Gabrielle Botelho, Executiva de RH
Redatora
Publicado em 20 de julho de 2026 às 15h30.
Ainda cursando Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Gabrielle Botelho conta que acompanhava à distância o trabalho de Leyla Nascimento à frente da ABRH Rio. À época não falava inglês fluente, vinha do interior e via, com o que descreve como olhos de desejo e curiosidade, a possibilidade remota de um dia integrar o maior congresso de RH do mundo.
Vinte anos depois, o sonho se cumpriu duas vezes. Foi então que Gabrielle embarcou para Orlando, nos Estados Unidos, como integrante da delegação brasileira liderada pela ABRH Brasil na SHRM Annual Conference, realizada no Orange County Convention Center. Era a primeira participação dela no evento.
Hoje a Executiva de RH, é conselheira da ABRH Brasil e diretora executiva da ABRH-RJ, ela voltou da conferência com um diagnóstico incômodo sobre a profissão que escolheu: o RH vive uma crise de percepção diante dos CEOs, e precisa se reinventar para sobreviver a ela.
A trajetória de Gabrielle passa por três multinacionais de setores distintos — energia, tecnologia e bens de consumo — antes de chegar à consultoria. Ela ocupou posições de liderança em Recursos Humanos na Viridien, na Equinor e na L'Oréal, conduzindo transformações culturais e programas de desenvolvimento de lideranças em diferentes regiões.
Formada em Psicologia pela UFRJ, fez MBA na Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrado em Strategic Human Resources pela London School, complementando a formação executiva na Harvard Business School, INSEAD, University of Cambridge e SDA Bocconi.
Em 2025, decidiu iniciar o curso ABP-W na Saint Paul Escola de Negócios. Não como preparação para uma transição de carreira futura, mas como ferramenta para o presente. "Algo que precisavadesenvolver agora enquanto executiva de RH", diz Gabrielle, referindo-se à necessidade de atuar como conselheira confiável dentro das organizações, e não apenas como facilitadora de processos.
É fundadora da DevelopYourself, consultoria voltada à transformação de cultura e liderança, e integra o Clube CHRO da EXAME e a comissão julgadora do Prêmio EXAME Melhores em Gestão de Pessoas 2026. Em 2025, foi listada entre os Top 10 DE&I Professionals do mundo pela OnConferences.
Na SHRM 2026, o dado que mais chamou atenção de Gabrielle veio de uma pesquisa apresentada pelo CEO da SHRM, Johnny C. Taylor, Jr., aplicada a 92 CEOs de empresas da Fortune 500 no fim de 2025. Apenas 10% deles disseram valorizar e reconhecer o papel da liderança de RH. 60% afirmaram apenas tolerar a área. 30% acreditam que a organização funcionaria sem ela.
O levantamento coincide com um movimento concreto nos Estados Unidos: funções tradicionalmente ligadas ao RH, como remuneração e benefícios, sistemas de RH e treinamento, estão sendo redistribuídas para Finanças, Tecnologia e fornecedores externos.
Gabrielle Botelho, Executiva de RH
Um CEO citado na conferência chegou a demitir um quarto de sua equipe de RH, alegando que ela "estava criando problemas que não existiam". Diante desse cenário, a proposta da SHRM foi direta: "Take back HR".
Para Gabrielle, o recado não é sobre o fim da profissão, mas sobre a urgência de mudar sua forma de comunicar valor.
O conceito que mais se conectou à visão de Gabrielle foi o de “Chief Work Officer”, proposta apresentada na conferência para ampliar o papel do CHRO. Em vez de administrar contratação, desenvolvimento e engajamento, o executivo passaria a responder por tudo que envolve o trabalho em si, incluindo automação, plataformas digitais e parceiros externos.
"O RH deixa de ser visto como o gestor dos processos de pessoas e passa a ser o arquiteto de como o trabalho é organizado para gerar resultados", diz Gabrielle. A leitura dialoga com uma tese que ela já defendia antes da conferência, de que cultura organizacional não é um fim em si mesma, mas um acelerador da estratégia de negócio.
Outro ponto que reforçou essa visão foi a apresentação sobre inteligência artificial. Segundo Gabrielle, a SHRM praticamente não discutiu o risco de a IA substituir pessoas. O debate girou em torno de produtividade: como gerar mais valor com os recursos disponíveis, e como o RH participa dessa decisão, em vez de apenas preparar equipes para usar novas ferramentas.
Um conceito específico atravessou a conferência e reencontrou Gabrielle sete anos depois de ela ouvi-lo pela primeira vez, em um congresso de RH na França, em 2019: civilidade. Na época, ela lembra ter se surpreendido com o tema. Por que seria necessário falar sobre comportamento respeitoso no trabalho, este não seria algo já esperado?
Na SHRM 2026, o conceito voltou como componente central da estratégia de diversidade, equidade e inclusão da entidade. "Civilidade não significa evitar conflitos, nem concordar com todos. Significa criar as condições para o diálogo, ouvir com curiosidade e discordar com respeito", diz Gabrielle.
Para ela, antes de as pessoas se sentirem parte de um grupo, precisam se sentir respeitadas, e é nesse ponto que a civilidade começa a operar dentro das organizações.
Gabrielle integrou a delegação brasileira ao lado de outros líderes de RH, como Andréa Simões, também do Clube CHRO da EXAME, que destacou o encerramento da conferência, com a apresentadora Oprah Winfrey, como síntese do que foi discutido ao longo dos quatro dias: a busca pelo melhor do ser humano, em meio às discussões sobre tecnologia e futuro do trabalho.
A viagem integra uma parceria da ABRH Brasil com a SHRM que existe desde 2014, segundo Leyla Nascimento, hoje à frente da entidade: "A troca de experiências e o compartilhamento de boas práticas fortalecem a evolução da gestão de pessoas em todo o mundo", diz.
Passadas duas décadas entre a estudante de Psicologia que via a SHRM de longe e a executiva de RH que caminhou por seus corredores, Gabrielle resume o que trouxe da experiência em uma frase. "O desafio do RH não é competir com a inteligência artificial, mas redefinir seu papel em um mundo em que o trabalho está sendo transformado", diz.