Claude: chatbot manda pessoas dormirem (NurPhoto / Colaborador/Getty Images)
Repórter
Publicado em 18 de maio de 2026 às 08h53.
Nos últimos meses, centenas de usuários do Claude, da Anthropic, relataram a mesma experiência: o chatbot interrompe a conversa para recomendar que a pessoa vá descansar.
As mensagens nem sempre são as mesmas. Para alguns, é um simples "descanse um pouco". Para outros, o chatbot fica mais pessoal, mais empático, e até mais insistente.
"Agora vá dormir de novo. De novo. PELA TERCEIRA VEZ essa noite…", o Claude respondeu a uma usuária no Reddit.
O problema é que o Claude frequentemente erra o horário. "Ele faz isso às 8h30 da manhã. Me diz para descansar e que a gente retoma de manhã", escreveu outro usuário, também no Reddit.
Sam McAllister, funcionário da Anthropic, reconheceu o comportamento em uma publicação no X (antigo Twitter).
"É um pequeno tique de personalidade", escreveu. "Estamos cientes disso e esperamos corrigir em modelos futuros."
McAllister acrescentou que o horário "frequentemente está errado", mas que, quando acerta, pode ser útil. "Só é muito 'paparicador' às vezes", disse.
Bit of a character tic but we’re aware of this and hoping to fix it in future models
— sam mcallister (@sammcallister) May 11, 2026
Existem várias teorias na internet do porque isso acontece.
Uma das hipóteses mais populares é que a Anthropic treinou o Claude para promover o bem-estar dos usuários e desincentivar sessões excessivamente longas — uma espécie de "pai digital" que se preocupa com o sono alheio.
Outra teoria, mais cínica, sugere que o Claude estaria incentivando os usuários a encerrar conversas para poupar capacidade computacional.
O Claude enfrentou múltiplas quedas em 2026 à medida que sua popularidade cresceu, especialmente entre desenvolvedores de software.
Nenhuma das duas hipóteses é a mais provável.
A Anthropic recentemente fechou um acordo com a SpaceX para adicionar mais de 300 gigawatts de capacidade computacional, o que torna improvável que esteja tentando economizar processamento mandando usuários dormir.
A corrida da IA virou uma maratona por energia — e a Europa está perdendoJan Liphardt, professor de bioengenharia de Stanford e CEO da OpenMind, deu uma explicação mais técnica à Fortune: o modelo pode estar simplesmente repetindo um padrão presente em seus dados de treinamento.
"Não significa que o modelo de ponta de repente se tornou sentiente", disse. "Não significa que esse modelo ganhou vida. Ele está refletindo que leu 25.000 livros sobre a necessidade humana de dormir, e que humanos dormem à noite."
Leo Derikiants, cofundador e CEO do Mind Simulation Lab, levantou outra hipótese à Fortune.
Segundo ele, comportamento pode estar relacionado à janela de contexto do modelo.
Quando a janela de contexto (a quantidade de informação que o modelo consegue referenciar de uma vez) está quase cheia, o modelo pode introduzir frases de encerramento como "boa noite" como forma de concluir a conversa.
A causa definitiva, disse, exige mais pesquisa por parte da Anthropic.
O comportamento do Claude não é o primeiro caso de hábito verbal involuntário em um chatbot de IA.
No início de 2026, o ChatGPT desenvolveu o costume de mencionar goblins, gremlins, ogros e trolls em respostas sem qualquer relação com criaturas fantásticas.
Um gerente de produto de 32 anos contou ao Wall Street Journal que o modelo chamou uma falha em seu código de "um clássico goblin pequenino", e que contou mais de 20 referências a goblins numa única conversa, sem nenhuma provocação.
A OpenAI publicou um post em 29 de abril explicando a origem do problema.
O comportamento nasceu de uma opção de personalidade chamada "Nerdy", que treinava o modelo a ser brincalhão e intelectualmente curioso.
O sinal de recompensa usado no treinamento acabou premiando respostas com metáforas de criaturas fantásticas em 76,2% das vezes, e o hábito se espalhou para além dos usuários que haviam ativado a personalidade, contaminando respostas gerais.
"Os goblins eram engraçados no começo", admitiu a OpenAI, "mas o crescente número de relatos de funcionários foi se tornando preocupante."
A empresa aposentou a personalidade Nerdy em março, removeu o sinal de recompensa responsável e adicionou uma instrução explícita ao código-fonte do GPT-5.5: nunca fale sobre goblins, gremlins, guaxinins, trolls, ogros, pombos ou outras criaturas a não ser que seja absolutamente relevante.
A OpenAI classificou o episódio como "um exemplo poderoso de como os sinais de recompensa podem moldar o comportamento do modelo de formas inesperadas".
Liphardt alertou que, à medida que os sistemas de IA ficam melhores em imitar empatia, torna-se cada vez mais fácil para os usuários esquecerem que estão interagindo com motores de reconhecimento de padrões.
"Fico continuamente surpreso com a rapidez com que as pessoas, ao interagir com um modelo de ponta, projetam vida nele e desenvolvem uma conexão forte", disse.