Sam Altman: CEO da OpenAI manda no jogo de parcerias (Getty Images)
Repórter
Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 5 de fevereiro de 2026 às 06h38.
Aos 19 anos, um jovem franzino de camisa cor de rosa de gola verde neon e calças jeans apresentava seu primeiro pitch de uma startup que permitia o compartilhamento de localização via celular. O ano era 2005.
O jovem era Sam Altman. Anos depois, ele se tornaria o fundador e CEO da OpenAI, dona do ChatGPT — e uma das startups mais valiosas do mundo.
A proposta da Loopt, criada antes mesmo da popularização do iPhone, permitia que usuários vissem onde amigos estavam e identificassem pontos de interesse próximos.
A startup entrou para a primeira turma da Y Combinator, recém-criada no Vale do Silício. A aceleradora, então, colocou Altman em contato com um grupo de fundadores em estágio inicial que, nos anos seguintes, comandariam algumas das empresas mais influentes da tecnologia.
A Loopt ganhou visibilidade, levantou capital e fechou acordos com operadoras, mas não conseguiu escalar o modelo de negócios. Em 2012, foi vendida por US$ 43,4 milhões.
A venda encerrou o projeto, mas não a rede. Ao longo desses anos, Altman consolidou acesso direto a investidores, fundadores e mentores que continuariam circulando nas mesmas mesas de decisão.
Após vender sua companhia, Altman passou a atuar como investidor-anjo em startups lideradas por pessoas com quem mantinha relação próxima.
Entre elas estavam Airbnb, Stripe e Reddit. Os aportes foram feitos cedo e acompanhados de envolvimento pessoal. No caso do Reddit, Altman chegou a assumir o cargo de CEO por oito dias.
Em 2014, Paul Graham escolheu Altman para assumir a presidência da Y Combinator. A mudança o colocou no centro do fluxo de criação de novas empresas.
Mais do que acelerar startups, a YC funcionava como um ponto de encontro entre fundadores, fundos de investimento e grandes empresas de tecnologia.
À frente da aceleradora, Altman ampliou o número de startups por turma e fortaleceu a integração entre ex-alunos.
Fundadores passaram a investir uns nos outros, contratar executivos na própria rede e fechar parcerias comerciais recorrentes. Ao deixar o cargo, em 2019, Altman ainda tinha relações diretas com centenas de CEOs e investidores em posições relevantes no setor.
Em 2015, nasceu a OpenAI. A iniciativa nasceu da articulação entre Altman, Elon Musk, Greg Brockman, Ilya Sutskever e outros pesquisadores já conectados por relações anteriores no Vale do Silício.
O objetivo, à época, era desenvolver inteligência artificial avançada fora do controle exclusivo das big techs. A organização foi estruturada como uma entidade sem fins lucrativos, financiada por doações privadas.
O modelo começou a mostrar limites com o aumento dos custos de computação. A inflexão ocorreu em 2019, com a criação de uma estrutura híbrida que permitiu captar capital privado. A partir daí, Altman passou a acionar diretamente a rede construída ao longo da década anterior.
A parceria mais decisiva foi com a Microsoft. Desde 2019, a empresa investiu cerca de US$ 13 bilhões na OpenAI, em acordos que incluíram participação econômica, uso exclusivo da nuvem Azure (que vigorou até o ano passado) e integração dos modelos a produtos comerciais. A OpenAI deixou de depender de doações e passou a operar em escala industrial.
Outros elos ganharam peso ao longo do tempo. A Nvidia tornou-se fornecedora crítica de chips, especialmente GPUs H100, e deve investir cerca de US$ 20 bilhões na companhia, segundo a Bloomberg.
A Amazon passou a ser considerada alternativa estratégica de nuvem. O SoftBank, liderado por Masayoshi Son, entrou em discussões sobre financiamento de infraestrutura. Todas essas relações orbitam o mesmo ponto: computação, energia e data centers.
As conexões de Altman não ficaram restritas ao setor privado. Nos últimos anos, passaram a alcançar também Washington.
Em 2016, Altman apoiou Hillary Clinton e manteve distância do entorno de Donald Trump. Essa postura começou a mudar no fim de 2023, quando ele passou a avaliar o peso direto do governo federal sobre políticas de IA, subsídios e infraestrutura.
Altman doou US$ 1 milhão ao fundo de posse de Trump e passou a atuar por intermediários com trânsito na Casa Branca, como Larry Ellison, fundador da Oracle, e Masayoshi Son. Dias antes da posse, apresentou pessoalmente o projeto Stargate, voltado à construção de grandes complexos de data centers de IA nos Estados Unidos.
Sam Altman e Donald Trump: CEO da OpenAI se tornou parceiro do presidente dos EUA (Andrew Harnik / Equipe/Getty Images)
O reposicionamento trouxe resultados. A OpenAI passou a contar com apoio federal para planos de até US$ 500 bilhões em infraestrutura, fechou um contrato de US$ 200 milhões com o Departamento de Defesa e passou a operar em um ambiente regulatório mais favorável.
Ao longo de duas décadas, Sam Altman transformou relações em vantagem estratégica.
Se o pitch de 2005 apresentava uma ideia prematura para o mercado, vinte anos depois o ativo central de Altman não é apenas o ChatGPT ou um modelo de linguagem. É o acesso. Aos investidores. À infraestrutura. Ao poder político.
E, hoje, quase todos querem uma fatia da OpenAI.