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Hoje o Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de diversos produtos do agronegócio. (Syngenta/Divulgação)
Redação Exame
Publicado em 9 de abril de 2026 às 18h00.
*Por David Canassa
Um recente estudo de pesquisadores do MIT revelou que a Embrapa, criada em 1973, elevou a produtividade agrícola brasileira em 110%, gerando um retorno de R$ 17 para cada R$ 1 investido, graças à pesquisa adaptada às condições ecológicas locais do país.
O Brasil deixou de ser um importador de alimentos, e a partir do final dos anos 1980, atingiu superávit e hoje é um dos maiores exportadores mundiais de diversos produtos do agronegócio.
Era senso comum antes da criação da Embrapa que o Cerrado brasileiro era improdutivo, assim como diversas outras localidades do país. Foi a pesquisa de laboratório e de campo, realizada com consistência ao longo de décadas, que possibilitou reverter esse cenário e criar inovações que geraram outras economias ao país, tal como a fixação biológica do nitrogênio.
Estima-se que somente na safra 2022/23, US$ 15 bilhões foram economizados em fertilizantes, pois as bactérias, que fazem parte da biodiversidade, fizeram esse papel.
Se essa revolução que impactou o mundo positivamente foi feita para culturas básicas como soja, milho e arroz, o que poderia ser feito direcionando esses esforços para o potencial da biodiversidade brasileira?
Há um primeiro nível de uso da biodiversidade, que vem da coleta de seus produtos. Temos muitos produtos nesse contexto, por exemplo, seivas e sementes. Dentre eles, podemos destacar como exemplo a castanha do Brasil (ou do Pará), um produto internacionalmente aceito, com mercado consolidado e cujo maior exportador é a Bolívia.
O país fatura algo em torno de US$ 150 milhões/ano, enquanto o Brasil chega em torno de US$ 40 milhões/ano, mesmo tendo seis vezes mais floresta amazônica.
Porém, esse é um exemplo que demonstra a falta de visão de governo e empreendedores para criar cadeias produtivas que funcionem de maneira eficaz. Nesse exemplo, não é tão necessário um desenvolvimento relacionado à pesquisa, pois a riqueza está disponível na floresta.
É uma questão de estruturar o funcionamento do negócio e gerar as oportunidades para uma região carente de negócios e desenvolvimento inclusivo. A castanha é somente um dos produtos conhecidos para uso direto. Quantos mais existem nos diferentes biomas brasileiros, que ainda não são de conhecimento amplo?
O segundo nível já implica em processar esses insumos da biodiversidade, aproveitando características para aumentar seu valor na cadeia de negócios. Apesar de desafios como regulamentação, exemplos como a extração de seivas, que são utilizadas para diversas finalidades, da indústria química, cosmética, farmacêutica e fitoterápicos, mostram o caminho.
Um dos exemplos é a copaíba, de onde o quilo in natura vale em torno de R$ 15, e seu extrato purificado pode ser utilizado como anti-inflamatório veterinário a valores que superam os R$ 5 mil/kg
Estima-se que na Amazônia existam em torno de 100 espécies conhecidas que produzem látex, resinas e gomas. Na Mata Atlântica, o número de espécies conhecidas gira em torno de 30.
Quando se verifica que existem entre Amazônia e Mata Atlântica, que são os biomas mais biodiversos que temos, que o total de árvores de diferentes espécies chega a mais de 7 mil, começa-se a notar o imenso potencial de pesquisa relacionada somente a produtos não madeireiros que não foi realizada, e quantos dos problemas mundiais poderiam ser resolvidos com esses insumos.
Para visualizar os níveis de valor agregado:
No nível 1, temos a castanha, que apresenta baixo valor agregado por ser comercializada in natura. No nível 2, aparece a copaíba, cujo valor agregado é alto, podendo chegar a cerca de R$ 5 mil por quilo quando purificada. Já no nível 3, encontram-se os genes do arroz, que representam um valor agregado revolucionário, com potencial de aumentar a produtividade em mais de 15%.
Além disso, deve-se observar que não é necessário pensar somente no extrativismo nas florestas. Há diversas experiências bem-sucedidas que mostram que a integração lavoura-pecuária e floresta, assim como outros sistemas agroflorestais, pode incorporar árvores com viés produtivo. São mais comuns as implementações para o potencial madeireiro e com árvores exóticas.
Um foco em pesquisa e desenvolvimento, integrado com cadeias de negócios, possibilitaria uma diversificação nessa situação, trazendo novas e rentáveis oportunidades para produtores. Além disso, outra frente quase não explorada é o potencial de enriquecer a reserva legal obrigatória das propriedades rurais com espécies de alto valor agregado.
Uma iniciativa como essa faria com que essa parte das propriedades rurais, que hoje é vista como um custo e um risco (principalmente relacionado a incêndios e invasão), se transformasse em atividade produtiva e assim contribuísse para o aumento do valor agregado do agronegócio. Algumas propriedades já estão usando essa possibilidade para produção de cacau.
A terceira possibilidade, que faz parte da discussão da Convenção da Diversidade Biológica da ONU e que está contemplada na legislação brasileira, trata do potencial da informação genética.
Determinadas características de alguns seres da biodiversidade podem resolver problemas diversos. Esse é um tema que gera debates acalorados, mas de fato já está acontecendo. A Embrapa foi protagonista em uma iniciativa de melhoramento do arroz cultivado, usando genes de outra espécie de arroz silvestre que ocorre no Pantanal e Amazônia.
A empresa desenvolveu linhagens híbridas que aumentaram em mais de 15% a produtividade, reduziram a incidência de doenças e a necessidade de agroquímicos.
Fazendo um comparativo com o projeto Genoma Humano, estima-se que esse mapeamento gerou para cada dólar investido entre US$ 65-178 em atividades econômicas, além de fomentar diversas cadeias de negócios que antes não existiam.
O quanto o mapeamento genético de nossas espécies pode trazer de retorno? E aqui não se trata somente de árvores, mas de fungos, todos os seres no solo e todas as espécies vegetais e animais.
Há exemplos louváveis acontecendo no Brasil nesse sentido, de buscar a valorização e geração de negócios com a biodiversidade. Em Belém, durante a COP Clima no ano passado, foi inaugurado o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, que é um laboratório junto com equipamentos para prototipagem e produção em pequena escala de produtos da biodiversidade.
Também é digno de nota o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que desde 1952 faz pesquisas com foco na conservação das espécies.
Claro, há desafios a superar, como combater a biopirataria, agilizar patentes e evitar o desmatamento. Mas esses obstáculos reforçam a necessidade de investimentos públicos coordenados, que protejam nossa riqueza enquanto geram prosperidade.
E essa é a questão: uma das formas de manter as florestas brasileiras, que prestam serviços para o agronegócio e para as populações das cidades (como a produção de chuvas), implica gerar valor por meio da biodiversidade, e para tal é preciso foco em pesquisa e desenvolvimento de cadeias produtivas.
E se criássemos uma "Embrapa da Biodiversidade" agora? Pois conservar não significa "não mexer". Como diz nossa legislação, conservar implica fazer o manejo sustentável da natureza, mantendo seus benefícios atuais e futuros.
*David Canassa é especialista em sustentabilidade estratégica, com foco em energia, mercados de carbono e capital natural. Fundador da David Canassa Strategy & Advisory, consultoria para líderes que transformam complexidade climática em valor competitivo.