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Pesquisa da UFPA mostra como indicadores de pobreza distorcem realidade da Amazônia

Pesquisadores desenvolveram um índice que considera as condições de vida de comunidades do campo e pode orientar estratégias de desenvolvimento e conservação da floresta

Índice de Pobreza Multidimensional Trajetórias: ferramenta considera diferenças entre as condições de vida das populações rurais e urbanas da Amazônia Legal (Leandro Fonseca/Exame)

Índice de Pobreza Multidimensional Trajetórias: ferramenta considera diferenças entre as condições de vida das populações rurais e urbanas da Amazônia Legal (Leandro Fonseca/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 2 de novembro de 2026 às 07h52.

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RESUMO +

Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) apontaram, em estudo publicado em outubro de 2026, que métricas convencionais podem superestimar a pobreza rural na Amazônia: com dados de 2000, o índice foi cerca de 17% maior que o resultado da metodologia adaptada. O IPM-Trajetórias considera diferenças entre os modos de vida rurais e urbanos para orientar políticas públicas de desenvolvimento e conservação.

A pobreza rural na Amazônia pode estar sendo superestimada pelo uso de indicadores que não consideram as particularidades das comunidades que vivem na região. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) identificou que a aplicação de métricas convencionais, baseadas em condições de vida associadas aos centros urbanos, produziu um índice de pobreza cerca de 17% maior do que o obtido com uma metodologia adaptada à realidade amazônica.

A diferença foi identificada a partir de dados do Censo de 2000 e faz parte de uma pesquisa publicada na revista científica Nova Economia, em outubro de 2026.

Para investigar o problema, os pesquisadores desenvolveram o Índice de Pobreza Multidimensional Trajetórias (IPM-Trajetórias), ferramenta que considera diferenças entre as condições de vida das populações rurais e urbanas da Amazônia Legal.

O indicador utiliza informações sobre saúde, educação e condições de vida dos domicílios, mas estabelece critérios específicos para avaliar as privações enfrentadas pelas famílias que vivem no campo e nas cidades.

A proposta é evitar que características próprias do modo de vida rural sejam automaticamente classificadas como sinais de pobreza, além de oferecer informações para a elaboração de políticas públicas de desenvolvimento e conservação ambiental.

Como funciona o novo índice de pobreza na Amazônia

O IPM-Trajetórias foi desenvolvido com base na metodologia Alkire-Foster, utilizada internacionalmente para calcular a pobreza multidimensional, conceito que considera diferentes formas de privação, além da insuficiência de renda.

A metodologia avalia simultaneamente fatores como acesso à educação, saúde e condições de moradia para identificar as famílias que enfrentam múltiplas dificuldades.

Na adaptação para a Amazônia Legal, os pesquisadores utilizaram microdados dos censos de 2000 e 2010 e estabeleceram indicadores específicos para os contextos rural e urbano.

Entre os critérios considerados está a posse da terra, incorporada à avaliação das condições de vida no campo. Outros fatores, como a presença de rádio e bens de comunicação, além da disponibilidade de automóvel ou motocicleta, recebem pesos diferentes de acordo com o território.

A pesquisa parte do entendimento de que o acesso a determinados bens e serviços não possui necessariamente o mesmo significado para famílias que vivem em centros urbanos e comunidades rurais amazônicas.

“A maior parte das pesquisas pensa em uma dinâmica ocidentalizada sobre o que é desenvolvimento e bem-estar, mas o que isso significa para um ribeirinho? Faz sentido uma geladeira para uma comunidade tradicional que se adaptou a não usar energia elétrica?”, questiona Ricardo Bruno Nascimento dos Santos, um dos autores do estudo.

O trabalho reúne pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, incluindo economia, epidemiologia, ecologia, biologia, geografia e ciências sociais.

Além da UFPA, participaram instituições como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Ministério da Saúde, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as universidades federais de Santa Maria (UFSM), São Carlos (UFSCar) e Minas Gerais (UFMG), além do Barcelona Supercomputing Center.

Pobreza rural era quatro vezes maior que a urbana em 2010

Com a aplicação do IPM-Trajetórias, os pesquisadores identificaram que, em 2010, a pobreza multidimensional atingia 27% da população rural da Amazônia Legal.

Nas áreas urbanas da região, o percentual era de 7%, o que representa uma incidência aproximadamente quatro vezes menor.

Os cálculos também apontaram redução nos indicadores de pobreza entre 2000 e 2010. No período, o índice multidimensional apresentou queda de aproximadamente 79% nas áreas rurais e de 94% nas urbanas.

Os autores explicam, no entanto, que os resultados dos dois censos não são diretamente comparáveis, devido às mudanças nas variáveis utilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre os levantamentos.

A pesquisa também reconhece limitações na utilização dos dados censitários para representar as condições de vida de comunidades amazônicas. Por isso, o novo índice é apresentado como um esforço inicial para incorporar as particularidades regionais às medições de pobreza.

O que a medição da pobreza tem a ver com a conservação da floresta?

A forma como a pobreza é medida influencia a identificação das necessidades da população e a definição de prioridades para políticas públicas.

No caso da Amazônia, os pesquisadores apontam que indicadores econômicos tradicionais, como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), não conseguem representar integralmente as características das economias associadas à biodiversidade e às atividades desenvolvidas pelas comunidades rurais.

Segundo o estudo, a utilização dessas métricas contribuiu para a construção de uma narrativa que associa a permanência da floresta à pobreza e ao atraso econômico da região.

Santos afirma que essa interpretação pode influenciar decisões de investimento e estimular atividades que dependem da conversão de áreas florestais em outros usos, como a pecuária extensiva.

“A adoção do IPM-Trajetórias permite que o poder público reconheça as especificidades do território e direcione incentivos econômicos e políticas para trajetórias tecno-produtivas sustentáveis. Em vez de incentivar a pecuária extensiva, pois não entendem o quanto a floresta vale em pé, o financiamento público passa a fortalecer quem produz e mantém o bioma intacto”, explica o pesquisador.

O conceito de trajetórias tecnoprodutivas se refere às diferentes formas de organização da produção, considerando as tecnologias utilizadas, as atividades econômicas e as características dos territórios.

Na Amazônia, essas trajetórias incluem atividades vinculadas ao uso dos recursos naturais e à manutenção da cobertura florestal, como o manejo comunitário e os sistemas agroflorestais, modelos de produção que combinam o cultivo agrícola com árvores e outras espécies vegetais.

Políticas públicas devem considerar economias locais, diz pesquisa

Além de propor uma nova forma de mensurar a pobreza, o estudo discute alternativas para o desenvolvimento econômico da Amazônia Legal, território que corresponde a aproximadamente 61% da área brasileira.

Para os autores, o enfrentamento da pobreza na região exige a combinação de políticas sociais com estratégias de desenvolvimento de longo prazo.

Entre as medidas defendidas estão investimentos produtivos, diversificação das economias locais e integração entre políticas industriais, agrícolas, ambientais, regionais e de infraestrutura.

A pesquisa também propõe o desenvolvimento de tecnologias sociais adaptadas às condições do interior amazônico, com participação dos moradores no planejamento e na manutenção das soluções.

Segundo Santos, o fortalecimento de atividades econômicas baseadas no manejo comunitário e em sistemas agroflorestais pode contribuir para a geração de renda e a conservação ambiental.

A proposta do IPM-Trajetórias é fornecer uma base de informações que permita identificar as necessidades das famílias sem desconsiderar os modos de produção e de vida das comunidades amazônicas.

O estudo, intitulado Indicadores de pobreza e alternativas de desenvolvimento para a Amazônia: o uso de índice multidimensional para a região da Amazônia Legal brasileira, foi publicado na edição de 2026 da revista Nova Economia.

'Perguntas frequentes'

A pobreza rural na Amazônia está superestimada? +

Um estudo liderado por pesquisadores da UFPA indica que métricas convencionais podem superestimar a pobreza rural na Amazônia. Com dados do Censo de 2000, essas métricas produziram um índice cerca de 17% maior que o resultado da metodologia adaptada à região.

O que é o IPM-Trajetórias? +

O IPM-Trajetórias é um índice de pobreza multidimensional que avalia saúde, educação e condições de vida com critérios específicos para os contextos rural e urbano da Amazônia Legal. A ferramenta foi desenvolvida a partir da metodologia internacional Alkire-Foster.

Quais particularidades da Amazônia são consideradas pelo novo índice? +

O índice considera fatores como posse da terra, acesso a bens de comunicação e disponibilidade de automóvel ou motocicleta, com pesos diferentes conforme o território. Segundo os pesquisadores, o acesso a determinados bens e serviços não possui o mesmo significado para famílias urbanas e comunidades rurais amazônicas.

Qual era a taxa de pobreza rural na Amazônia Legal em 2010? +

Segundo os cálculos do IPM-Trajetórias, a pobreza multidimensional atingia 27% da população rural da Amazônia Legal em 2010. Nas áreas urbanas, o percentual era de 7%, uma incidência aproximadamente quatro vezes menor.

A pobreza na Amazônia caiu entre 2000 e 2010? +

Os cálculos do estudo apontaram queda aproximada de 79% nas áreas rurais e de 94% nas urbanas entre 2000 e 2010. Os autores alertam, porém, que os resultados não são diretamente comparáveis devido a mudanças nas variáveis utilizadas pelo IBGE nos dois censos.

Como a medição da pobreza pode afetar a conservação da Amazônia? +

Segundo o estudo, métricas tradicionais ajudaram a associar a preservação da floresta à pobreza e ao atraso econômico, interpretação que pode favorecer investimentos em atividades como a pecuária extensiva. Para Ricardo Bruno Nascimento dos Santos, o IPM-Trajetórias pode orientar incentivos para atividades sustentáveis, como o manejo comunitário e os sistemas agroflorestais.

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