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Redação Exame
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 16h14.
A escassez de profissionais qualificados deixou de ser um problema pontual para se tornar rotina em empresas de todos os portes. Rotatividade alta, dificuldade de engajar no médio prazo e vagas que se repetem meses depois de preenchidas: o diagnóstico é conhecido no mercado de RH, mas a causa, segundo especialistas da área, costuma ser mal interpretada.
Para Viviane Alvarenga, Diretora de Gente & Gestão da Farmarcas e da Febrafar, o problema raramente está na falta de candidatos. Está na forma como o processo seletivo é estruturado antes mesmo de a vaga ser publicada.
"O maior desafio da contratação hoje não é técnico, é comportamental. É fazer a pessoa entrar e permanecer porque aquele ambiente faz sentido para ela", diz a executiva.
Segundo Viviane, a maioria das empresas erra ao tratar cultura organizacional como um filtro aplicado durante a entrevista, quando na verdade ela deveria vir de uma pergunta anterior: qual é a estratégia do negócio. "Quando falamos de fit cultural, a pergunta que precisa vir antes é: qual é a estratégia do negócio? A cultura nada mais é do que ter clareza dos perfis necessários para entregar essa estratégia", afirma.
Na prática, discutir cultura sem definição estratégica é inverter a ordem do problema. Se a liderança não sabe que resultado espera entregar em um, três ou cinco anos, o processo seletivo tende a reproduzir vieses pessoais em vez de necessidades reais do negócio. "Não existe funcionário ideal e universal. Existe o candidato com maior compatibilidade para aquele negócio, naquele momento e naquela cultura", diz Viviane.
A partir da experiência à frente da área de Gente & Gestão, Viviane elenca orientações práticas aplicáveis inclusive por empresas sem RH estruturado:
"Contratar sem refletir sobre o histórico da vaga aumenta muito a chance de erro", diz Viviane sobre o segundo passo da lista.
O passo cinco é tratado por Viviane como não negociável. Ela afirma que nunca conduz um processo seletivo isolada, justamente para reduzir a interferência de vieses pessoais na escolha. "Eu nunca faço um processo seletivo sozinha. Sempre chamo alguém para compartilhar o olhar comigo, porque todos nós somos influenciados por nossos próprios vieses", conta.
Indicações internas completam a lógica. Quando existe alinhamento cultural genuíno, colaboradores tendem a indicar pessoas que já chegam conectadas à cultura da empresa. "Gente vende para gente. Quando o time está engajado, ele indica pessoas que já chegam conectadas com a cultura", diz Viviane.
Para a executiva, um erro comum entre companhias é tratar a contratação como uma via de mão única, na qual apenas o candidato é avaliado. "Hoje, a empresa também está sendo avaliada pelo candidato", afirma.
Segundo ela, negócios que comunicam apenas ofertas e produtos, sem mostrar como tratam as próprias pessoas, perdem espaço para atrair talentos alinhados a seus valores. "É preciso mostrar quem a empresa é, no que acredita, e como cuida das pessoas. O colaborador é a cara do negócio", diz.
O argumento final de Viviane conecta o método a um cálculo de risco que vai além da planilha de custos. Uma contratação equivocada, segundo ela, gera impacto que ultrapassa o valor de uma rescisão: afeta o clima do time, a velocidade de entrega de resultados e, em cidades menores, a reputação da empresa no boca a boca. "Contratar bem é um ato estratégico", finaliza.
Errar na contratação custa mais do que parece no contracheque. E, pelo método que a Farmarcas aplica, o primeiro dos sete passos é aceitar que a decisão nunca deveria caber a uma pessoa só.