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Como o novo programa de renegociação com FGTS pode beneficiar bancos

Relatório do UBS BB aponta que medida focada em cartão, cheque especial e crédito pessoal pode aliviar a inadimplência e melhorar a qualidade dos balanços dos bancos

FGTS: governo estuda liberar parte do fundo para quem ganha até cinco salários mínimos renegociar dívidas (Divulgação/Agência Brasil)

FGTS: governo estuda liberar parte do fundo para quem ganha até cinco salários mínimos renegociar dívidas (Divulgação/Agência Brasil)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 15 de abril de 2026 às 15h06.

Um novo programa de renegociação de dívidas em estudo pelo governo federal pode melhorar a recuperação de crédito inadimplente no sistema financeiro — com impacto potencialmente positivo para os bancos listados na B3. Entre eles, o Nubank aparece como o nome mais exposto ao efeito da medida.

A avaliação é do UBS BB, que vê o pacote como um possível catalisador para reduzir perdas em carteiras de maior risco, especialmente nas linhas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.

A proposta prevê o uso de recursos do FGTS e garantias do Fundo de Garantia de Operações (FGO) para facilitar a renegociação de dívidas atrasadas de pessoas físicas — com foco em clientes de menor renda, justamente o segmento com maior concentração de inadimplência.

O que está em jogo no programa

Segundo o relatório do banco, o desenho preliminar do programa inclui:

  • renegociação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia;
  • garantia parcial das operações por meio do FGO;
  • teto de juros próximo de 2% ao mês para contratos refinanciados;
  • liberação de até 20% do saldo do FGTS para amortização de dívidas vencidas;
  • restrição temporária a apostas por participantes do programa.

Pelo desenho em discussão dentro do governo, divulgado pela Folha de S. Paulo, cada instituição financeira poderá consolidar em um único contrato o saldo das dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia de cada cliente, aplicando descontos que podem chegar a até 90% do valor original, dependendo do tempo de atraso. A lógica é proporcional: quanto mais antiga a inadimplência, maior tende a ser o abatimento concedido.

A proposta prevê que as dívidas antigas sejam liquidadas e substituídas por um novo contrato com valor reduzido e juros mais baixos, com taxa estimada em até 1,99% ao mês — bem abaixo da média de 6,8% ao mês observada no crédito pessoal não consignado prefixado no fim de março, segundo dados do Banco Central e informados pelo jornal.

Poderão participar pessoas físicas com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), e a renegociação deverá ser feita diretamente com cada banco onde o cliente possui débitos. Ou seja, quem tiver dívidas em diferentes instituições precisará negociar separadamente com cada uma delas.

Ainda estão em discussão os critérios de elegibilidade das dívidas. O governo defende incluir contratos com atraso entre 61 e 360 dias, enquanto os bancos propõem abranger operações com mais de 91 dias e até três anos de inadimplência. Quanto maior a cobertura do Fundo de Garantia de Operações nas operações repactuadas, menor tende a ser o risco residual para as instituições financeiras e menor a necessidade de novas provisões.

Hoje, segundo dados da Folha de S. Paulo, o estoque inadimplente nessas três linhas soma cerca de R$ 105 bilhões, dentro de um universo total de aproximadamente R$ 1,15 trilhão em crédito concedido nessas modalidades ao fim de 2025. Além do refinanciamento para pessoas físicas, o pacote em elaboração também deve incluir medidas voltadas a caminhoneiros, motoristas de aplicativos e taxistas.

Embora os detalhes finais ainda estejam sendo elaborados, a expectativa é que a iniciativa ajude os bancos a recuperar parte relevante dos créditos hoje em atraso.

Por que o impacto pode ser positivo para o setor

O principal canal de benefício para as instituições financeiras está na melhora da taxa de recuperação dessas carteiras. Segundo a Folha de S. Paulo, a estimativa é que o programa viabilize a repactuação de cerca de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões em dívidas, dentro de um universo total de atrasos que pode variar entre R$ 70 bilhões e R$ 100 bilhões — movimento que tende a aliviar parte da pressão sobre linhas de crédito mais arriscadas e apoiar a qualidade dos balanços bancários.

Clientes com renda de até cinco salários mínimos concentram 53% do crédito total às famílias e apresentam uma taxa de atraso superior à média do sistema, de 5,9%, ante 5,1% no agregado. Nas linhas de maior risco — justamente as incluídas no programa — essa concentração é ainda mais expressiva: essas modalidades somam cerca de R$ 1,1 trilhão no país, dos quais 54% estão nas mãos desse grupo de renda, que responde por 72% da inadimplência acima de 90 dias.

O papel do FGTS no refinanciamento

A liberação parcial do FGTS é um dos pilares da proposta. Segundo o UBS BB, o saldo médio por conta era de cerca de R$ 3,2 mil em 2024 e uma parcela relevante já está comprometida como garantia em operações existentes. Por isso, a liberação de até 20% dos recursos tende a funcionar mais como complemento ao refinanciamento do que como solução estrutural de desalavancagem das famílias.

Mesmo assim, combinada com garantias públicas via FGO, a medida pode melhorar significativamente o incentivo dos bancos para renegociar contratos hoje considerados de difícil recuperação. A expectativa é que as novas dívidas repactuadas contem com cobertura do fundo em caso de inadimplência dos devedores, reduzindo o risco das instituições financeiras nessas operações.

Para viabilizar o programa, o FGO deve receber um aporte orçamentário estimado entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões, segundo a Folha de S. Paulo.

Por que o Nubank aparece no centro da tese

Entre os bancos sob cobertura do UBS BB, o Nubank tende a ser o mais sensível ao programa, já que sua base de clientes é concentrada em faixas de renda mais baixas e crédito não garantido é o maior peso relativo da sua carteira. Por isso, na avaliação do banco, a fintech deve ser “mais afetada do que seus pares” pela iniciativa.

Para o Nubank, isso significa maior potencial de recuperação de crédito e possível redução de perdas esperadas — fatores que podem melhorar o resultado operacional ao longo do ciclo.

O que muda para quem investe em bancos

Para investidores, o programa tem três efeitos potenciais principais:

  • aumento da recuperação de créditos inadimplentes;
  • redução do custo de risco nas carteiras de varejo;
  • melhora marginal da qualidade dos ativos bancários.

Na leitura do UBS BB, ponto central da tese é que, mesmo sem todos os detalhes definidos, o programa tende a aumentar a probabilidade de recuperação de empréstimos em atraso e, por consequência, beneficiar os balanços do setor bancário brasileiro — com impacto proporcionalmente maior sobre instituições mais expostas ao crédito de baixa renda.

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