Invest

Brasil eleva importação de Mounjaro e reduz compras de Ozempic

Quebra de patente da semaglutida é apontada pelo Citi como razão de uma dinâmica do mercado

Canetas emagrecedoras: nova dinâmica de mercado (imyskin/Getty Images)

Canetas emagrecedoras: nova dinâmica de mercado (imyskin/Getty Images)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 9 de abril de 2026 às 05h00.

As importações brasileiras de medicamentos classificados como hormônios polipeptídicos — usadas como indicador indireto do fluxo de canetas de GLP-1 no país — atingiram US$ 447 milhões em março de 2026, mais que dobrando na comparação mensal, diz relatório do Citi. O movimento reforça a aceleração recente do mercado e aponta para uma mudança relevante na composição da oferta entre moléculas concorrentes.

Os dados mostram crescimento expressivo nas compras com origem nos Estados Unidos e na Alemanha — países que funcionam como termômetro da disponibilidade do Mounjaro no mercado. O medicamento é produzido pela Eli Lilly e tem como princípio ativo a tirzepatida. Como a empresa não divulga abertamente seus números de produção e distribuição, esse movimento de compras é usado pelos analistas para estimar, de forma indireta, o quanto o produto está chegando ao mercado.

O resultado sugere que a oferta do Mounjaro está se ampliando de forma relevante, num segmento que até agora era visto como restrito justamente pela falta de produto disponível.

Em sentido oposto, as importações provenientes da Dinamarca — utilizadas como proxy para a semaglutida, presente no Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk — seguem em níveis mais fracos. O movimento é consistente com a trajetória recente de queda nas vendas da molécula observada desde setembro de 2025.

Importações reforçam mudança de protagonismo entre moléculas

A divergência entre os fluxos de importação sugere uma recomposição gradual da dinâmica competitiva dentro da classe de agonistas de GLP-1 no Brasil.

Enquanto a tirzepatida mostra sinais de avanço sustentado à medida que restrições de oferta são reduzidas, a semaglutida atravessa um período de desaceleração antes de um marco regulatório relevante ocorrido em março de 2026: o vencimento da patente no país.

Queda da patente da semaglutida deve ampliar acesso em 2026

Em 20 de março de 2026, expirou a patente da semaglutida no Brasil, abrindo espaço para a entrada de genéricos e biossimilares. Por se tratar de um medicamento biologicamente complexo, o mercado será dominado por biossimilares, e não por genéricos tradicionais. Isso significa descontos mais modestos, próximos de 20%.

Hoje, as canetas de semaglutida custam em torno de R$ 1.000, a depender da dosagem. Sem concorrentes no mercado, a dinâmica de preços permanece inalterada no curto prazo. Quando a concorrência chegar, a expectativa é de reduções graduais.

Entre os laboratórios mais avançados estão a EMS e a Ávita Care, que devem abrir a primeira frente de concorrência. No cronograma mais otimista, a chegada dos medicamentos desses farmacêuticas deve ocorrer em julho ou agosto de 2026.

Mercado brasileiro já figura entre os maiores do mundo no modelo de pagamento direto

Na avaliação do banco, o Brasil consolidou-se como um dos principais mercados globais de GLP-1 no modelo out-of-pocket, com cerca de 1,15 milhão de pacientes ativos atualmente em terapias baseadas em semaglutida e tirzepatida.

Ainda assim, esse contingente representa aproximadamente 2% da população elegível, indicando espaço relevante de expansão estrutural.

As estimativas apontam que o faturamento do segmento pode crescer de R$ 11,7 bilhões em 2025 para R$ 19,4 bilhões em 2026, com potencial de alcançar R$ 36 bilhões até 2030.

Varejo farmacêutico aparece como principal canal de captura de valor

Com um aumento esperado da competição entre fabricantes com a entrada de biossimilares, as projeções indicam que os canais de distribuição tendem a capturar parte relevante do crescimento da categoria.

Nesse cenário, o Citi analisa que a Raia Drogasil aparece como uma das principais beneficiárias potenciais do avanço dos GLP-1. A estimativa é que a classe possa responder por até 5% do crescimento consolidado da companhia em 2026, com impacto incremental de cerca de R$ 320 milhões no lucro bruto.

Já a Hypera surge como candidata a ganhar participação relevante no segmento de genéricos após a queda da patente, com potencial de elevação de aproximadamente 5% no EBITDA até 2027, caso capture uma fatia conservadora do mercado.

Expansão da base de pacientes deve sustentar ciclo de crescimento

Para o Citi, a combinação entre aumento da base de usuários e redução de preços após a entrada de biossimilares tende a acelerar a difusão dessas terapias no país ao longo da década.

Nesse cenário, 2026 aparece como um ponto de inflexão para o setor farmacêutico brasileiro, com potencial de consolidar os medicamentos GLP-1 como uma nova categoria estrutural de consumo em saúde — e um dos principais vetores de crescimento do varejo farmacêutico até 2030.

Acompanhe tudo sobre:OzempicObesidadeDiabetesImportaçõesCitigroup

Mais de Invest

Trégua no Irã alivia mercados, mas gestores veem fragilidade no acordo

Fundos reforçam fundamentos e evitam 'apostas binárias' na eleição do Brasil

Fed vê vantagem energética dos EUA como suporte ao dólar

Dólar abaixo de R$ 5? As tendências para a moeda em meio à trégua da Guerra