Funcionamento do bitcoin confunde população em El Salvador

Governo implementou o bitcoin como moeda de curso legal no país, mas não proporcionou informações em relação ao funcionamento da criptomoeda

A “Lei do bitcoin” passou a valer em El Salvador na última terça-feira, 7, e até o momento, muitos habitantes do país ainda não sabem como a criptomoeda funciona ou como poderão utilizá-la.

A lei estipula que o bitcoin deve ser aceito como uma forma de pagamento em qualquer lugar de El Salvador. A legislação do país aprovou a lei pouco tempo depois do presidente Nayib Bukele apresentar seu projeto há três meses. Ainda não temos informações claras e consistentes em relação aos esforços do governo para preparar a população para a implementação da lei no país.

Jessica Dominguez, dona de um quiosque de flores em San Salvador, disse que ainda não teve tempo de aprender sobre o assunto.

“No entanto, assim que for oportuno, pretendo utilizar bitcoin”, disse Dominguez, adicionando que seus clientes já lhe ofereceram pagamentos em bitcoin.

Francisco, que pediu para que seu nome completo não fosse citado, tem uma lavanderia em Sensuntepeque, uma cidade a 83km de San Salvador, e disse que seu negócio ainda não se preparou para receber pagamentos em bitcoin.

“Caso precise cobrar em bitcoin, faremos isso com a carteira de uma pessoa que trabalha aqui”, disse Francisco, afirmando que em sua interpretação da lei, os negócios precisam ter o aplicativo, apesar do presidente Bukele ter declarado em meados de agosto que isso não era necessário.

“Uma coisa é o que o presidente diz, outra é o que a lei estabelece”, disse Francisco.

Uma unidade em San Salvador da Disensa, rede de lojas de hardware, contou que atualmente a falta de conhecimento sobre como utilizar o bitcoin é total.

“Ninguém sabe como funciona. Nem os bancos, nem os fornecedores sabem nada sobre isso”, afirmou um funcionário.

No setor do varejo, o processo de adoção aparenta ser diferente. Uma unidade da Almacenes Siman, uma grande rede de lojas de departamento, declarou que o bitcoin será implementado como um método de pagamento, mas ainda não existem datas definidas para isso. Uma das unidades da Súper Selectos, rede de supermercados, declarou que irá utilizar e aceitar bitcoin.

Então temos a área costeira de El Salvador conhecida como “praia do bitcoin”, onde a vontade de utilizar a criptomoeda é maior entre os comércios e residentes locais.

Um exemplo dessa tendência é o resort Olas Permanentes, que fica em El Zonte e possui um hotel e um restaurante sob a gestão de Carlos Ortiz Novoa.

“Já utilizamos bitcoin há mais de um ano e conseguimos uma renda adicional muito boa com isso”, disse Ortiz Novoa.

Incerteza generalizada

A proposta do presidente Bukele gerou muita incerteza no país, de acordo com Francisco.

“Eu acho que estabelecer o bitcoin como moeda corrente não foi uma boa ideia. Existem muitas variáveis que precisamos controlar, e isso nunca acaba bem. Deveriam ter pensado melhor na ideia”, adicionou Francisco.

Contudo, algumas pessoas já exnergam os benefícios do bitcoin no âmbito da realização de transferências para o país, uma das razões pelas quais o governo de El Salvador buscou torná-lo uma moeda corrente, assim como o dólar americano.

Jose Santaneco, um salvadorenho que mora em Los Angeles e trabalha com a prevenção de crimes praticados por menores de idade, começou a utilizar na última terça-feira, 7, a Chivo, carteira digital do governo de El Salvador.

“Eu vejo vantagem em enviar dinheiro para minha família apenas utilizando o celular. Eu tenho dois familiares para quem envio dinheiro, e antes disso eu tinha que pagar duas taxas diferentes”, disse Santaneco.

Santaneco costumava enviar dinheiro através das plataformas MoneyGram e WesternUnion, que cobram taxas de até 18 dólares por transação. Depois disso, ele tentou a Ria Money Transfer, que cobrava 7 dólares, e finalmente a Xoom e a Boss, que cobravam 4,99 dólares por transação.

“Mas eu tinha muitos problemas, e uma vez a minha conta foi suspensa”, disse ele.

A avó de Santaneco tem 69 anos e há alguns meses está aprendendo a utilizar um smartphone para se comunicar com o neto através das redes sociais, e assim evitar gastos com chamadas telefônicas.

“Nós sabemos que esses serviços de remessas eletrônicas como a Chivo também podem nos ajudar a economizar dinheiro”, disse ele.

Apesar de saber que as transações em bitcoin serão mais baratas, Santaneco ainda não entende muito bem como a transferência acaba sendo gratuita. Ele disse que irá enviar dólares através da nova carteira digital.

“Eu sei que existe um custo para trocar bitcoin por dólar, mas não sei o governo assumirá esse custo ou trabalhará de uma forma que essa troca seja gratuita para nós”, disse ele.

De acordo com a mídia local, na última semana, o governo de El Salvador concordou em criar um fundo de 150 milhões de dólares para facilitar as trocas entre bitcoin e dólares no país.

“Eu acho que não temos informação o suficiente de fontes oficias sobre como o bitcoin funcionará em El Salvador”, disse Santaneco, que tem dinheiro investido em bitcoin e já obteve bons lucros.

Questões ainda mais profundas

De acordo com Ortiz Novoa, para a adoção do bitcoin crescer no país, é essencial que a população utilize o incentivo de 30 dólares em bitcoin que o governo está fornecendo para cada cidadão salvadorenho. Além disso, uma conversão fácil e simples da criptomoeda para dólares também será muito importante.

Jorge Colorado, um antropólogo salvadorenho que mora em Nova Iorque, também alertou sobre a falta de informação fornecida aos locais sobre a implementação da “lei do bitcoin”.

“Essa história de bitcoin foi apresentada pelo presidente Bukele em uma reunião com bitcoiners em Miami há alguns meses. Foi uma apresentação em inglês. No dia seguinte, toda a informação estava em inglês e só foi transmitida para a população de El Salvador muitos dias depois, com pouquíssimas informações, de forma praticamente superficial”, disse Colorado.

Jorge Colorado envia apoio financeiro para amigos em El Salvador utilizando os serviços da RIA e Western Union, e não pretende utilizar o bitcoin para as transferências, apesar de ter investimentos em bitcoin, ether, litecoin e cardano.

Colorado disse que também está preocupado com a forma que a Chivo foi construída.

“Os contratos da carteira Chivo são secretos, não houve licitação, dinheiro público foi utilizado como se fosse dinheiro privado. Eu não posso apoiar isso”, disse ele.

Colorado acredita que para evitar a volatilidade do bitcoin, o governo de El Salvador terá que utilizar uma stablecoin própria em algum momento, que será pareada com o dólar americano.

“O governo não está sendo claro quanto a isso, mas é o que vai acontecer”, disse ele.

Em julho, a mídia local noticiou que o governo de El Salvador planejava lançar sua própria criptomoeda, que poderia ser utilizada por consumidores para pagar por serviços.

Em agosto, a gestão de Bukele anunciou um acordo com a Koibanx, uma companhia latino-americana de tokenização de ativos e infraestrutura financeira em blockchain, que irá desenvolver a infraestrutura do blockchain de El Salvador baseado no protocolo da Algorand.

Leo Elduayen, CEO da Koibanx, notou que o blockchain da Algorand poderia oferecer suporte para uma stablecoin nacional do país, mas declarou que ainda não existem planos para isso.

Jorge Colorado também não confia na rápida aprovação da lei,  que obteve 62 votos favoráveis em um total de 84 votantes.

“Os deputados aprovaram a lei muito rápido. Eu tenho certeza de que nenhum deles a entendeu”, ele adicionou.

Colorado também se preocupa com a possibilidade de El Salvador se tornar um centro de lavagem de dinheiro.

“Terroristas ou hackers internacionais que recebem pagamentos em bitcoin podem ir ao país para conseguir lavar os seus dólares”, justificou.

“Tenho medo que a economia salvadorenha colapse. A implementação do bitcoin é uma aposta muito arriscada. O problema é que um erro pode se tornar uma grande tragédia que irá custar caro e afetar as vidas de muitas pessoas, afirmou Colorado.

Sobre o risco de utilizar bitcoin, Jessica Dominguez, da loja de flores, disse “nessa vida tudo é um risco, e aquele que não arrisca também não ganha”.

De acordo com Colorado, jornalistas que realizaram a cobertura da implementação do bitcoin sofreram assédio, ataques e insultos proferidos pelo governo. “A reação visceral contra a mídia se dá por conta do governo ter grandes lacunas e esconder um monte de coisas”, ele disse. Colorado citou o caso de Mario Gomez, um especialista em computação e crítico ativo da implementação do bitcoin, que foi preso por uma possível fraude bancária e solto na última quarta-feira, 1.

“O ameaçaram de ser acusado por um crime que ele não cometeu, e agora o gabinete do procurador ‘recomendou’ que ele não fale em público, não se comunique através de redes sociais, e nem dê entrevistas para a mídia”.

Colorado diz que não tem medo de fornecer seu nome e sobrenome.

“Eu vivo fora do país, e aqui pelo menos eles não virão me procurar à noite”.

Texto traduzido e republicado com autorização da Coindesk

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