Petrobras: uma das ações de maior peso do Ibovespa opera em baixa (Wagner Meier/Getty Images)
Repórter
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 14h54.
As ações de petrolíferas americanas avançam nesta segunda-feira, 5, dois dias após a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, enquanto os papéis do setor no Brasil operam em queda. O movimento reflete leituras distintas do mercado sobre os impactos de curto e médio prazo das tensões políticas envolvendo o país sul-americano com os norte-americanos e seus efeitos sobre a oferta global de petróleo.
No pré-mercado em Nova York, investidores reagiram positivamente à operação militar surpresa anunciada pelo governo Donald Trump no sábado,3, e à perspectiva de maior presença de empresas americanas na exploração do petróleo venezuelano.
A Chevron (CHVX34) liderou os ganhos, com alta de 6,4% no pré-mercado e avanço de 6,01% por volta das 14h38. Exxon Mobil (EXXO34) subia 2,69%, enquanto a ConocoPhillips (COPH34) avançava quase 4%. Entre as prestadoras de serviços petrolíferios, a SLB (SLBG34) registrava alta expressiva, chegando a 12,81%.
Já no Brasil, o movimento é oposto. A Brava Energia (BRAV3) caía quase 6% no mesmo horário, figurando entre as maiores quedas do dia, na contramão do Ibovespa, que no mesmo horário avançava 0,79%, aos 161.805 pontos. Petrobras (PETR3 e PETR4) também recuava 2,26% nas ações ordinárias e 2,34% nas preferenciais.
Enquanto a Prio (PRIO3) registrava queda de mais de 2% e a PetroRecôncavo (RECV3) cedia 0,18%.
Para analistas, a diferença de desempenho está menos ligada ao impacto imediato no preço do petróleo que, — no caso do tipo Brent, de referência mundial, sobe mais de 1% —, e mais à forma como os investidores estão precificando o cenário de médio prazo.
Segundo Flávio Conde, analista da Levante Investimentos, no curto prazo, o risco de uma eventual redução nas exportações venezuelanas — hoje em torno de 900 mil barris por dia — tende, em tese, a favorecer as petroleiras brasileiras, que se beneficiam de preços mais altos do petróleo e do dólar.
Ainda assim, o mercado optou por vender esses papéis. Na avaliação de Conde, os investidores estão antecipando um cenário em que a Venezuela volte gradualmente à normalidade política e recupere sua capacidade produtiva.
Atualmente, o país produz menos de 1 milhão de barris por dia, mas, com novos investimentos e a entrada de empresas estrangeiras, a oferta poderia crescer de forma relevante nos próximos anos, ampliando a disponibilidade global de petróleo.
"A Chevron, que já chegou a produzir sozinha 1 milhão de barris por dia no país e hoje produz cerca de 250 mil barris diários, teria espaço para ampliar essa produção. Outras empresas americanas, como ConocoPhillips e Exxon, que tiveram seus ativos expropriados no passado, também poderiam retornar ao país", afirmou o operador.
Essa expectativa, segundo ele, pressiona as ações de produtores fora dos Estados Unidos, mesmo que os efeitos práticos levem tempo para se concretizar.
"Nesse cenário, não é improvável que a Venezuela, em cerca de dois anos, volte a produzir até 3 milhões de barris por dia, elevando de forma relevante a oferta global de petróleo. É essa perspectiva de médio prazo que, na minha avaliação, leva investidores a vender ações de petroleiras. Um movimento que considero exagerado", complementou Conde.
Já nos Estados Unidos, o rali das ações reflete a percepção de que as empresas americanas devem ser as principais beneficiárias de uma eventual reestruturação do setor petrolífero venezuelano.
Allen Good, diretor de pesquisa de ações da Morningstar, afirmou em entrevista à CNBC que a Chevron aparece como a companhia mais bem posicionada, por já manter operações no país e possuir relacionamento local, o que poderia permitir ganhos incrementais de produção no curto prazo, caso haja aval do governo americano.
Com sede em Houston, a Chevron opera na Venezuela desde 1923 e resistiu à saída forçada de outras empresas, incluindo a Exxon Mobil e a ConocoPhillips em 2007, na época do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Hoje, responde por cerca de 25% da produção do país e exporta ao menos 150 mil barris por dia para as refinarias da costa americana do Golfo.
Good ressaltou, no entanto, que aumentos relevantes de produção exigiriam dezenas de bilhões de dólares em investimentos e dependeriam de maior segurança regulatória e contratual.
"Embora a Chevron possa conseguir aumentar a produção incrementalmente no curto prazo com a aprovação dos EUA, aumentos significativos de volume provavelmente levarão anos. Com isso em mente, a possibilidade de empresas americanas explorarem as reservas de petróleo da Venezuela permanece incerta", disse o diretor de pesquisa.
A leitura também é compartilhada por Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom Investimentos, que destaca que o interesse americano vai além do curto prazo.
Para ele, o petróleo venezuelano, apesar de mais pesado e menos valorizado no mercado internacional, tem custo de extração baixo e grande longevidade, o que o torna estratégico para a segurança energética de longo prazo dos Estados Unidos.
"Os Estados Unidos não precisariam do petróleo venezuelano para sobreviver hoje, mas seria extremamente valioso para a segurança energética de longo prazo, para alimentar refinarias feitas para petróleo pesado, que ele já tem lá instalado nos Estados Unidos e para influenciar principalmente preços globais, pressionando concorrentes da OPEP, os maiores produtores de petróleo do mundo, e tirando daqui da América Latina a influência da Rússia e do Irã", afirmou Correia.
Os Estados Unidos invadiram a Venezuela na madrugada do último sábado, 3, e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em uma operação militar de grande escala que incluiu bombardeios em Caracas e em regiões estratégicas do país.
No sábado, em coletiva de imprensa, Trump confirmou a invasão armada e defendeu a entrada de empresas americanas na reconstrução do setor.
"Vamos fazer com que nossas gigantescas companhias petrolíferas entrem em cena, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura petrolífera e comecem a gerar lucro para o país", afirmou.
Segundo ele, a indústria venezuelana estava "um fracasso total", bombeando "quase nada em comparação com o que poderia".