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O calor não é igual para todos: a desigualdade térmica nas cidades brasileiras

Estudos mostram que moradores de territórios urbanos vulneráveis enfrentam condições térmicas muito mais severas do que aqueles que vivem em áreas de maior renda

Dados recentes mostram que Paraisópolis enfrenta temperaturas superficiais até 15°C mais altas que o Morumbi durante o verão. (Roberto Rocco r.c.rocco@tudelft.nl/Getty Images)

Dados recentes mostram que Paraisópolis enfrenta temperaturas superficiais até 15°C mais altas que o Morumbi durante o verão. (Roberto Rocco r.c.rocco@tudelft.nl/Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 08h00.

*Por Thais Scharfenberg e Victor Del Vecchio

O verão de 2026 chegou com força total. Ondas de calor cada vez mais intensas, termômetros batendo recordes e uma sensação coletiva de exaustão térmica tomam conta das cidades brasileiras - o Rio atingiu 40,8 ºC, São Paulo, 34,6 ºC -  especialmente durante o carnaval, quando o espaço público vira palco de celebração, mas também de exposição ao calor extremo.

Ainda assim, por trás dessa experiência aparentemente comum, existe uma realidade pouco debatida: o calor não afeta todos da mesma forma.

Enquanto alguns bairros contam com ruas arborizadas, edificações bem ventiladas, espaçadas umas das outras e ambientes climatizados, outros convivem diariamente com temperaturas que tornam a rotina quase insuportável. O que para uns é desconforto passageiro, para outros é um fator permanente de adoecimento, aumento do custo e perda de qualidade de vida.

Estudos conduzidos pela Universidade de Utrecht, em parceria com organizações brasileiras, mostram que moradores de territórios urbanos vulneráveis enfrentam condições térmicas muito mais severas do que aqueles que vivem em áreas de maior renda.

A análise de imagens termais de satélite indica que, em comunidades com construções adensadas, pouca ventilação e escassez de áreas verdes, a temperatura de superfície pode ser até 15 °C maior do que em bairros vizinhos. Nessas áreas, a sensação térmica frequentemente ultrapassa limites considerados seguros para a saúde humana.

Calor extremo, saúde e custo de vida: quando o verão vira risco

Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, imagens de satélite e medições de temperatura de superfície revelam diferenças térmicas expressivas entre bairros vizinhos.

Em alguns casos, variações superiores a 10 °C ou até 15 °C. Essas ilhas de calor não são fruto do acaso: refletem escolhas históricas de ocupação do solo, padrões construtivos inadequados e desigualdade no acesso à infraestrutura urbana.

Em áreas mais vulneráveis, o calor deixa de ser apenas incômodo. Ele compromete o sono, dificulta o trabalho e o estudo, agrava problemas respiratórios e cardiovasculares e eleva o risco de desidratação e insolação, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.

A OMS (Organização Mundial da Saúde), alerta que temperaturas acima de 40 °C já representam um patamar crítico de risco à vida.

Além dos impactos sobre a saúde, o calor extremo pesa no orçamento doméstico. O uso contínuo de ventiladores, geladeiras operando no limite e, quando possível, aparelhos de climatização, faz disparar o consumo de energia elétrica justamente em lares que já convivem com restrições financeiras.

A desigualdade térmica, portanto, não é apenas ambiental, é também social e econômica.

Edificações, eficiência energética e adaptação das cidades

Diante desse cenário, discutir o papel das edificações torna-se inevitável. A energia dentro das edificações, inclusive em lares e locais de trabalho, responde por uma parcela expressiva do consumo de energia no Brasil e no mundo, especialmente devido à demanda por iluminação, refrigeração e climatização.

Quando essa energia ainda é majoritariamente gerada a partir de fontes fósseis, o impacto climático se intensifica e retroalimenta as próprias ondas de calor que afetam as cidades.

Nesse contexto, a eficiência energética em edificações assume um papel central na agenda de adaptação climática.

Edifícios com melhor desempenho térmico, soluções passivas de ventilação, sombreamento e materiais adequados ao clima reduzem a dependência de climatização artificial, diminuem o consumo de energia e oferecem mais conforto e proteção à saúde da população, especialmente em períodos de calor extremo.

O Brasil avançou de forma consistente na construção de uma base técnica para avaliar o desempenho energético das edificações, com programas de eficiência e sistemas de etiquetagem adaptados à realidade climática do país (similar às etiquetas de eletrodomésticos).

A definição de índices mínimos de desempenho para novas construções, que entrarão em vigor nos próximos anos, representa um passo decisivo para transformar esse conhecimento em política pública efetiva. 

Mais do que uma exigência normativa, a eficiência energética deve ser entendida como um direito urbano e uma estratégia essencial para adaptar as cidades ao clima que já chegou.

*Thais Scharfenberg é internacionalista e especialista em adaptação climática, consultora de ESG e ODS e Victor Del Vecchio é advogado e mestre pela USP, consultor em ESG e Sustentabilidade

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