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ACNUR e Suframa firmam acordo de cooperação em Manaus (ACNUR)
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Publicado em 10 de agosto de 2026 às 14h25.
Última atualização em 10 de agosto de 2026 às 14h27.
*Texto de Daniel Nardin
Com mais de 160 nacionalidades diferentes por todo o território nacional, o Brasil historicamente tem sido destino para comunidades internacionais.
No entanto, boa parte delas se desloca por necessidade, e não desejo. Conflitos, ausência de oportunidades e diversos outros fatores têm mantido crescente a chegada de trabalhadores e familiares ao país.
Na Amazônia, especialmente nas capitais, esse movimento também tem se tornado mais frequente. Liderado pelo ACNUR, a Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados, um esforço tem unido empresas e essas comunidades, melhorando a integração e garantindo renda e emprego.
Para Davide Torzilli, representante do ACNUR no Brasil, a absorção de trabalhadores estrangeiros é mais do que uma questão de responsabilidade social e representa um diferencial competitivo. Mais do que intenção, alguns resultados começam a aparecer.
Uma das iniciativas que tem se espalhado pelo país é a criação de Hubs do Fórum Empresas com Refugiados, que unem empresas e promovem capacitação, além de facilitar o processo de contratação.
Nascida em Manaus, no Amazonas, a iniciativa já possui outros dois hubs no país e pode chegar a outros grandes centros nos próximos meses, incluindo novos polos na própria Amazônia.
“Estamos mostrando para um empreendedor que não é simplesmente fazer algo que seja por solidariedade ou por responsabilidade social só, mas é um investimento estratégico para a empresa. O reconhecimento de que a diversidade, investir em diversidade, dá esse diferencial competitivo”, comenta Davide.
Amazônia Vox: O que é o Fórum Empresas com Refugiados e como funcionam os hubs, especialmente o primeiro, em Manaus?
Davide Torzilli: O Brasil tem acolhido nos últimos anos muitos refugiados, pessoas com necessidade de proteção internacional, em particular oriundos da Venezuela, mas não só. Hoje, temos mais de 160 nacionalidades presentes aqui no Brasil. E o nosso trabalho tem se focado muito na inclusão socioeconômica, na integração de pessoas refugiadas aqui na sociedade brasileira. E a melhor forma de conseguir inclusão verdadeira das pessoas é através do trabalho, da possibilidade de a pessoa conseguir renda e se integrar na sociedade.
Como parte desse trabalho, há 5 anos o ACNUR, junto com o Pacto Global da ONU - Rede Brasil, criou essa iniciativa que se chama Fórum Empresas com Refugiados.
Hoje, o fórum reúne 160 empresas e organizações empresariais. Tem nesse fórum as Câmaras de Comércio e várias empresas em todo o país.
O objetivo é fomentar a contratação de pessoas refugiadas, incluindo também dar capacitação, profissionalizar as pessoas refugiadas para responder às demandas de trabalho que existem no Brasil, e expandir então, suas possibilidades de inserção profissional.
Esse trabalho tem resultado: temos mais de 17 mil pessoas refugiadas contratadas pelos membros do Fórum, para além de milhares de refugiados que têm tido acesso a oportunidades de treinamento, de capacitação… e também as empresas apoiam o empreendedorismo das pessoas refugiadas.
Essa é também outra perspectiva, para, por exemplo, ter refugiados empreendedores nas cadeias produtivas das empresas.
No ano passado, avançamos com o Fórum para criar o que chamamos de hub. O primeiro foi justamente o Hub Amazonas, que lançamos em junho de 2025, para conectar mais, num nível local, as empresas com os refugiados e responder mais às necessidades locais das empresas e dos refugiados.
Em Manaus, o hub é liderado por uma organização que é parceira do ACNUR, a Hermanitos, que há vários anos trabalha com populações refugiadas e o Hub Amazonas já conta com 22 participantes.
Amazônia Vox: Então, o Hub Amazonas foi o primeiro do Brasil e inspirou iniciativas semelhantes?
Davide Torzilli: Foi o primeiro, exatamente. E já com alguns participantes muito importantes. Menciono, por exemplo, a Bemol, que é uma empresa muito importante aqui na Amazônia e que se juntou a essa iniciativa. Depois do Hub Amazonas, lançamos o Hub Paraná e Hub Rio Grande do Sul. Então, no ano passado lançamos esses três hubs, e priorizamos estados onde tem uma alta presença de refugiados e também uma demanda por parte do setor produtivo das empresas, buscando facilitar essa conexão.
Então o hub, de uma forma simples, tem a proposta de facilitar esse engajamento das empresas. E, pelo ACNUR, oferecemos suporte nas contratações, compartilhamos também boas práticas entre as empresas que já têm essa experiência de contratar pessoas refugiadas e aquelas que ainda não têm refugiados e talvez tenham receio, não saber como lidar com essa contratação, e buscamos criar, ao final, um ambiente que é favorável para o refugiado encontrar mais oportunidade de emprego, mas também pelas empresas mesmas, que se beneficiam de um capital humano e tem um impacto que podem dar à comunidade. No caso do Hub Amazonas, em Manaus e no estado como um todo.
Amazônia Vox: E que tipo de receio ou obstáculos as empresas costumam ter? Além do preconceito, que às vezes ocorre, existem também dúvidas sobre o processo trabalhista e sobre a documentação...
Davide Torzilli: Esse é um tema, a documentação. Porque o Brasil tem uma legislação muito favorável. Então a pessoa refugiada, a pessoa solicitante da condição de refugiada, tem direito a trabalhar. Na lei, o desafio está na implementação prática desse direito que às vezes cria alguns problemas. Porém, é mais comum as pessoas terem o documento que as empresas precisam para formalizar a relação de emprego através da carteira assinada. Então podemos apoiar nessa informação.
Também trabalhamos a divulgação do conhecimento de que pessoas refugiadas, pessoas solicitantes, têm o direito de trabalhar. Isso a gente sabe, mas muita empresa pode ter dúvida se isso é de fato uma possibilidade para eles.
O outro desafio que as pessoas refugiadas e as empresas encontram é claramente o idioma. O ACNUR, com nossos parceiros, tem investido muito no ensino da língua portuguesa, e isso claro é fundamental, pois pode ser uma barreira para o acesso ao trabalho. Ao mesmo tempo, o conhecimento de outros idiomas é um dos elementos positivos na contratação. As empresas que estão contratando refugiados nos indicam como um aspecto muito positivo de ter um pessoal que fala idiomas diferentes. Algumas empresas têm conseguido expandir o mercado onde eles trabalham graças a ter empregados que falam outros idiomas e atendem novos clientes, por exemplo.
Amazônia Vox: Quando pensamos na Amazônia, lembramos da proximidade das fronteiras e da situação da Venezuela. Qual é o perfil dos refugiados na Amazônia Legal atualmente? O que vocês mais encontram de desafiador?
Davide Torzilli: A Amazônia Legal brasileira tem uma população de aproximadamente 200 mil pessoas refugiadas ou com necessidade de proteção internacional. Tradicionalmente, essa região tem sido uma região de acolhida e de proteção. São muitas comunidades de outros países que vieram e ficaram, então existe um histórico que ajuda na acolhida dos refugiados que estão chegando.
Claramente, a maioria é formada por refugiados e migrantes da Venezuela. E, entre eles, os indígenas da Venezuela, que apresentam desafios ainda maiores em se incluir na sociedade brasileira. Tem uma presença grande em Roraima, mas tem também uma presença forte em Manaus e em Belém, entre outras capitais. Mas, atualmente, também existem de várias outras nacionalidades, como haitianos. E temos observado um incremento de cubanos, que desde o ano passado o fluxo tem aumentado exponencialmente. Hoje, é a primeira nacionalidade por número de solicitantes da condição de refugiado no Brasil.
Amazônia Vox: Num reflexo do país, as capitais do Norte também têm uma oferta de empregos formais menor do que a demanda da população. Como conciliar isso, sendo um problema já existente?
Davide Torzilli: Olha, certamente não é fácil, mas o que a gente está vendo é que tem uma demanda de trabalho por parte de empresas. Claro, posso falar que tem realidades diferentes, mas até em Boa Vista, em Roraima, nos últimos anos, tenho visto um crescimento da economia do estado de Roraima que certamente é devido a políticas públicas, mas também tem sido facilitado pela chegada de pessoas refugiadas.
Toda a presença da Operação Acolhida, a presença de várias empresas que agora estão recrutando refugiados venezuelanos… Três anos atrás, quase não se falava de integração local em Roraima.. Agora, quando você vai a Boa Vista, entra no supermercado, no táxi, pega um Uber, encontra pessoas venezuelanas. Então tem oportunidade de integração.
Em Manaus, claramente com a presença da Zona Franca de Manaus e a expansão econômica que existe graças a essa presença, tem criado muita oportunidade para pessoas refugiadas encontrarem emprego.
Recentemente, assinamos em Manaus um acordo de parceria, de cooperação com a Suframa. E para mim foi muito interessante escutar os participantes, escutar essa fala, o compromisso da Suframa e das empresas com a sustentabilidade da Região Amazônica, e o compromisso de adotar políticas proativas de ESG. Nesses âmbitos, então, o esforço de incluir pessoas refugiadas tem sido bem recebido.
E, principalmente, pelo fato de que para um empreendedor não é simplesmente fazer algo que seja por solidariedade ou por responsabilidade social só, mas é um investimento estratégico para a empresa. O reconhecimento de que a diversidade, investir em diversidade, dá esse diferencial competitivo.
Temos que reforçar que as pessoas refugiadas não são só vítimas, mas são pessoas, são atores produtivos. Elas eram assim em seus países e seguem sendo. Levam consigo experiência, conhecimento, e são atores produtivos como você, como eu.
Então há desafios, mas há também algo que talvez eu e você não temos, que é esse desejo de recomeçar a vida. Então, precisamos elevar esse compromisso. Temos um estudo que acabou de ser divulgado, que demonstra que contratar pessoas refugiadas contribui para suprir lacunas de talentos que as empresas podem ter, mas também contribui para aumentar inovação, melhora a retenção.
E também tem esse impacto em fortalecer a reputação de uma empresa. Tem empresa que contrata pessoas refugiadas há 10 anos, relata esse impacto positivo na produtividade, engajamento, expansão para novos mercados, beneficiando-se desse capital humano diferente que o refugiado traz para a empresa.
Amazônia Vox: Gostaria de saber o quanto a experiência de Manaus influenciou de certa forma pra vocês, se já era uma previsão de ter em outras cidades, ou deu certo e Manaus acabou inspirando as outras?
Davide Torzilli: O Hub Amazonas ter sido o primeiro não foi por casualidade, foi porque havia um compromisso e um potencial muito grande por parte da Amazônia e das empresas que trabalham aqui. Então para a gente foi natural. Encontramos a Suframa e aí foi uma conexão muito natural com eles de criar essa parceria. Então o nosso compromisso é de seguir crescendo ainda mais.
São mais de 20 empresas, o que é um resultado muito positivo para menos de um ano de trabalho. Mas, a gente tem ambições muito maiores. Então queremos crescer, ver esse hub crescer e também no futuro expandir a outros estados da Amazônia Legal.
Este ano, por exemplo, a gente tem a intenção de criar um hub em Roraima. Vamos ver se conseguimos fazer neste ano ou no próximo. Em Roraima, temos o interesse de empresas com quem estamos trabalhando, para contratar mais e fazer parte de um hub permite compartilhar práticas com outras empresas.
Então, quando a gente pensou em criar o hub, nossa visão era de ter mais de um, e claramente pelo número de refugiados que existem, em particular para além da Amazônia, também no Sul do país, a gente tinha essa visão.
Mas, claramente a recepção positiva das empresas aqui no Amazonas nos confirmou do potencial desta ideia de criar hubs que fossem mais localizados a nível estadual. Então claramente a experiência aqui no Amazonas serviu de exemplo e de prática para depois expandir a outras regiões.
Amazônia Vox: Essa maior proximidade e ação com empresas do setor privado é uma estratégia para superar os cortes internacionais para políticas e ações humanitárias?
Davide Torzilli: Nossa atuação com o setor privado já ocorre há vários anos. Então, não foi só uma reação, porque não seria justo também colocar assim. Mas, agora estamos vivendo um período, por causa desses cortes, de crise maior. Nós não olhamos as empresas só como eventuais financiadores, isso sim é importante e queremos, claramente, mas não olhamos as empresas só para dar trabalho aos refugiados, isso também é importante.
Vemos as empresas como parceiros, porque as forças das empresas, os clientes das empresas, os empregados das empresas podem contribuir para facilitar um ambiente favorável à diversidade, à inclusão também de pessoas refugiadas. Então é uma parceria muito estreita.
Porém, um dos objetivos principais é dar soluções para emprego para refugiados e também apoiar financeiramente o trabalho do ACNUR. Porque o nosso trabalho aqui no Brasil, em particular, visa às pessoas refugiadas, mas também apoia as comunidades brasileiras que acolhem essas pessoas. Então, é um ganho também para as comunidades nacionais e para a economia e a sociedade brasileira.
E, sim… no ano passado os cortes foram muito drásticos. Em nível global, o ACNUR dependia dos Estados Unidos em cerca de 40% de nosso orçamento. Também aqui, para as ações que realizamos no Brasil. Então tivemos essa redução que foi muito significativa.
A gente teve que reduzir quase na metade os nossos programas, o que afeta assistência e apoio direto ao refugiado. Tivemos que reduzir mais de 40% do nosso efetivo, do nosso staff também. A nível global tivemos um corte de mais de 6.500 pessoas. Então, é algo muito significativo.
Mas quero também mencionar que não são só os Estados Unidos. Claro, o impacto do corte dos Estados Unidos foi muito significativo, mas também estamos vendo a nível global reduções de outros doadores, em particular o europeu, que com a guerra na Ucrânia, as preocupações de segurança, estão investindo mais em defesa, em armamentos, e menos em ações humanitárias.
Isso não teria que suceder, mas essa é a realidade. Então este ano estamos num contexto onde temos novos conflitos, ainda mais conflitos, ainda mais deslocamento, e o financiamento é bem reduzido. O nosso orçamento deste ano está financiado só em cerca de 18% até agora.
Então, aí entra esse chamado também para a sociedade brasileira, para as empresas, o setor produtivo brasileiro em poder apoiar também esses esforços.
Amazônia Vox: E temos ainda as populações que se deslocam pelos impactos das mudanças climáticas, que criou a figura do refugiado climático… esse é um ponto de atenção também para o ACNUR?
Davide Torzilli: O termo “refugiado climático” não existe no direito internacional. Uma pessoa é considerada “refugiada” quando preenche os critérios estabelecidos pela Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951). Mas, para mim, o termo “refugiado climático”, expressa as necessidades de quem está forçado a se deslocar por razões climáticas.
Temos visto isso aqui, no Brasil. Em 2024, a gente atuou no Rio Grande do Sul, diante dos impactos das enchentes, que criaram um deslocamento. Os amigos gaúchos não se tornaram refugiados porque ficaram no seu país, mas foram afetados, foram deslocados de suas casas por um período de tempo limitado.
Isso é um indicativo do impacto que tem a mudança climática, o efeito adverso da mudança climática e os desastres. Em muitos contextos, situações de conflito, de violência, se unem também aos desastres climáticos incrementando a vulnerabilidade.
Para além da situação de pessoas que já foram deslocadas, que são ainda mais vulneráveis. Temos, por exemplo, os haitianos refugiados no Rio Grande do Sul que foram outra vez impactados por um desastre climático. E eles, como outros setores vulneráveis da população, são os mais afetados, porque ficam morando em área mais vulnerável ao desastre, menos servida, menos protegida.
Então nosso trabalho, e aqui em particular na Amazônia, é também olhar ao que a gente fala de resiliência climática, também para fortalecer a resiliência da comunidade a novos deslocamentos, e assegurar que essa integração, inclusão socioeconômica que a gente falou, seja sustentável, seja resiliente também. Isso é muito atual aqui na região, onde temos períodos de seca ou depois períodos de chuva intensa e inundações.