Inteligência Artificial

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A inteligência artificial que era perigosa demais — até deixar de ser

Medida inédita suspendeu temporariamente o acesso global aos modelos da Anthropic, dona do Claude, e expôs o choque entre segurança nacional e liderança americana em IA

Governo dos EUA: Anthropic e Trump tiveram embates nas últimas semanas

Governo dos EUA: Anthropic e Trump tiveram embates nas últimas semanas

Publicado em 1 de julho de 2026 às 05h01.

Poucos produtos conseguem ser tratados como ameaça à segurança nacional e, três semanas depois, como peça da liderança americana em tecnologia. O Claude Fable 5, da Anthropic, passou pelos dois papéis no intervalo de um mês.

A sequência de acontecimentos tem o ritmo de um vaudeville, teatro popular do início do século 20 feito de números curtos e desconexos, emendados um no outro.

Em 9 de junho, a Anthropic lançou Fable 5 e Mythos 5, seus modelos mais avançados. Em 10 de junho, o presidente-executivo Dario Amodei publicou um ensaio defendendo que o governo tivesse autoridade legal para barrar modelos de IA que falhassem em testes de segurança.

Em 12 de junho, o governo usou uma autoridade semelhante — contra os modelos da própria Anthropic. Agora, na terça-feira, 30, a Anthropic afirmou que voltará a disponibilizar os modelos anteriormente proibidos.

O Departamento de Comércio recorreu a controles de exportação, o mesmo tipo de instrumento usado para restringir a venda de tecnologias militares ao exterior.

A diretriz mandava suspender o acesso de qualquer estrangeiro ao Fable 5 e ao Mythos 5, incluindo os funcionários não americanos da própria empresa. Sem uma forma de aplicar a restrição apenas a estrangeiros, a Anthropic desligou os dois modelos para todos os usuários do mundo.

A motivação, segundo o governo, era o risco de que uma falha permitisse usar os modelos em ataques cibernéticos.

SAN FRANCISCO, CALIFÓRNIA - 4 DE SETEMBRO: Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, participa do painel

Dario Amodei é cofundador e CEO da Anthropic (Chance Yeh / Correspondente autônomo/Getty Images)

A empresa contestou: afirmou que a vulnerabilidade apontada era limitada e que capacidades semelhantes já estavam disponíveis em modelos no mercado havia meses.

Classificou a ação de "mal-entendido" — uma palavra contida para a retirada temporária de um produto de uma companhia avaliada em US$ 965 bilhões.

Seguiram-se três semanas de negociação diária e uma carta aberta assinada por mais de 100 especialistas em segurança, que pediam a revogação da medida.

O bloqueio cedeu em etapas: na última sexta, 26, o Mythos 5 foi liberado para cerca de 100 instituições consideradas de confiança, como operadores de infraestrutura crítica e agências federais; nesta terça-feira, 30, os dois modelos foram liberados.

O secretário de Comércio, Howard Lutnick, afirmou ter trabalhado "de perto" com a empresa para "fortalecer a liderança dos Estados Unidos em IA".

O episódio deixa um precedente concreto: foi uma das primeiras vezes em que o governo americano usou controles de exportação para tirar do ar um modelo de IA já em uso comercial.

Tanto a Anthropic quanto a OpenAI — que na semana anterior liberou seu GPT-5.6 apenas a parceiros aprovados, também a pedido do governo — passaram a pressionar por um processo formal de avaliação de modelos.

A administração Trump tem, sob um decreto assinado em junho, prazo até agosto para criar critérios padronizados de segurança.

Na corrida entre a inteligência artificial e a regulação que deveria contê-la, ambas provaram ser igualmente improvisadas — e, até agora, sem um vencedor claro.

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