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Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 09h53.
Última atualização em 12 de agosto de 2026 às 11h21.
Existe um problema silencioso nas empresas que investiram pesado em inteligência artificial: quase nada funciona. Segundo o Gartner, apenas 8% das companhias conseguiram colocar agentes de IA de fato em operação, e 95% das primeiras tentativas terão de ser refeitas do zero. Um estudo do MIT chegou a número parecido: 95% dos projetos de IA generativa nas empresas não entregaram retorno mensurável.
A Skan AI, startup americana de sete anos, diz saber o motivo. E acaba de levantar US$ 63 milhões para provar sua tese, numa rodada liderada pela Cathay Innovation e pela Dell Technologies Capital, com participação de Citi Ventures, Bloomberg Beta, State Farm Ventures e Wipro Ventures. O total captado pela empresa chega a cerca de US$ 120 milhões.
A explicação da empresa é simples. Os modelos de IA são muito bons, mas chegam às companhias sabendo tudo sobre o mundo e nada sobre aquele lugar específico. Não conhecem as exceções, os atalhos, as decisões informais e os hábitos que definem como um departamento de sinistros ou um time de compliance realmente funciona. Não por acaso, o próprio estudo do MIT aponta que o excesso de soluções genéricas, pouco adaptadas à realidade de cada setor, está entre as principais causas do fracasso.
Para Avinash Misra, cofundador e CEO da Skan, a indústria inteira errou o diagnóstico. Todo mundo quer construir um motorista melhor, argumentou ele em entrevista ao site VentureBeat, quando a oportunidade real está em construir um sistema de navegação melhor.
A saída padrão do mercado é alimentar a IA com manuais de processo, procedimentos oficiais e registros dos sistemas. Esses documentos, porém, descrevem como o trabalho deveria ser feito, não como ele é. E é justamente nessa diferença que os projetos naufragam. A pergunta que levou Misra e o sócio Manish Garg a montar a empresa, sete anos atrás, era outra face do mesmo problema: por que é tão difícil para uma grande companhia entender como o próprio trabalho acontece, a ponto de precisar contratar consultoria para descobrir?
A proposta da empresa é ir à fonte. A Skan instala um software nos computadores dos funcionários que observa continuamente como o trabalho circula entre os programas: a planilha, o sistema de vendas, o e-mail, o sistema antigo de mainframe que ninguém teve coragem de aposentar. A partir dessa observação, monta um modelo vivo de como o processo acontece de verdade.
A analogia que o executivo usa é a de alguém compartilhando a tela numa reunião. Em poucos minutos, qualquer pessoa entende o que a outra faz. O que ninguém consegue é fazer isso 24 horas por dia, simultaneamente, para 1.500 funcionários. É esse papel que a tecnologia assume.
A aposta da empresa é que os registros dos sistemas contam só o fim da história, porque guardam apenas transações concluídas. Segundo Misra, cerca de 80% do que interessa para a IA está no intervalo entre uma etapa registrada e outra, e esse intervalo só aparece na tela.
Ele também faz questão de dizer que observar não é o desafio técnico, e sim interpretar: entender, por exemplo, se um funcionário voltando à primeira etapa está começando um caso novo ou refazendo um antigo. Um humano percebe a diferença de imediato; ensinar isso a um modelo, em escala corporativa, é onde a empresa diz estar sua vantagem de sete anos.
Um sistema que observa a tela dos funcionários levanta um problema óbvio, e não é hipotético: em junho, a Meta recuou de uma ferramenta interna que rastreava cliques de mouse depois de reclamações dos empregados.
Misra conta ter ouvido essa objeção antes de escrever a primeira linha de código. Ao apresentar a ideia a uma executiva de transformação de uma seguradora, ouviu que o projeto era bom, mas estava morto na chegada, porque violava a privacidade dos operadores e a soberania dos dados exibidos naquelas telas. A conversa, segundo ele, definiu a arquitetura do produto.
O sistema passou a agregar em vez de individualizar: mostra padrões estatísticos de centenas de pessoas fazendo o mesmo processo, não o comportamento de uma. "Não estamos interessados no que o João está fazendo às 10 horas e 43 segundos", disse Misra ao VentureBeat. "Estamos interessados no que centenas de Joãos, juntos, decidem naquele processo."
Além disso, a empresa cliente escolhe exatamente quais aplicativos e endereços podem ser observados, e os dados não saem da rede dela: apenas metadados anonimizados vão para a nuvem. A Skan aponta como prova de solidez o fato de ter sido aprovada por conselhos de trabalhadores europeus, entre os mais rigorosos do mundo em proteção laboral.
Ainda assim, a tensão permanece. A mesma medição que revela um processo quebrado pode revelar uma equipe improdutiva. O próprio Misra reconhece que a tecnologia já levou clientes a reduzir o quadro de pessoal em determinados processos.
A Skan afirma ter gerado mais de US$ 500 milhões em valor para clientes, mas o próprio CEO qualificou o dado quando questionado: trata-se de economia identificada, não necessariamente realizada. É o tamanho da oportunidade mapeada, da qual uma parte já virou dinheiro no caixa.
Os casos individuais são mais concretos. Num grande banco americano, a empresa diz ter observado 11,2 milhões de trocas de contexto entre 1.500 profissionais de finanças e identificado US$ 37 milhões em atrito operacional. A correção reduziu o custo por transação em 32%, elevou a produção em 41% e gerou US$ 18 milhões de economia anual.
Em outro banco, numa operação de prevenção à lavagem de dinheiro, 60% dos casos já são executados por agentes de IA. Segundo Misra, o resultado surpreendeu até ele: a precisão dos agentes superou várias vezes a dos humanos, o que transformou o debate de eficiência em debate de qualidade. Entre seguradoras, a empresa diz entregar cerca de 25% de ganho de produtividade em processos de sinistro; um cliente dobrou o volume de casos em um ano sem contratar um único especialista.
A Skan não revela faturamento, mas afirma ter crescido mais de 300% ao ano pelo segundo ano seguido, e diz atender sete dos dez maiores bancos americanos e um quarto das empresas da Fortune 50.
Há uma falha aparente na tese: funcionários erram, tomam atalhos e perpetuam ineficiências. O que acontece se o sistema registrar fielmente um processo ruim?
A resposta de Misra recorre à própria origem dos modelos de linguagem. A OpenAI, argumenta, alimentou seu sistema com a totalidade dos textos do mundo, bons e ruins, e ainda assim emergiu compreensão de sentido. A Skan diz fazer o equivalente com o trabalho, tratando processos como se fossem uma língua, em que etapas e transferências fazem o papel de palavras e frases. O modelo aprende todos os caminhos possíveis, sem supor que algum é o melhor, e a empresa depois define o critério que importa. Às vezes, observa o executivo, o caminho mais longo é o melhor justamente por ser o mais aderente às regras.
Ele cita um exemplo do que isso permite: num grande banco, o sistema compara em tempo real cada caso em andamento com um manual de controles de 600 páginas, disparando alertas quando alguma etapa obrigatória é pulada. Um documento que nenhum humano consegue guardar na cabeça vira uma camada de fiscalização automática.
A tese comercial da empresa explica por que grandes bancos e seguradoras compraram a ideia. Se todas as empresas do mundo têm acesso aos mesmos modelos de IA, nenhuma se diferencia por eles. O que sobra como vantagem competitiva é aquilo que cada companhia tem de único: a maneira como organiza o próprio trabalho. Segundo Misra, a velha palavra processo volta agora com outro nome, contexto, e esse contexto pertence à empresa, não ao modelo.
É por isso que a Skan diz não competir com OpenAI, Google ou Anthropic, e sim torcer por elas. A aposta embutida nos US$ 63 milhões é que a disputa está deixando de ser sobre quem tem o modelo mais inteligente para ser sobre quem sabe como a própria empresa realmente funciona. Ou, como resume o fundador, não há como recuperar um contexto que nunca foi capturado.