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Flexibilidade e tecnologia: a próxima fronteira da igualdade

As empresas precisam oferecer diferentes opções de ferramentas que possam ser personalizadas às necessidades de cada indivíduo e, ao mesmo tempo, incentivar o foco nos resultados e não no processo, escreve Juliana Azevedo, presidente da P&G na América Latina

Juliana Azevedo, presidente da P&G na América Latina  (//Divulgação)

Juliana Azevedo, presidente da P&G na América Latina (//Divulgação)

EXAME Plural
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Plataforma feminina

Publicado em 21 de março de 2024 às 11h59.

Por Juliana Azevedo*

Ao longo da minha trajetória profissional, testemunhei de perto os desafios enfrentados pelas mulheres na árdua tarefa de conciliar trabalho, família e vida pessoal. Como a primeira mulher a liderar as operações da P&G na América Latina, minhas responsabilidades profissionais são consideráveis.

Ao mesmo tempo, sou casada, mãe de um menino de 14 anos e tenho um pai que precisa de cuidados especiais, devido a questões de saúde. Faço parte da chamada "geração sanduíche", uma realidade que afeta principalmente as mulheres que são responsáveis por lidar simultaneamente com as demandas de pais idosos e filhos, ou até mesmo netos, que exigem atenção e apoio.

Embora eu tenha conseguido avançar na minha carreira e conciliar minhas responsabilidades após assumir o cargo de presidente regional, a realidade para muitas mulheres é bastante diferente. Os dados revelam que a participação feminina no mercado de trabalho diminui significativamente após a maternidade, impactando negativamente suas carreiras e agravando as disparidades salariais.

As mulheres, frequentemente responsáveis pela tarefa de cuidar dos filhos, podem ser vistas como menos comprometidas e preteridas em promoções e oportunidades de desenvolvimento. Além disso, elas são desproporcionalmente afetadas pela falta de flexibilidade que pode existir nas empresas. Em muitos casos, são forçadas a escolher entre ter uma família e uma carreira. 

A economista Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia em 2023, ressalta a necessidade de programas que abordem a desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Um estudo baseado em seu trabalho, publicado no ano passado, indica que, globalmente, apenas 52% das mulheres entre 25 e 54 anos estão no mercado de trabalho, em comparação com 95% dos homens na mesma faixa etária.

Em média, 24% das mulheres deixam o mercado de trabalho no primeiro ano após o nascimento do filho, e 17% permanecem ausentes cinco anos depois. Na Europa, o estudo Merit revela que as mulheres experimentam uma perda média de renda de 29%. Isso ocorre porque a maternidade, muitas vezes, resulta em interrupção do trabalho ou redução da carga horária. 

O "trabalho invisível", que inclui tarefas domésticas e cuidados familiares, também sobrecarrega as mulheres. No Brasil, 90% do trabalho de cuidado é feito informalmente pelas famílias e, nessa grande maioria da população, quase 85% é realizado por mulheres.

Segundo o IBGE, elas dedicam, em média, 10,4 horas a mais por semana do que os homens a essas tarefas. Ou seja, as mulheres têm uma semana que é, pelo menos, um dia mais longa em termos de tempo dedicado ao trabalho no lar, limitando seu tempo disponível para buscar oportunidades profissionais. Isso destaca a disparidade de gênero nas responsabilidades domésticas e a distribuição desigual do trabalho não remunerado. 

E o valor desse trabalho é muito alto. Em todo o mundo, as mulheres contribuem com 12,5 bilhões de horas de cuidados não remunerados diariamente, avaliados em US$ 10,8 trilhões por ano, superando três vezes o valor da indústria global de tecnologia, de acordo com o relatório da Oxfam "Tempo de Cuidar". 

A implementação de políticas como horários de trabalho flexíveis, trabalho híbrido ou remoto e licença parental estendida é essencial para melhorar essa situação. A tecnologia desempenha um papel crucial nesse processo, com plataformas de gerenciamento de projetos, ferramentas de comunicação online e acesso remoto a sistemas que permitem a colaboração eficiente das equipes, independentemente da localização física dos funcionários. Essa flexibilidade beneficia a todos, permitindo-lhes maior autonomia na gestão de suas responsabilidades familiares e pessoais. 

Além disso, serviços como telemedicina, teleterapia e cursos online contribuem para uma maior flexibilidade geográfica. Os trabalhadores pós-pandemia não estão apenas buscando a oportunidade de trabalhar em diferentes cidades ou em casa, mas, acima de tudo, desejam controlar seu próprio tempo.

As empresas precisam oferecer diferentes opções de ferramentas que possam ser personalizadas às necessidades de cada indivíduo e, ao mesmo tempo, incentivar o foco nos resultados e não no processo. Ao explorar opções que integrem flexibilidade e tecnologia, em vez de se apegarem rigidamente à execução tradicional das tarefas, elas podem formar equipes mais dinâmicas e eficientes.   

Acredito também que oferecer esse tipo de política é a base, mas, como líderes, também precisamos criar uma cultura de normalização do uso desses benefícios. Lembro-me de alguns anos atrás, quando introduzimos a licença parental na P&G Brasil. Naquela época, a política realmente ganhou popularidade quando alguns diretores do time de liderança deram o exemplo e tiraram seus dois meses de licença para cuidar dos filhos.

Esse gesto criou o que chamamos de "efeito cascata", inspirando outros homens a abraçarem essa possibilidade e também proporcionando tranquilidade às mulheres, que têm direito a desfrutar de até seis meses de licença, de que todos os pais e mães podem tirar esse tempo longe do trabalho com o apoio da empresa. 

Essas mudanças não apenas promovem um ambiente mais equitativo no mercado de trabalho, mas também refletem a necessidade crescente de adaptação às demandas individuais dos profissionais. Ao fornecer opções flexíveis, as organizações não apenas fortalecem a atração de talentos, a satisfação e a retenção dos funcionários e a produtividade, mas também contribuem para a construção de um ambiente de trabalho mais inclusivo e moderno. A flexibilidade também envolve identificar os momentos-chave para você, para um projeto e para a equipe, nos quais a virtualidade não funciona. 

Para acelerar a igualdade de gênero no mercado de trabalho, permitir horários mais flexíveis para equilibrar as responsabilidades familiares ajudaria a apoiar os cuidadores. Assim, o design de empregos que incorpora mais flexibilidade pode beneficiar todos os trabalhadores, incluindo mães que trabalham. 

Eu mesma uso diversas ferramentas e adoto a tecnologia diariamente para equilibrar todas as minhas responsabilidades. Seja fazendo chamadas de vídeo para ajudar meu filho com o nó da gravata a quilômetros de distância ou trabalhando remotamente e em horários flexíveis para acompanhar meu pai em consultas médicas.

E, sempre que possível, compartilho esses exemplos com minha equipe para que elas e eles possam ver que todos podem e devem aproveitar essas oportunidades, e não apenas isso não prejudica os resultados, mas na verdade traz resultados ainda melhores para o negócio. 

Focar na flexibilidade e inclusão não é apenas um investimento inteligente; é fundamental para construir uma organização sustentável. Essas práticas estão capacitando as pessoas e nos ajudando a moldar um futuro em que todos alcancem seu potencial, independentemente de seus papéis únicos ao longo da jornada da vida. 

*Juliana Azevedo é presidente da P&G na América Latina 

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