L'Oréal: para além do RH, por que companhia tem diretoria de direitos humanos

Em entrevista exclusiva à EXAME, Helen Pedroso, diretora de responsabilidade corporativa e direitos humanos da L'Óreal, explica a importância do cargo na estratégia de negócios da empresa
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Marina FilippePublicado em 31/08/2022 às 07:00.

Temas como responsabilidade social corporativa e diversidade e inclusão costumam a aparecer nas empresas especialmente nas searas de sustentabilidade e recursos humanos. Mas, para além dessas áreas, a fabricante de cosméticos L'Oréal atua com uma diretoria de responsabilidade corporativa e direitos humanos. No Brasil, o cargo passou a ser ocupado por Helen Pedroso em junho deste ano, que tem como desafio garantir, por exemplo, o salário e o trabalho digno dos funcionários da companhia e da cadeia de fornecedores.

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Em entrevista à EXAME, a executiva explica como o cargo se difere dos mais tradicionais nas companhias, bem como sua trajetória profissional culminou na atual experiência. "Empresas precisam lidar com questões como pobreza, inclusão e dignidade. Hoje meu papel é olhar para a situação da companhia, que assume metas ambiciosas, e conectar as pessoas para esforços em comum", afirma. Veja a seguir a entrevista completa.

Por que a L’Oréal tem uma diretoria de responsabilidade corporativa e direitos humanos?

A L’Oréal é uma empresa que trabalha com um investimento grande de diversidade e inclusão para a inovação dos negócios e a melhoria da sociedade. Na minha trajetória conheci empresas que olharam para causas nos últimos 20 anos, mas foi aqui que vi ações importantes como o apoio ao Salário Digno do Pacto Global da ONU Brasil, sendo a L’Oréal a primeira a aderir o movimento no qual todos os funcionários tem salários dignos garantidos e, até 2030, todos os funcionários dos fornecedores estratégicos da empresa também terão um salário digno. Além disso, a companhia é enorme tem uma capacidade de impacto também grande. Nestes dois últimos meses tenho estado orgulhosa de ocupar essa diretoria.

Que tipo de formação ou vivência profissional te levou à ocupar o cargo?

Aos 18 anos tive a oportunidade de participar de um evento da Organização Pan-Americana da Saúde nos Estados Unidos, representando o Brasil. Ali entendi que queria olhar para políticas públicas a partir da psicologia e, desde então, sigo me dedicando à causas ambientais e sociais.

Trabalhei no Instituto Coca-Cola e no Ronald McDonald’s. Também tive relações com empresas de praticamente todos os setores, mas estando do outro lado do balcão. No último ano observei os desafios de mais de 1.500 empresas para o cumprimento da Agenda 2030 a partir do trabalho no Pacto Global da ONU Brasil. Por lá tive contato com a L’Oréal, que buscou alguém com uma experiência para além do corporativo tradicional.

Este é um cargo diretamente ligado ao C-Level. Qual a importância dessa estrutura?

Isto traz um diferencial e coloca a agenda no coração do negócio, como é preciso ser. Empresas precisam lidar com questões como pobreza, inclusão e dignidade. Hoje meu papel é olhar para a situação da companhia, que assume metas ambiciosas, e conectar as pessoas para esforços em comum.

Há um trabalho de enxergar para a realidade do Brasil, com 56% de negros na população geral, mas só 5% nas lideranças das empresa, por exemplo, e buscar mudar o cenário. Querermos que 30% da liderança seja formada por pessoas negras em 2025.

Há outras metas como ajudar 100 mil pessoas de comunidades carentes a terem acesso a trabalho; e beneficiar 3 milhões de pessoas pelos programas de engajamento social das marcas do Grupo (acesso à água, acesso à educação e treinamento vocacional) até 2030. Para isto, trabalhamos o tema da responsabilidade em quatro princípios éticos: integridade, respeito, coragem e transparência.

Como as ações do Brasil estão conectadas com a estratégia global da companhia?

Existe um comitê global de direitos humanos e há um acompanhamento das ações. Nele são envolvidas pessoas de recursos humanos e sustentabilidade, além de comunicação e demais áreas. Nos reunimos a cada três meses para garantir que estamos mais próximos de espelhar a realidade, de garantir direitos, de ter produtos para todos os consumidores, assim como promover a retenção e atração de talentos. É importante ressaltar que também trabalhamos em ações para fora de casa.

Outro ponto importante é que cerca de cem pessoas no Brasil estão envolvidas com questões de direitos humanos e responsabilidade ao longo do processo de produção, da ideia do produto até a execução. Este não é um trabalho possível de ser feito por apenas uma pessoa, é uma questão cultural da L'Oréal.

Quais são os exemplos de ações de direitos humanos para as comundiades externas?

Temos 23 projetos sociais em todo o Brasil, beneficiando 3.000 mulheres. Esses projetos ocorrem de 2021 até 2024, considerando o impacto positivo na vida de mulheres em situação de vulnerabilidade e indígenas. Um exemplo é o Pré-universitário Jenipapo Urucum, que prepara mulheres indígenas para o acesso ao ensino superior. Fruto da parceria entre a Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai) e a L’Oréal Brasil, o projeto já atendeu mais de 180 jovens, de 50 aldeias diferentes e 12 estados brasileiros em 2021. Projeto acaba de vencer a premiação do jornal O Globo Faz Diferença.

    Outro caso é o programa de capacitação Formare para jovens de famílias de baixa renda que visa apoiá-los no desenvolvimento de habilidades e qualidades necessárias para o mercado de trabalho. Os professores são voluntários da própria L’Oréal. O programa tem duração de 1 ano e carga horária mínima de 800 horas. Ao final do curso, os alunos podem ser recrutados como operadores e receber um certificado reconhecido pelo Ministério da Educação. Hoje temos mais de 100 alunos formados.