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Mondelēz: gerente de ESG detalha projetos que combinam ferrovia, cabotagem, tecnologia de refrigeração e biometano na cadeia de abastecimento (Mondelez Brasil/Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 14h28.
Para chegar à fábrica da Mondelēz em Pernambuco, um carregamento de açúcar pode fazer uma viagem que parece mais com um quebra-cabeça logístico do que com uma rota convencional: começa de trem, embarca em um navio no Porto de Santos, cruza a costa brasileira até Suape e, só então, volta para a estrada em direção à fábrica de Vitória de Santo Antão.
A mudança tem uma razão que vai além da logística. Ao combinar ferrovia, cabotagem e rodovia, a fabricante de Oreo, Trakinas, Club Social e Chocolícia tenta reduzir custos e, ao mesmo tempo, a quantidade de carbono emitida no caminho. Nas rotas em que adotou o modelo, a empresa diz ter conseguido cortar em até 20% os custos logísticos e em cerca de 70% as emissões de CO₂e em comparação com uma operação feita apenas por caminhões.
“O objetivo, desde o início, não era simplesmente substituir o transporte rodoviário, mas avaliar como diferentes modais poderiam ser combinados de forma mais inteligente, eficiente e adequada às características de cada rota e tipo de carga”, diz Lais Drezza, gerente de ESG da Mondelēz Brasil.
A estratégia começou em 2023, primeiro com um projeto-piloto que combinava ferrovia e transporte marítimo. Em 2026, o número de embarques anuais por cabotagem, transporte marítimo entre portos do mesmo país, passou de cerca de 900 para mais de 2.600.
O navio, porém, é apenas uma parte da mudança. Desde abril, a mesma fábrica pernambucana também começou a receber biometano para substituir uma parcela do gás natural usado na produção. A companhia, que tem metas globais de redução de emissões, está tentando mexer em duas partes menos visíveis da fabricação de um pacote de biscoitos: o que acontece antes de ele chegar à loja e a energia usada para produzi-lo.
“A multimodalidade também contribui para aumentar a previsibilidade das entregas, reduzir avarias e tornar a operação mais resiliente, ao diminuir a dependência de um único modal”, diz Drezza.
Apesar da expansão de alternativas, a executiva afirma que os caminhões continuam sendo parte essencial da operação brasileira, que conecta fábricas, centros de distribuição, clientes e cerca de um milhão de pontos de venda.
“O que buscamos é construir uma cadeia logística integrada, na qual rodovia, ferrovia e cabotagem sejam utilizadas de forma complementar, de acordo com as características de cada operação”, afirma.
Além das mudanças na logística, a Mondelēz começou a incorporar biometano à matriz energética da fábrica de Vitória de Santo Antão. A unidade é a primeira da companhia na América Latina a utilizar o combustível renovável.
O biometano é produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos em aterros sanitários e passa a substituir parte do gás natural fóssil utilizado na operação industrial.
A implementação foi planejada de forma gradual. De acordo com Drezza, a companhia realizou análises de mercado, estudos de viabilidade e avaliações técnicas antes da adoção. “A implementação gradual também nos permitiu acompanhar o desempenho da solução e ampliar sua participação de forma consistente”, afirma.
O fornecimento começou com capacidade aproximada de 50 mil metros cúbicos por mês. A expectativa da empresa é chegar a uma média próxima de 100 mil metros cúbicos mensais em 2027. Com o volume contratado, cerca de 10% do gás utilizado pela planta deverá ser biometano.
Segundo a companhia, a iniciativa deve reduzir aproximadamente 3,6% das emissões da fábrica em 2026. Para 2027, a estimativa é de uma redução de 12,5% nas emissões da unidade e de cerca de 5% considerando a operação da unidade de negócios Brasil.
Ao longo de todo o contrato, a previsão é evitar aproximadamente 6 mil toneladas de CO₂e.“Mais do que o volume inicial de biometano, consideramos o projeto relevante pelo que ele representa para a transformação da matriz energética da unidade”, afirma Drezza.
A expansão do uso do combustível, segundo a executiva, dependerá de fatores como disponibilidade de oferta, infraestrutura, segurança de abastecimento e viabilidade econômica.
A estratégia da companhia não está concentrada apenas na troca de modais ou combustíveis. A Mondelēz também tem investido em tecnologias aplicadas ao transporte rodoviário.
Entre as iniciativas citadas pela empresa estão caminhões equipados com placas eutéticas, tecnologia que mantém a temperatura dos produtos utilizando energia elétrica e solar, eliminando o uso de diesel na refrigeração.
Segundo a companhia, cada veículo equipado pode reduzir em torno de 25% das emissões em comparação com o modelo tradicional.
A empresa também incorporou uma carreta refrigerada com tecnologia de energia cinética, que utiliza a energia gerada pelo próprio movimento do veículo para alimentar a refrigeração do baú.
Para Drezza, a combinação de soluções faz parte de uma estratégia mais ampla de redução de carbono.
“Mais do que apostar em uma única tecnologia, buscamos combinar diferentes soluções para transformar a operação de maneira complementar”, afirma.
As iniciativas brasileiras também são acompanhadas pela operação global da Mondelēz International. A companhia tem como meta reduzir em 35% as emissões em toda a cadeia de valor até 2030 e alcançar zero emissões líquidas de CO₂e até 2050.
Segundo Drezza, o Brasil tem relevância nesse processo por conta da escala e da complexidade da operação local.
“O Brasil é uma unidade de negócio relevante dentro da Mondelēz International e, pela complexidade e escala do mercado, também é um ambiente importante para desenvolver soluções que dialogam diretamente com prioridades globais da companhia”, afirma.
No caso do biometano, a experiência da fábrica pernambucana deve gerar aprendizados sobre integração energética, infraestrutura e viabilidade econômica.
A executiva afirma, porém, que as soluções desenvolvidas no país não devem ser replicadas automaticamente em outros mercados.
“Cada país possui características próprias de infraestrutura, matriz energética e logística. Por isso, as experiências desenvolvidas aqui podem servir como referência e ser adaptadas a outras operações, sempre considerando as particularidades e a viabilidade de cada mercado”, diz.