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A mentira mais comum nos currículos de 2026 não é sobre inglês. É sobre IA (Magnific)
Jornalista
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 15h52.
Última atualização em 30 de setembro de 2026 às 16h51.
Ter inteligência artificial no currículo deixou de ser um diferencial restrito aos profissionais de tecnologia. Ferramentas como ChatGPT, Copilot e outros sistemas generativos passaram a fazer parte da rotina de diferentes áreas, aumentando também a pressão para demonstrar domínio sobre essas tecnologias.
O problema é que declarar conhecimento em IA não significa necessariamente saber aplicá-la no trabalho. Pesquisas recentes mostram uma distância relevante entre a habilidade que profissionais afirmam ter e a capacidade que conseguem demonstrar.
O exagero começa no currículo, mas pode aparecer também em entrevistas, reuniões e no próprio ambiente de trabalho.
Um levantamento da Pluralsight divulgado em 2025 ouviu 1.200 profissionais e tomadores de decisão de tecnologia nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo a pesquisa, 79% dos profissionais de tecnologia disseram fingir saber mais sobre IA do que realmente sabem. Entre executivos de alto escalão, o percentual chegou a 91%.
O dado não significa que 79% dos currículos contenham informações falsas. A pesquisa mede a percepção dos próprios profissionais sobre o conhecimento que afirmam possuir. Ainda assim, ela mostra como a pressão por domínio de IA pode estimular a inflação dessa competência.
Outro levantamento, divulgado em 2026 pela Express Employment Professionals em parceria com a Harris Poll, encontrou um problema semelhante nos currículos de forma mais ampla. 86% dos gestores de contratação nos EUA disseram que a inteligência artificial tornou mais fácil exagerar habilidades em um currículo.
Parte da pressão vem da própria transformação do mercado de trabalho. Dados do LinkedIn publicados em 2025 apontaram que alfabetização em IA estava entre as habilidades que mais cresciam entre profissionais e empresas.
A plataforma também estimou que 70% das habilidades utilizadas na maioria dos empregos poderão mudar até 2030, com a IA como um dos principais catalisadores dessa transformação.
Na prática, isso faz com que colocar “IA” no currículo pareça uma forma de demonstrar atualização profissional. O problema aparece quando a palavra substitui a experiência real.
Não necessariamente.
Existe uma diferença entre usar uma ferramenta ocasionalmente e saber incorporá-la a um processo de trabalho. Pedir ao ChatGPT para resumir um texto, por exemplo, não demonstra necessariamente domínio de IA generativa.
Um profissional que realmente utiliza a tecnologia em sua função pode explicar:
Essa diferença é importante porque o nome da ferramenta, sozinho, diz pouco sobre a capacidade do candidato.
Uma pesquisa publicada pelo Monster em 2026 identificou que a presença de termos relacionados à IA nos currículos mais que triplicou entre 2023 e 2025, passando de 3,7% para 12,8% dos documentos analisados. O estudo examinou 25 mil currículos por ano.
O problema não é colocar IA no currículo. É não conseguir sustentar a afirmação quando o recrutador pergunta como ela foi utilizada.
Uma forma de evitar o problema é trocar declarações genéricas por exemplos concretos.
Em vez de escrever:
“Conhecimento avançado em inteligência artificial.”
O profissional pode explicar como a tecnologia aparece em sua rotina:
“Utilização de ferramentas de IA generativa para pesquisa, organização de informações e elaboração de primeiros rascunhos, com revisão humana do conteúdo.”
A segunda descrição é mais específica e permite que o recrutador compreenda o que o profissional realmente faz com a tecnologia.
O mesmo vale para ferramentas como Excel, Power BI ou softwares de gestão. Saber abrir uma plataforma não equivale a dominar seus recursos.
A tendência de contratação também está mudando a natureza da avaliação. Um levantamento da Microsoft e do LinkedIn já havia identificado que 66% dos líderes consultados não contratariam alguém sem habilidades de IA, enquanto 71% disseram preferir um candidato menos experiente que tivesse essas habilidades a um profissional mais experiente sem elas.
Mais recentemente, a Microsoft analisou dados de uso do Copilot e ouviu 20 mil trabalhadores que utilizam IA em dez países. O estudo de 2026 apontou que controle de qualidade das respostas e pensamento crítico estão entre as habilidades humanas consideradas mais importantes pelos usuários de IA.
Isso ajuda a explicar por que simplesmente listar ferramentas no currículo pode ser insuficiente. Saber usar IA envolve julgamento, revisão e capacidade de decidir quando a tecnologia deve ou não participar de uma tarefa.
Para o profissional, a diferença entre parecer que sabe IA e realmente saber aplicá-la pode aparecer justamente na entrevista. Um recrutador pode pedir um exemplo, questionar o processo utilizado ou propor uma tarefa prática.
Nesse cenário, conhecer os conceitos básicos, entender as limitações das ferramentas e ter exemplos reais de aplicação pode ser mais relevante do que acumular palavras-chave no currículo.