Carreira

A geração workaholic está chegando ao fim

Executivos e empresários começam a rever a cultura do excesso e a tratar saúde, sono e atividade física como parte da própria performance profissional

Gilberto Barros: "Durante muito tempo, tratamos a saúde como consequência do sucesso. Tenho a impressão de que essa lógica começou a se inverter"

Gilberto Barros: "Durante muito tempo, tratamos a saúde como consequência do sucesso. Tenho a impressão de que essa lógica começou a se inverter"

Gilberto Barros
Gilberto Barros

Fundador e CEO Aion Holding

Publicado em 7 de outubro de 2026 às 19h19.

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Há alguns dias, um paciente cancelou uma reunião porque tinha horário na academia. Pode parecer uma decisão sem importância. Mas, para quem trabalha há mais de duas décadas com empresários e executivos, ela diz muito sobre uma transformação que estamos vivendo.

Durante boa parte da minha carreira, a lógica era outra. O trabalho vinha primeiro. A saúde ocupava o espaço que sobrasse.

Dormir pouco era sinal de comprometimento. Almoçar correndo era produtividade. Tirar férias, para muita gente, parecia quase uma demonstração de falta de ambição.

Hoje vejo um comportamento diferente. Não estou falando de pessoas que decidiram trabalhar menos. Estou falando de pessoas que entenderam que, para continuar produzindo em alto nível, precisam cuidar melhor da própria saúde.

Quando a saúde deixou de ocupar o tempo que sobrava

Essa mudança não apareceu primeiro em um estudo que li. Apareceu no consultório.

Depois de mais de 25 anos atendendo pacientes, comecei a perceber um padrão. Executivos passaram a reservar horários para treinar no meio do dia. Empresários reorganizaram a agenda para dormir melhor. Pessoas que antes procuravam ajuda apenas quando sentiam dor passaram a perguntar como poderiam envelhecer com mais autonomia e qualidade de vida.

No início, achei que fossem casos isolados. Hoje acredito que estamos diante de uma mudança cultural.

Durante muito tempo, tratamos a saúde como consequência do sucesso. Primeiro era preciso conquistar resultados. Depois, se sobrasse tempo, cuidar do corpo. Tenho a impressão de que essa lógica começou a se inverter.

Saúde como ativo de performance

Cada vez mais encontro pessoas que enxergam a saúde como um ativo. Não apenas porque querem viver mais, mas porque entenderam que clareza para tomar decisões, disposição física, equilíbrio emocional e capacidade de concentração também fazem parte da performance.

Essa mudança ajuda a explicar por que tantos mercados estão crescendo ao mesmo tempo. Medicina preventiva, alimentação saudável, wearables, dispositivos tecnológicos vestíveis que monitoram indicadores do corpo, programas de bem-estar e longevidade não são movimentos isolados.

Todos fazem parte de uma transformação na maneira como uma parcela da sociedade passou a enxergar a própria saúde.

O consultório também mudou

Curiosamente, essa mudança também transformou a forma como enxergo meu trabalho.

Quando comecei minha carreira, acreditava que minha função era tratar dores. Com o tempo, percebi que, muitas vezes, a dor era apenas a consequência de um estilo de vida que deixou de funcionar.

Passei a olhar para fatores que antes quase não faziam parte da rotina clínica, como sono, saúde metabólica, alimentação e atividade física.

Uma revolução que acontece antes de ligar o computador

A inteligência artificial certamente vai transformar a forma como trabalhamos. Mas tenho a impressão de que existe uma revolução mais silenciosa acontecendo antes mesmo de ligarmos o computador.

Ela começa quando um executivo protege uma hora da agenda para cuidar da própria saúde sem sentir que está desperdiçando tempo.

Talvez, daqui a alguns anos, trabalhar até a exaustão seja visto da mesma forma que hoje olhamos para comportamentos que durante décadas foram aceitos como normais no ambiente profissional.

Não porque trabalho e ambição tenham perdido importância, mas porque começamos a perceber que uma carreira longa exige um corpo e uma mente capazes de sustentá-la.

O que isso significa para as empresas

Talvez as empresas que entenderem isso primeiro descubram que o maior diferencial do futuro não será simplesmente exigir mais das pessoas.

Será criar condições para que elas permaneçam saudáveis, produtivas e relevantes por muito mais tempo.

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