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Redação Exame
Publicado em 5 de julho de 2026 às 10h00.
O debate que por muitos anos colocou o mercado cripto e o sistema financeiro tradicional em lados opostos começa a perder relevância. De um lado, a promessa de descentralização, velocidade e inovação; do outro, a solidez institucional, a tradição regulatória e a escala. Hoje, especialmente na América Latina, o que se observa é um movimento claro, e cada vez mais inevitável, de convergência entre esses dois universos.
Na prática, a infraestrutura baseada em blockchain está deixando de ser uma camada paralela para se tornar um componente invisível dentro das engrenagens das grandes instituições financeiras.
Esse movimento ganha uma dimensão ainda mais relevante na América Latina. A região reúne características que aceleram naturalmente a adoção de soluções financeiras mais modernas: burocracia elevada, custos operacionais altos, inflação, volatilidade cambial e forte demanda por pagamentos internacionais mais eficientes. O Brasil é um exemplo emblemático ao ocupar a terceira posição no Índice Global de Complexidade de Negócios de 2026, evidenciando o desafio operacional enfrentado por empresas e instituições financeiras.
Alguns sinais claros dessa transformação aparecem no mais recente relatório Panorama das Stabecoins na América Latina, da Bitso: dentre os usuários de ativos digitais, as stablecoins já representam 40% de todas as compras na região, superando o bitcoin. A mesma tendência é observada no mercado corporativo: somente no primeiro semestre deste ano, o Volume Total de Pagamentos (TPV) de stablecoins para o segmento B2B cresceu 81% na empresa.
Mais do que uma mudança de preferência, o dado sinaliza uma mudança de comportamento. O mercado latino-americano passa a utilizar ativos digitais menos pela lógica especulativa e mais pela utilidade prática. Stablecoins oferecem previsibilidade, liquidez e eficiência para transações internacionais, funcionando como uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e a nova infraestrutura digital.
Essa transformação ajuda a explicar por que instituições financeiras ao redor do mundo passaram a olhar para blockchain de forma menos experimental e mais estratégica. O interesse crescente de bancos globais, fintechs e plataformas financeiras por soluções ligadas a ativos digitais não representa uma substituição do sistema tradicional, mas uma tentativa de torná-lo mais eficiente, integrado e programável.
Paralelamente, avanços regulatórios começam a abrir novas possibilidades para o sistema financeiro tradicional. No Brasil, por exemplo, a autorização para que diversas instituições operem com câmbio, a partir de novembro de 2025, amplia o leque de serviços que podem ser oferecidos aos clientes. Mas essa expansão também traz um desafio relevante: como acessar um mercado altamente técnico e em constante evolução sem precisar construir toda a operação do zero?
Diante desse cenário, cresce também a demanda por modelos de infraestrutura financeira que permitam às instituições incorporar novas capacidades sem precisar reconstruir toda a operação tecnológica. Soluções baseadas em APIs e infraestrutura blockchain encurtam esse caminho, permitindo a integração de serviços financeiros internacionais e operações com ativos digitais de forma mais rápida, eficiente e aderente às exigências regulatórias.
A convergência entre os dois mundos começa justamente aí. Enquanto empresas nativas na blockchain oferecem velocidade, programabilidade e eficiência operacional, instituições financeiras tradicionais seguem trazendo escala, sistemas legados e experiência regulatória.
O resultado desse movimento é a construção de um novo modelo financeiro, mais híbrido, no qual as fronteiras entre ativos digitais e tradicionais se tornam cada vez menos relevantes. Para o usuário final, essa transformação tende a ser quase imperceptível. O que muda, de fato, é a experiência, oferecendo transações internacionais mais rápidas, custos reduzidos, maior previsibilidade e acesso ampliado a serviços financeiros.
A América Latina, historicamente marcada pela necessidade de soluções financeiras mais ágeis e acessíveis, acaba se consolidando como um dos principais laboratórios dessa transformação global. E, ao que tudo indica, a próxima etapa da evolução financeira não será definida pela substituição dos bancos, mas pela integração entre instituições tradicionais e novas infraestruturas digitais.
*Nicolás Alonso é country manager da Bitso Brasil.
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