Corte de impostos nos combustíveis é reforço para a competitividade, diz CFO da Vibra

Executivo da Vibra (VBBR3), dona de mais de 8 mil postos da bandeira BR, prevê um cenário melhor com o corte de impostos e 'normalização' do barril de petróleo
Vibra (VBBR3), antiga BR Distribuidora, abriu 59 postos da bandeira BR no segundo trimestre (Divulgação Vibra/Divulgação)
Vibra (VBBR3), antiga BR Distribuidora, abriu 59 postos da bandeira BR no segundo trimestre (Divulgação Vibra/Divulgação)
Bianca Alvarenga
Bianca Alvarenga

Publicado em 17/08/2022 às 16:31.

Última atualização em 17/08/2022 às 17:11.

A redução no preço dos combustíveis já fez diferença na inflação e no bolso dos consumidores. Para a Vibra (VBBR3), a antiga BR Distribuidora, a desvalorização do petróleo tem um efeito dúbio: ao mesmo tempo que acaba com a volatilidade que tanto atrapalha a negociação diária de combustíveis, a queda da cotação cria um problema para o estoque acumulado quando os preços (e os impostos) estavam mais elevados.

O estoque, aliás, foi ponto de alerta no balanço do segundo trimestre. No período de abril a junho, a empresa registrou um resultado financeiro negativo em R$ 614 milhões, uma piora de 741% em relação ao mesmo período de 2021, quando o saldo havia ficado negativo em R$ 73 milhões. Em entrevista à EXAME Invest, o CFO da Vibra, André Natal, explicou que boa parte disso se deve ao consumo de capital para a composição de estoques maiores.

"Compramos e revendemos combustíveis, então, se o preço do produto sobe no mercado externo, precisamos colocar mais dinheiro no negócio. Além disso, tomamos a decisão de carregar mais estoque, em face da maior incerteza sobre a disponibilidade de petróleo, por causa da guerra na Ucrânia. No fim, alocamos cerca de R$ 3 bilhões de capital de giro adicional em relação ao primeiro trimestre", contou Natal.

Desde o final de junho, os preços do petróleo no mercado externo foram de cerca de US$ 120 para US$ 90 por barril atualmente. O estoque foi montado, portanto, quando a situação do mercado de combustíveis era bem diferente. Diluir o custo mais elevado desse excedente vai ser um obstáculo para a preservação das margens no terceiro trimestre.

"A normalidade de mercado internacional nós dá mais conforto. Uma vez que estamos caminhando para um cenário mais estável, vamos desmontar o estoque e a necessidade de capital de giro vai cair", ponderou Natal, da Vibra.

O executivo lembrou que, em meados do segundo trimestre, a empresa decidiu abrir mão dos instrumentos de hedge de importação de combustíveis, pois percebeu que, em vez de trazer proteção, o mecanismo estava ampliando o prejuízo da operação. No período de abril a junho, 20% de todo combustível comercializado pela rede de postos BR veio do exterior.

Até aquele ponto, as operações de hedge já tinham "sangrado" o resultado da companhia em cerca de R$ 270 milhões, e poderiam ter tirado mais de R$ 1 bilhão da conta, se a estratégia de hedge não tivesse sido pausada.

"Em partes, ler bem a situação e tomar a decisão de sair das operações de hedge nos ajudou a atingir margens melhores do que a concorrência. Uma vez que as cotações foram para um campo mais 'normal' a partir de julho, criamos uma política para retomar gradualmente esse mecanismo", disse o CFO da Vibra.

Para compensar a despesa financeira maior, a distribuidora de combustíveis cortou custos e preservou a margem. Uma das estratégias, explicou Natal, foi reduzir o número de transportadoras e passar um pente fino em outras despesas administrativas.

O trabalho deu resultado. Em relatório, analistas do Credit Suisse ressaltam que a margem Ebitda da empresa foi de R$ 176 por metro cúbico de combustível comercializado, substancialmente melhor do que as das concorrentes Raízen (RAIZ4) e Ipiranga, do grupo Ultra (UGPA3). A Vibra tomou frente, também, na expansão da rede de postos: foram 59 unidades inauguradas no trimestre, frente a 33 inaugurações da concorrente Raízen (com a marca Shell) e bem diferente do encerramento de 121 postos da bandeira Ipiranga.

O banco tem recomendação de compra para os papéis da Vibra, e aponta um preço-alvo de R$ 25 por ação, o que representa valorização potencial de 35% em relação à cotação de hoje, 17.

Corte nos impostos

Além da virada nas cotações de petróleo, o setor de postos passou por uma mudança tributária. No mês passado, a redução das alíquotas de ICMS moveram os preços dos combustíveis para o menor patamar em mais de um ano. Embora esse evento implique uma perda de margens, especialmente para o estoque que foi feito antes do corte de tributos, o CFO da Vibra vê como positiva a queda de preços.

"Uma sequência de altas, como a que tivemos até julho, levou a sociedade a questionar os preços dos combustíveis, e é natural que os agentes públicos busquem uma forma de compensar isso", disse Natal.

Ele diz que, para os comercializadores, a migração para um regime monofásico (de tributação única) seria o melhor dos mundos, em termos de eficiência, mas que as mudanças atuais já são suficientes para trazer melhora até mesmo para a competitividade.

"Quando a carga tributária está mais elevada, o efeito da sonegação é ainda mais perverso. Agora, como a fatia de impostos é menor, os postos que não pagam corretamente os tributos acabam perdendo competitividade", ponderou o CFO da Vibra.

Ele lembra, por fim, que a queda nos preços é um alívio para os consumidores, e pode servir como motor para o crescimento do volume de combustível comercializado. Embora a demanda não tenha sido afetada de forma significativa quando a gasolina, diesel e etanol estavam em níveis recordes, o caminho contrário pode ser um estímulo para a demanda.

"Talvez não seja tão óbvio assim acreditar que o consumo vai subir mais do que deveria, mas já é possível verificar uma demanda mais resiliente, ligada, principalmente, ao retorno da mobilidade nas cidades pós-pandemia", argumentou Natal.