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A próxima onda da IA não vai criar programadores. Vai criar orquestradores (Adobe Stock)
Jornalista
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 16h12.
A próxima onda da inteligência artificial pode mudar menos o tipo de ferramenta usada pelos profissionais e mais a forma como o trabalho é organizado. Com a evolução dos chamados agentes de IA, sistemas capazes de executar uma sequência de tarefas com menor intervenção humana, cresce a importância de quem consegue definir objetivos, distribuir tarefas e supervisionar resultados.
Esse profissional não precisa necessariamente ser programador. O foco está em entender o problema, escolher as ferramentas adequadas, determinar o que deve ser automatizado e verificar se o resultado entregue pela IA atende ao objetivo.
O trabalho está mudando de execução para coordenação.O termo "orquestração" vem sendo usado para descrever a coordenação de diferentes modelos, ferramentas, agentes e etapas para realizar uma tarefa mais complexa.
Na prática, um profissional pode, por exemplo, pedir a um agente para pesquisar informações, a outro para organizar os dados e a um terceiro para preparar uma apresentação. Cabe ao humano definir o fluxo e revisar as entregas.
É uma mudança em relação ao uso tradicional de chatbots. Em vez de apenas fazer uma pergunta e receber uma resposta, o profissional passa a desenhar um processo no qual diferentes recursos de IA trabalham em sequência.
A Microsoft identificou esse movimento no Work Trend Index 2025 ao descrever o surgimento dos chamados "agent bosses", profissionais responsáveis por construir, delegar e gerenciar agentes. Na pesquisa, líderes esperavam que suas equipes passassem a treinar e administrar agentes nos cinco anos seguintes.
Programação continua sendo uma das áreas com maior uso de inteligência artificial. O Anthropic Economic Index, baseado em milhões de conversas anonimizadas com o Claude, identificou forte concentração de uso em desenvolvimento de software e redação técnica.
Ao mesmo tempo, o estudo mostrou que 57% dos usos analisados eram de aumento de capacidade humana, enquanto 43% correspondiam à automação direta de tarefas.
Isso ajuda a explicar uma mudança importante: saber escrever código pode continuar sendo relevante, mas não é a única forma de trabalhar com sistemas de IA.
Um profissional de marketing, por exemplo, pode usar agentes para analisar concorrentes, estruturar campanhas, organizar dados e produzir diferentes versões de conteúdo. O conhecimento do negócio passa a ser combinado com a capacidade de desenhar e supervisionar o fluxo de trabalho.
A evolução dos agentes aumenta o valor de habilidades que ficam entre o conhecimento técnico e a experiência profissional.
Entre elas estão:
O relatório de 2026 do Work Trend Index, da Microsoft, reforça essa mudança. A empresa analisou sinais de produtividade do Microsoft 365 e entrevistou 20 mil trabalhadores que usam IA em dez países. Entre os usuários mais avançados, chamados pela pesquisa de "Frontier Professionals", estão profissionais que utilizam agentes em fluxos de múltiplas etapas e constroem sistemas com vários agentes.
A transformação não significa que todos os trabalhadores precisarão se tornar especialistas em inteligência artificial. A tendência observada nos estudos é de integração da IA às profissões existentes.
Um analista financeiro poderá coordenar agentes para consolidar informações e preparar cenários. Um profissional de recursos humanos poderá automatizar etapas de triagem e análise. Um jornalista poderá utilizar agentes para organizar documentos e cruzar informações antes da apuração.
Em todos esses casos, o conhecimento da área continua sendo necessário para definir o que deve ser feito e avaliar o resultado.
O Fórum Econômico Mundial também aponta para essa combinação. No Future of Jobs Report 2025, habilidades tecnológicas aparecem entre as que devem crescer até 2030, mas competências humanas, como pensamento analítico e colaboração, também estão entre as mais demandadas.
Quanto mais tarefas um agente consegue executar sozinho, maior se torna a importância de estabelecer limites e critérios de avaliação.
Um fluxo automatizado pode produzir uma resposta aparentemente correta, mas baseada em dados incompletos. Por isso, a orquestração envolve também controle, validação e responsabilidade.
Para o profissional, a habilidade central deixa de ser apenas saber qual comando escrever. Passa a ser entender quando usar a IA, como estruturar seu trabalho e como verificar o resultado.
Esse movimento pode alterar a composição de equipes e a divisão de tarefas dentro das empresas, mas a velocidade dessa mudança varia de acordo com o setor, o nível de adoção tecnológica e o tipo de atividade.
A próxima etapa da adoção de IA, portanto, não depende apenas da criação de modelos mais capazes. Também envolve profissionais capazes de conectar ferramentas, processos e objetivos de negócio. Nesse cenário, orquestrar o trabalho da IA pode se tornar uma competência complementar ao conhecimento técnico tradicional.