Estreito de Ormuz: Guerra impede escoamento de 20% do petróleo global (GettyImages)
Colaboradora na Exame
Publicado em 8 de abril de 2026 às 15h57.
O status do Estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — segue indefinido nesta quarta-feira, 8, apesar do anúncio de um cessar-fogo temporário de duas semanas entre Estados Unidos e Irã. Embora haja sinais pontuais de flexibilização, o tráfego marítimo ainda não foi normalizado e operadores globais mantêm postura cautelosa.
O Maersk, um dos maiores grupos de transporte de contêineres do mundo, afirmou para a Reuters que o acordo pode abrir “algumas oportunidades” para a retomada de trânsito na região, mas não oferece segurança suficiente para restabelecer operações regulares. Segundo a empresa, qualquer decisão sobre navegação dependerá de avaliações contínuas de risco e de orientações das autoridades marítimas.
"Neste momento, adotamos uma abordagem cautelosa e não estamos fazendo nenhuma alteração em serviços específicos", disse o grupo dinamarquês à agência.
A guerra iniciada após ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã em fevereiro praticamente paralisou o transporte marítimo no Golfo Pérsico, com impactos relevantes sobre cadeias globais de suprimentos. No mês passado, o Maersk suspendeu reservas para diversos portos da região e implementou sobretaxas emergenciais para compensar o aumento dos custos de combustível.
"Qualquer decisão de transitar pelo Estreito de Ormuz será baseada em avaliações contínuas de risco, monitoramento rigoroso da situação de segurança e orientação disponível das autoridades e parceiros relevantes", completou o comunicado da Maersk.
Ainda não há clareza total. Embora Washington e Teerã tenham concordado com uma trégua temporária mediada pelo Paquistão, combates continuaram sendo registrados nesta quarta-feira. Conforme divulgado pela Reuters, autoridades libanesas informaram ataques de Israel contra o Líbano, visando atingir a milícia Hezbollah, apoiada pelo Irã, o que causou a morte de dezenas de pessoas.
Segundo fontes do setor petrolífero ouvidas pela agência, o Irã também realizou ataques contra infraestrutura energética de países vizinhos, incluindo um oleoduto na Arábia Saudita utilizado como alternativa logística ao estreito. Kuwait, Bahrein e Emirados Árabes Unidos também relataram ataques com mísseis e drones.
Os Estados Unidos afirmaram ter interrompido seus ataques ao Irã, mas podem retomar os combates caso os esforços diplomáticos para um cessar-fogo prolongado fracassem.
Ainda não plenamente.
Segundo a agência iraniana Fars, o Irã restabeleceu restrições ao trânsito de petroleiros pelo Estreito de Ormuz após considerar que os ataques israelenses ao Líbano configuraram violação do cessar-fogo anunciado nesta terça-feira, 7. Em resposta ao que classificou como quebra da trégua, Teerã também informou que voltou a fechar a travessia para navios comerciais, de acordo com a agência iraniana.
Mais cedo, a televisão estatal iraniana afirmou que uma primeira embarcação havia atravessado o estreito com autorização de Teerã após o início da trégua. Já a Fars relatou a passagem de dois petroleiros sob permissão iraniana.
Apesar disso, a marinha do país voltou a alertar que qualquer embarcação que tente cruzar a hidrovia sem autorização poderá ser alvo de ataque. Fontes do setor marítimo disseram à Reuters que o tráfego segue, na prática, condicionado a permissões específicas das autoridades iranianas. Dados de monitoramento marítimo indicaram aumento da movimentação de embarcações ao longo da manhã desta quarta-feira.
Durante o período de cessar-fogo, Teerã também pretende cobrar taxas das embarcações que transitarem pela rota. Segundo o jornal Financial Times, o porta-voz da União dos Exportadores de Petróleo, Gás e Produtos Petroquímicos do Irã, Hamid Hosseini, afirmou que o governo pretende monitorar os navios e cobrar pedágio para garantir que o estreito não seja utilizado para transferência de armamentos durante as duas semanas de trégua.
A Associated Press também informou que o acordo de cessar-fogo prevê a possibilidade de cobrança dessas taxas durante o período de reabertura condicionada da rota. Segundo uma autoridade regional ouvida pela agência, os recursos poderiam ser destinados à reconstrução de áreas afetadas pelos ataques recentes.
Autoridades iranianas já haviam sinalizado que uma suspensão mais ampla das restrições no estreito dependerá de avanços concretos nessas negociações. Dados de monitoramento marítimo apontam ainda que dois navios de propriedade grega e um cargueiro chinês cruzaram a rota desde o início desta quarta-feira, enquanto acordos de salvo-conduto foram firmados com Índia e Iraque. Apesar disso, a empresa alemã de transporte marítimo Hapag-Lloyd avalia que a normalização do fluxo aos níveis anteriores ao conflito pode levar ao menos seis semanas.
Em paralelo, a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês), segundo a agência de notícias iraniana Mehr, afirmou que qualquer aeronave considerada hostil que entre no espaço aéreo iraniano será tratada como violação do cessar-fogo e poderá enfrentar resposta militar, reforçando o grau de incerteza operacional na região.
A avaliação de autoridades internacionais reforça que a normalização do tráfego marítimo ainda está distante. Durante visita à Arábia Saudita, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou que a trégua anunciada entre Estados Unidos e Irã representa apenas um primeiro passo e que ainda há “muito trabalho a fazer” para garantir a reabertura do estreito.
Segundo Starmer, transformar o cessar-fogo temporário em um acordo duradouro é condição essencial para restabelecer a segurança da rota marítima. O premiê destacou ainda que a situação no Estreito de Ormuz tem impacto global relevante, especialmente sobre cadeias de suprimentos e preços de energia.
Os preços do petróleo recuaram após o anúncio inicial da trégua temporária, refletindo a expectativa de eventual retomada do fluxo energético pela região. O Brent passou a ser negociado próximo de US$ 94 por barril, abaixo dos cerca de US$ 118 registrados no fim de março, mas ainda acima dos níveis anteriores ao conflito.
Já o West Texas Intermediate (WTI) ficou próximo de US$ 95 por barril, também acima dos patamares observados antes do início da guerra.
Mesmo com a correção recente nas cotações, a combinação de bloqueios intermitentes, ataques à infraestrutura energética regional e incertezas sobre a efetividade do cessar-fogo mantém o Estreito de Ormuz como um dos principais focos de risco para os mercados globais no curto prazo.