que o exercício da opção comece a ser vantajoso.

Para tentar lucrar apenas com a volatilidade e não depender de uma alta ou baixa do mercado, o investidor pode adotar a estratégia a seguir, sugerida por Hugo Azevedo, superintendente da Santander Corretora e autor do livro “Investimentos em Opções sobre Ações no Brasil: Teoria e Prática”. Será necessário comprar uma opção de compra de Ibovespa e outra opção de venda de Ibovespa com o mesmo número de pontos – por exemplo, os atuais 56.000 pontos. Nesse caso, se a Ibovespa cair para 50.000 pontos no mercado à vista, o investidor terá o direito de vender Ibovespa futuro a 56.000 pontos – o que lhe garantirá um bom lucro.

Em um cenário em que o principal índice do pregão paulista salte para 62.000 pontos, o investidor terá o direito de comprar o Ibovespa futuro a 56.000 pontos – algo também bastante interessante. A mesma estratégia pode ser utilizada com opções de BOVA11, o fundo de índice de ações mais negociado do Brasil. 


Mas se o investidor lucra nos dois cenários, por que o mercado inteiro não ganha dinheiro com essa estratégia ao invés de se arriscar posicionado para ganhar ou perder com a alta ou a queda da bolsa, respectivamente? A explicação está nos custos do processo. Para comprar as duas opções, o investidor terá de desembolsar o valor de dois prêmios - um pelo direito de compra e outro pelo direito de venda. Como a probabilidade de exercício de qualquer uma das opções é alto, o prêmio a ser pago será elevado nos dois casos. As despesas podem ser tão grandes que o investidor só ganhará dinheiro se o Ibovespa oscilar em mais de 5.000 pontos até o vencimento, por exemplo.

Mas é possível ganhar neste momento? A resposta é sim, mas não é tão fácil. Em períodos em que a volatilidade já está alta no mercado, os prêmios cobrados pelo lançador das opções costumam subir muito. Atualmente, o principal termômetro da volatilidade das bolsas mundiais é o índice VIX (ou Volatilidade Index, da bolsa de opções de Chicago). O indicador tem oscilado ao redor de 34, mas, na média histórica dos últimos 21 anos, ficou em cerca de 20,5. “Muito provavelmente o investidor só vai ganhar dinheiro com essa estratégia de opções se o sobe e desce aumentar nas próximas semanas, uma vez que o atual prêmio já vai embutir o nível de volatilidade corrente”, diz Hugo Azevedo, do Santander.

Uma forma de reduzir os prêmios a serem desembolsados é comprar opções um pouco mais distantes da cotação atual dos contratos de Ibovespa futuro, diz o professor Bolivar Godinho de Oliveira Filho. O investidor pode, por exemplo, comprar uma opção de venda de Ibovespa a 53.000 pontos e casar esse negócio com uma aquisição de uma opção de compra de Ibovespa a 59.000 pontos. Nesse caso, o investidor perde se a bolsa ficar dentro do intervalo de 53.000 a 59.000 pontos, mas ainda colhe lucros representativos se o Ibovespa chegar a 50.000 ou 62.000 pontos, por exemplo.

A grande vantagem é fugir dos custos elevados da operação gerados por prêmios muito elevados, que podem até mesmo inviabilizar uma operação. “Quanto a maior intervalo entre as opções, provavelmente maior será o risco e menor ficará o custo, e vice-versa”, diz Godinho.

Para os especialistas, é importante que qualquer estratégia com opções seja montada por pessoas físicas com o aconselhamento e a supervisão de algum especialista de corretora. Em primeiro lugar, muitas opções de venda possuem baixa liquidez e não são facilmente encontradas no mercado. Algumas corretoras como Santander, Itaú e XP oferecem o serviço de achar no mercado uma contraparte para a operação. Além disso, a corretora pode ajudar o investidor pouco experiente a não cometer erros na montagem da estratégia – que sempre podem levar a enormes prejuízos.