Carne bovina: consumo per capita no Japão é de 6,9 kg por ano — cerca de cinco vezes menor que o dos Estados Unidos (Freepik/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 28 de dezembro de 2025 às 10h32.
Última atualização em 28 de dezembro de 2025 às 10h33.
O anúncio de que o Japão realizará uma auditoria para avaliar o sistema sanitário da carne bovina brasileira em março de 2026, como parte do processo de abertura do mercado japonês à proteína, foi bem recebido pelo governo brasileiro.
A auditoria será conduzida por técnicos do Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão e terá como foco a avaliação de riscos do sistema sanitário brasileiro, sem inspeção em plantas frigoríficas específicas.
“Foi confirmada a auditoria para março, um passo importantíssimo nesse processo que estamos sonhando para o mercado de carne bovina”, disse à EXAME Luís Rua, secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A tentativa de exportar carne bovina para o Japão não é recente. O processo começou há mais de 25 anos, mas enfrentou seguidos entraves sanitários e exigências técnicas que não avançaram.
Uma das principais condições impostas pelo governo japonês era que o Brasil conquistasse o status de área livre de febre aftosa sem vacinação — condição atingida no início de 2025.
Em janeiro, Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), afirmou à EXAME que a meta do setor para 2025 era conquistar quatro mercados: Japão, Turquia, Vietnã e Coreia do Sul, que juntos representam cerca de 30% da demanda global por carne bovina.
Até o momento, apenas o Vietnã abriu oficialmente seu mercado à carne brasileira. Turquia e Coreia do Sul permanecem em fase de negociações técnicas. O Japão é o próximo na lista e deve anunciar a abertura em breve.
“Conquistar o mercado japonês é quase como obter a certificação mais complexa e difícil do mundo. É um mercado extremamente relevante, que oferece credibilidade global, já que os japoneses valorizam muito esse produto”, afirma Caio Penido, presidente do Instituto Mato-Grossense da Carne (Imac).
O Mato Grosso, inclusive, tem mais gado do que habitantes: são 32 milhões de cabeças, contra 3,8 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número coloca o estado como o maior rebanho de gado do país, enquanto o Brasil totaliza 238 milhões de cabeças.
Além de reforçar a imagem de rigor sanitário, o mercado japonês também é atraente pelo alto valor pago, diz Amarildo Merotti, diretor regional da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimati) e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado.
Para ele, por valorizar tanto a carne bovina, o Japão oferece um valor agregado significativo à proteína brasileira.
"O Japão oferece um valor agregado significativo no preço dos animais e da nossa carne. Eles valorizam muito o produto, pois é um país muito rico. Assim, ao acessar esse mercado, conseguimos obter uma remuneração diferenciada", afirma o executivo.
Segundo Luís Rua, a auditoria japonesa focará, inicialmente, nos três estados do Sul do Brasil, por critérios sanitários.
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná foram os primeiros a serem declarados livres da febre aftosa — uma doença viral altamente contagiosa entre bovinos — antes mesmo de o Brasil conquistar, em maio, o status nacional de país livre da doença sem vacinação, conferido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).
“A ideia é que os japoneses venham realizar uma auditoria final de sistema nos três estados do Sul. A expectativa inicial era que isso ocorresse entre o fim de novembro e dezembro, o que não se concretizou. O pleito foi reforçado, e agora acontecerá em março”, afirma Rua.
Atualmente, os principais fornecedores de carne bovina ao Japão são Estados Unidos e Austrália, que dominam o mercado de importação local. O país é o terceiro maior importador mundial de carne bovina.
O consumo per capita no Japão é de 6,9 kg por ano — cerca de cinco vezes menor que o dos Estados Unidos, onde a média chega a 35 kg anuais, segundo dados do Bank of America (BofA).