Ozempic: o que esperar com a queda da patente? (Steve Christo - Corbis/Corbis/Getty Images)
Editor de Invest
Publicado em 20 de março de 2026 às 13h47.
Última atualização em 23 de março de 2026 às 17h43.
A patente da semaglutida — princípio ativo do Ozempic, Wegovy, Rybelsus, Poviztra e Extensior— expirou nesta sexta-feira (20) no Brasil, encerrando cerca de 20 anos de exclusividade da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. A empresa ainda tentou estender essa proteção por mais 12 anos por vias judiciais, mas não obteve sucesso. É um marco para o mercado de obesidade e diabetes no país, mas seus efeitos práticos devem ocorrer de forma gradual, afirma o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME). O banco publicou um relatório setorial em formato de perguntas e respostas sobre o tema e aponta as seguintes conclusões.
Apesar da abertura legal do mercado, nenhuma alternativa doméstica à semaglutida foi aprovada pela Anvisa até o momento. O principal gargalo, segundo o BTG, é regulatório, não jurídico. A semaglutida é um peptídeo complexo que está na fronteira entre medicamentos sintéticos e biológicos. Isso aumento exigências para aprovação de forma considerável. As empresas precisam apresentar extensos dados de segurança e eficácia, além de demonstrar alta consistência de fabricação e precisão analítica em nível molecular. Além disso, o Brasil ainda não segue padrões regulatórios para esse tipo de molécula "híbrida", obrigando a Anvisa a fazer avaliações caso a caso.
Há atualmente 15 pedidos nacionais em análise na Anvisa e o número pode chegar a 17. Os mais avançados são os da EMS e da Ávita Care, que já estão na fase de "cumprimento de exigências" — ou seja, a agência já analisou os dossiês e solicitou esclarecimentos adicionais. Outros sete pedidos estão em revisão ativa e podem receber um primeiro retorno ainda no primeiro semestre de 2026.
O cronograma mais otimista aponta para julho ou agosto de 2026 como a janela para os primeiros produtos concorrentes chegarem às farmácias. A EMS e a Ávita Care receberam pedidos de informações adicionais da Anvisa no início de março e têm até 120 dias para responder. Isso significa que o mercado deve passar por um período de exclusividade por mais alguns meses, seguido de uma abertura gradual.
A EMS aparece como a jogadora mais bem posicionada: a empresa investiu cerca de R$ 1,2 bilhão para desenvolver capacidade de produção doméstica de semaglutida, incluindo a expansão de sua planta em Hortolândia (SP), com capacidade projetada de até 20 milhões de canetas por ano.
Não de imediato. Hoje, as canetas de semaglutida custam em torno de R$ 1.000, a depender da dosagem. Sem concorrentes no mercado, a dinâmica de preços permanece inalterada no curto prazo. Quando a concorrência chegar, a expectativa é de reduções graduais — mas o BTG alerta que, por se tratar de um medicamento biologicamente complexo, o mercado será dominado por biossimilares, e não por genéricos tradicionais. Isso significa descontos mais modestos, próximos de 20%, e não a queda de 70% a 90% vista em remédios convencionais como o Lipitor.
A inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde segue incerta. O medicamento já foi rejeitado anteriormente por conta do alto custo — estimativas apontam impacto fiscal de cerca de R$ 8 bilhões por ano. A entrada de concorrentes e a eventual queda de preços poderão reabrir essa discussão no futuro, mas não há prazo nem compromisso formal no horizonte.
Para o varejo farmacêutico, o cenário é positivo no médio e longo prazo. Os GLP-1 (classe à qual pertence a semaglutida) já representam entre 10% e 12% da receita das principais redes de farmácias do país. Com mais oferta e maior acessibilidade, a tendência é de expansão de volumes — sem necessariamente corroer margens de forma abrupta.
A conclusão do BTG Pactual é que o Brasil deve seguir o caminho dos biológicos globais: uma transição lenta, com erosão gradual de preços e crescimento sustentado da categoria — bem diferente do "penhasco" visto em genéricos tradicionais.