Amazônia terá transporte por drones em 10 anos, diz Carlos Nobre

Cientista está à frente de projeto que busca criar ecossistemas de inovação focados em produtos florestais. Primeira leva tem azeite e chocolate gourmet

A Amazônia do futuro terá laboratórios de biotecnologia, internet das coisas, produtos de alto valor agregado e transporte por drones. Essa cadeia será abastecida por uma agricultura sustentável, praticada pelos atuais moradores da floresta, que não vão mais depender de intermediários para vender seus produtos. Empreendedores, fundos de investimento e de venture capital serão atraídos por esse ecossistema de inovação, financiando um ciclo contínuo de desenvolvimento na floresta. Tudo isso será viável em menos de 10 anos. 

Essa é a visão do cientista Carlos Nobre, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e uma das maiores autoridades do mundo em estudos do clima. As ideias apresentadas não são apenas devaneios de algum Professor Pardal. Nobre já está implementando boa parte desse projeto, que ele batizou de Amazônia 4.0. “Já concluímos o desenho de dois laboratórios, estamos terminando mais um e conseguimos financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento”, disse o cientista à EXAME. 

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carlos-nobre-amazonia-drones Carlos Nobre: “Eu estava pessimista desde 2015. Agora, pela primeira vez sinto otimismo, ainda que seja um miniotimismo.”

Carlos Nobre: “Eu estava pessimista desde 2015. Agora, pela primeira vez sinto otimismo, ainda que seja um miniotimismo.” (Arquivo pessoal/Divulgação)

Os dois primeiros laboratórios serão focados na cadeia da castanha, do cacau e no desenvolvimento de óleos e azeites para a indústria de alimentos — azeites gourmet, segundo Nobre. O foco do terceiro estará nas pesquisas genéticas e de microorganismos, segmento que ganhou importância por causa da covid. “A Amazônia é o lugar com o maior número de microorganismos no mundo”, diz ele. “Não tivemos uma pandemia amazônica até hoje por sorte.” 

Nobre não está criando empresas para explorar os produtos da Amazônia. Seu foco é somente nas pesquisas e no desenvolvimento do ecossistema de inovação. O objetivo é atrair empreendedores e investidores para a floresta. Para isso, no entanto, será preciso desenvolver alguma infraestrutura. 

O primeiro desafio é a energia. Dos quatro locais escolhidos para o projeto, três não contam com rede elétrica. A solução é confiar na energia solar. O segundo desafio é mais complexo, porém, se tudo caminhar conforme os planos, transformará a floresta em um cenário de filme de ficção científica: para transportar os produtos de alto valor agregado, Nobre pretende usar uma frota de drones. 

“Não há solução melhor”, diz o cientista. “É mais barato e mais rápido do que caminhão, mais fácil do que usar o rio e, atualmente, já existem drones capazes de carregar 1 tonelada”. Ele espera que os veículos não tripulados consigam atender um raio de até 150 Km. “Em maio, faremos uma primeira capacitação nas comunidades e levaremos um drone. A ideia é que eles já tenham contato com a tecnologia”, afirma Nobre, que espera ver os robôs voadores voando sobre a floresta em menos de 10 anos. 

Terceira via

O projeto Amazônia 4.0 é considerado uma terceira via para o desenvolvimento da região. Ele se contrapõe aos dois modelos até então utilizados, o da abertura de terras para a agricultura e o que propõe a conservação pura e simples da floresta. Nobre acredita que é possível desenvolver negócios lucrativos e de grande escala a partir da biodiversidade amazônica, sem a necessidade de desmatar e respeitando as pessoas que vivem da floresta. 

Foi um estudo de Nobre que deu o alerta sobre o risco da Amazônia chegar a um ponto de inflexão, por causa do desmatamento, e se transformar em uma savana. Seus cálculos indicam que isso deve acontecer caso a destruição chega a 20% ou 25% da mata — hoje, o desmatamento está em 17%. No ritmo atual, o cenário de 20% será alcançado em 15 anos e o de 25%, em 30. Não é um cenário muito animador. 

A eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, no entanto, fez renascer as esperanças do cientista. “Eu estava pessimista desde 2015, quando vi a crise econômica acabar com todos os avanços que tínhamos feito até então”, diz Nobre. “Agora, pela primeira vez sinto otimismo, ainda que seja um miniotimismo.”

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