Repórter
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 16h30.
O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou nesta quarta-feira que a defesa da liberdade de expressão nas plataformas digitais é "pura besteira", em contraste com um dos pilares da política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A declaração coloca em lados opostos a França e os Estados Unidos no debate sobre regulação das redes sociais.
Em discurso realizado em Nova Déli, capital da Índia, Macron questionou o funcionamento dos sistemas automatizados das plataformas.
“A liberdade de expressão é uma pura besteira se ninguém sabe como você é levado a essa suposta liberdade de expressão, especialmente quando ela é conduzida de um discurso de ódio para outro”, disse Macron durante uma visita de três dias à capital indiana.
Governos europeus, como os do Reino Unido e da Alemanha, analisam restringir o acesso de menores de idade às redes sociais. Reguladores desses países argumentam que esses serviços apresentam riscos e potencial de dependência, segundo a agência Bloomberg. A eventual adoção de medidas pode atingir receitas publicitárias de plataformas como Instagram e Facebook, da Meta, Snap, X — controlada por Elon Musk — TikTok e YouTube, do Google.
Autoridades americanas reagiram às propostas europeias ao classificar as iniciativas como restrições à liberdade de expressão. Recentemente, os EUA impuseram proibições de visto a um ex-funcionário europeu e a ativistas por tentarem controlar discursos de ódio online. O secretário de Estado, Marco Rubio, justificou as medidas como resposta ao "complexo industrial global da censura".
"Não ter ideia de como seu algoritmo é feito, como é testado, treinado e para onde ele vai te direcionar — as consequências democráticas desse viés podem ser enormes", disse Macron na quarta-feira em Nova Déli.
O presidente francês voltou a criticar o discurso adotado por empresas de tecnologia e lideranças políticas nos Estados Unidos.
“Alguns deles alegam ser a favor da liberdade de expressão — OK, nós somos a favor de algoritmos livres — totalmente transparentes”, disse Macron.
No início do mês, Macron declarou esperar tensão entre a União Europeia e o governo Trump em torno da regulamentação de serviços digitais no bloco. Segundo ele, países como França e Espanha podem enfrentar retaliações dos EUA em razão de propostas que limitam o uso de redes sociais por crianças. O presidente francês afirmou que prevê um conflito entre o bloco europeu e Washington sobre as regras aplicadas às plataformas digitais.
Na estratégia de segurança nacional dos EUA, o governo Trump indicou que atuaria contra iniciativas de potências estrangeiras destinadas a “censurar nosso discurso” ou limitar a liberdade de expressão. O documento acrescenta que os Estados Unidos promoveriam “resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias”, formulação interpretada como sinalização de apoio a partidos de extrema-direita no continente.
O vice-presidente JD Vance, em discurso no ano passado durante a Conferência de Segurança de Munique, acusou a União Europeia de restringir a liberdade de expressão e declarou que o afastamento da Europa de seus valores fundamentais representava ameaça maior ao continente do que Rússia ou China. Ao se referir a Trump como "novo xerife" de Washington, Vance criticou as iniciativas de moderação de conteúdo nas redes sociais.
Integrantes da União Europeia demonstraram preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos utilizarem o argumento da liberdade de expressão para pressionar o bloco a flexibilizar regras aplicadas às empresas de tecnologia, informou a Bloomberg.
Executivos do setor de tecnologia nos EUA também têm recorrido ao princípio da liberdade de expressão para contestar propostas de maior supervisão. Após críticas do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, às redes sociais, Elon Musk publicou: "O sujo Sánchez é um tirano e traidor do povo espanhol".
Macron participa de uma cúpula sobre inteligência artificial, tecnologia que permite a sistemas computacionais executar tarefas associadas à cognição humana, em Nova Déli. A visita ocorre em meio ao esforço para reforçar a relação entre França e Índia, enquanto ambos os países revisam sua posição diante de uma postura mais hostil dos Estados Unidos sob o governo de Trump.
Durante o evento, o presidente francês apresentou uma proposta de desenvolvimento de IA multilíngue e submetida a regras públicas, em contraste com o modelo norte-americano, de orientação de mercado, e com a abordagem chinesa, baseada na condução estatal.