Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre: município levou a São Paulo um pacote de cerca de R$ 7 bilhões em investimentos para atrair empresas às futuras licitações (Cesar Lopes/ PMPA)
Repórter
Publicado em 1 de outubro de 2026 às 16h48.
A prefeitura de Porto Alegre veio de mala e cuia a São Paulo para apresentar ao mercado um pacote de R$ 7 bilhões em investimentos e ampliar o número de empresas interessadas em disputar as futuras licitações do município.
O programa, batizado de POA Futura, reúne projetos de proteção contra enchentes, saneamento, mobilidade, saúde, educação, revitalização urbana e inclusão social.
O roadshow foi realizado na terça-feira, 29, no Instituto de Engenharia, em São Paulo, e reuniu representantes de 48 empresas de engenharia e construção, consultorias, escritórios de projetos, entidades do setor e instituições financeiras.
A prefeitura de Porto Alegre apresentou os principais projetos, as modalidades de contratação previstas e as regras para participação nas licitações.
A estratégia é aumentar a concorrência nas obras que serão colocadas no mercado nos próximos anos. Em entrevista à EXAME, o prefeito Sebastião Melo afirmou que o município busca empresas e consórcios capazes de assumir tanto o desenvolvimento dos projetos quanto a execução das intervenções.
“O que nós queremos é que boas empresas ou bons consórcios se habilitem, recebam na hora certa, de forma certa, e entreguem a obra”, disse Melo.
Segundo o prefeito, a opção por apresentar o programa fora do Rio Grande do Sul também procura ampliar o alcance das licitações. Além de companhias paulistas, participaram do encontro representantes de empresas de Estados como Minas Gerais, Espírito Santo e Goiás.
O POA Futura combina recursos do próprio município, dos governos estadual e federal e de instituições financeiras nacionais e internacionais.
Entre os financiadores mencionados no programa estão Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Agência Francesa de Desenvolvimento, CAF, KfW, Banco do Brasil, Caixa, BRDE e BNDES.
“Foi uma oportunidade de ampliar o diálogo com o setor privado, aproximar parceiros qualificados e mostrar que a nossa cidade está preparada para receber e executar grandes investimentos”, afirmou Melo após a agenda em São Paulo.
O programa foi lançado pela prefeitura no fim de 2025 como um plano de investimentos para os quatro anos seguintes.
Na apresentação inicial, o município estimava R$ 7,1 bilhões para 332 obras e ações, divididas em cinco grandes áreas. No roadshow realizado agora em São Paulo, a prefeitura passou a mencionar mais de 400 ações estruturantes dentro do portfólio.
A maior parcela dos recursos está concentrada em resiliência e proteção, com cerca de R$ 4,2 bilhões.
O eixo envolve saneamento, drenagem, recuperação de arroios, contenção de encostas e modernização da estrutura de proteção contra enchentes.
O tema ganhou peso após as enchentes de 2024.
Entre as intervenções previstas estão a modernização das casas de bombas, canais, polders e reservatórios, além de melhorias nos sistemas de drenagem. A previsão apresentada originalmente é de que boa parte desse conjunto avance até o fim de 2029.
“É um conjunto de investimentos que a cidade vai fazer para melhorar a vida das pessoas, começando pela proteção contra cheias”, disse Melo.
O prefeito também afirmou que o município contratou um projeto para ampliar a proteção na zona sul, onde, segundo ele, o sistema histórico de contenção não cobre toda a região.
Além das intervenções contra enchentes, o POA Futura reúne investimentos em outros quatro eixos.
Na área de infraestrutura e mobilidade, o programa prevê cerca de R$ 796 milhões e inclui intervenções no Centro Histórico, recuperação de pontes e viadutos, estudos para novos terminais, expansão de ciclovias e a aquisição de 100 ônibus elétricos, além da infraestrutura necessária para carregá-los.
Já o eixo de qualidade de vida reúne projetos de saúde, educação, cultura, esporte, turismo e assistência social.
Entre eles estão a construção de uma maternidade na Restinga, estimada em R$ 50 milhões, intervenções em unidades hospitalares e a reforma do Hospital de Pronto Socorro.
Também estão previstas obras de recuperação de bens históricos, como a Confeitaria Rocco, o Museu do Paço e o entorno do Mercado Público.
Há ainda R$ 382,7 milhões reservados para gestão digital e integrada, com investimentos em tecnologia, digitalização de serviços públicos e sistemas de segurança.
Uma das frentes do POA Futura reserva R$ 450,4 milhões para desenvolvimento e inclusão social, com ações voltadas à geração de renda, capacitação profissional, moradia e empreendedorismo.
O secretário de Planejamento e Assuntos Estratégicos de Porto Alegre, Cézar Schirmer, afirma que uma das mudanças será aproximar os programas de qualificação das necessidades das empresas.
“Nós vamos inverter uma lógica histórica, que é o poder público oferecer cursos de qualificação. Atualmente, o cidadão vai lá, faz o curso, mas não consegue emprego. Agora, a estratégia é partir da demanda do mercado”, disse Schirmer.
Cézar Schirmer, secretário de Planejamento e Assuntos Estratégicos de Porto Alegre: POA Futura reúne obras de infraestrutura e ações de desenvolvimento e inclusão social (Cesar Lopes/ PMPA)
O plano também prevê oito complexos que deverão reunir serviços de saúde, educação, lazer, cultura e assistência social.
Em alguns casos, a própria infraestrutura contra enchentes terá uso compartilhado. Bacias de contenção, por exemplo, poderão funcionar como áreas esportivas nos períodos sem chuva.
Segundo Melo, um dos objetivos da viagem foi aumentar a competição pelas obras.
A prefeitura pretende utilizar em parte dos projetos o modelo de contratação integrada, em que uma mesma empresa ou consórcio fica responsável pelo desenvolvimento do projeto e pela execução da obra.
“Temos grandes dificuldades no Brasil em obras públicas, começando pelo planejamento. Às vezes, as empresas ganham e pedem reajustes logo em seguida. As contratações serão integradas, com o projeto junto com a obra”, afirmou o prefeito.
A apresentação em São Paulo foi uma nova etapa de um roadshow iniciado no Rio Grande do Sul.
Em julho, o município já havia mostrado o portfólio a empresários durante uma apresentação na
Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul.
A expectativa do município é que a divulgação antecipada dos projetos permita às empresas estudar os editais antes do início das disputas e aumente o número de concorrentes nas contratações.
A passagem pela capital paulista também serviu para buscar referências de revitalização urbana.
Pela manhã, Melo e sua comitiva se reuniram com representantes da SP Parcerias para conhecer modelos adotados no Centro Histórico de São Paulo.
Segundo a prefeitura, foram discutidos instrumentos urbanísticos, formas de financiamento, requalificação urbana e iniciativas culturais.
Depois, o grupo visitou o Sesc 24 de Maio, no centro da cidade. A visita teve como objetivo conhecer referências para equipamentos que poderão ser construídos em Porto Alegre por meio do POA Futura.
Melo disse que ficou particularmente interessado no modelo do Sesc, que reúne em um mesmo edifício equipamentos culturais, esportivos e sociais.
“Tem empreendedorismo, inovação, piscina, oficinas. Visitei uma exposição sobre inteligência artificial espetacular. Acho que esse modelo pode ser adaptado”, afirmou.
Uma das possibilidades estudadas pelo prefeito é buscar uma parceria com o Sistema S para ocupar a área onde ficava o chamado Esqueletão, edifício inacabado no Centro Histórico de Porto Alegre que foi demolido pela prefeitura.
Melo afirmou que pretende discutir a ideia com as entidades, mas ressaltou que ainda não existe um acordo fechado.
“Quero ver se busco uma parceria com o Sistema S”, disse. “O mais fácil é fazer a obra. O difícil é mantê-la funcionando.”