Duas pessoas usam a mesma ferramenta de inteligência artificial e recebem a mesma resposta. Uma confere, ajusta e decide o que aproveitar. A outra copia e segue em frente. Pesquisas recentes indicam que essa diferença, a capacidade de avaliar criticamente o que a IA entrega, está ligada à forma como o profissional se relaciona com a tecnologia.
O que as pesquisas indicam sobre confiança e senso crítico
Um estudo da Microsoft Research com a Carnegie Mellon University ouviu 319 trabalhadores do conhecimento que usam IA generativa ao menos uma vez por semana e analisou 936 exemplos reais de uso. Maior confiança na IA esteve associada a menos pensamento crítico, e maior autoconfiança, a mais.
Os participantes relataram que costumam evitar o pensamento crítico quando lhes faltam habilidades para inspecionar, melhorar e orientar as respostas da IA. Análises do estudo observam que o levantamento não mediu a capacidade de pensamento crítico antes e depois de meses de uso.
Quando a ferramenta vira muleta
Um experimento com quase mil estudantes de ensino médio na Turquia, publicado na revista PNAS, comparou grupos de matemática. Durante a prática, quem usou uma interface parecida com a do ChatGPT teve desempenho 48% melhor que o grupo de controle, mas, na prova sem IA, ficou 17% abaixo dele.
A maioria dos alunos desse grupo pediu apenas a resposta correta, e eles acreditavam ter aprendido tanto quanto os colegas. Outro grupo usou uma versão configurada para orientar o raciocínio e teve, na prova, resultado semelhante ao do controle. O estudo é do ambiente escolar, e seus autores defendem salvaguardas no desenho das ferramentas.
Como a habilidade aparece no trabalho
Segundo o estudo da Microsoft, o pensamento crítico passa a se concentrar em verificação de informações, integração das respostas e supervisão da tarefa. Na prática:
- Verificação: conferir números, nomes e fontes. Exemplo: checar no documento original um dado de vendas citado em um resumo gerado pela IA.
- Integração: adaptar o conteúdo ao contexto. Exemplo: reescrever um e-mail sugerido para o tom e o histórico de um cliente específico.
- Supervisão da tarefa: definir objetivo e critérios e responder pelo resultado final. Exemplo: informar à IA o público e o formato de um relatório e revisar o que ela devolve.
O que os estudos ainda não respondem
Os resultados mostram associação, e não causa comprovada no ambiente de trabalho. A pesquisa da Microsoft se baseia em relatos dos próprios profissionais, e o experimento da PNAS foi feito com adolescentes em aulas de matemática.
Os pesquisadores afirmam que os achados podem orientar o desenho de ferramentas que criem oportunidades de praticar o pensamento crítico. Em síntese, os estudos ligam a verificação ativa das respostas a um uso mais crítico da tecnologia, enquanto a confiança sem checagem aparece associada à dependência da ferramenta.
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