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El Niño deve se tornar muito forte e persistir até fevereiro de 2027, alerta ONU

Aquecimento excepcional do Pacífico aumenta o risco de secas, enchentes e calor extremo em um planeta já pressionado pela mudança climática

El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos se somam a um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas (Imagem gerada por IA)

El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos se somam a um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas (Imagem gerada por IA)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 13h00.

Última atualização em 3 de setembro de 2026 às 13h06.

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Um dia depois de confirmar que o mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global, a ONU fez nesta quinta-feira, 3, um novo alerta climático: o El Niño deve se intensificar nos próximos meses, se tornar "muito forte" e ampliar os riscos de eventos extremos como secas, enchentes e ondas de calor em diferentes regiões do planeta.

A nova atualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada das Nações Unidas, aponta uma probabilidade próxima de 100% de o El Niño persistir até fevereiro de 2027 e destacou que "em nenhuma edição de seu boletim sobre o fenômeno até então havia apresentado uma previsão com tamanho grau de certeza".

A confirmação representa uma escalada em relação aos alertas feitos há poucos meses. Em junho, a OMM estimava 80% de probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto, com possibilidade de o fenômeno alcançar intensidade forte.

Agora, além de confirmar que ele está estabelecido, a previsão é de que ele continuará ganhando força e chegará à categoria muito forte, com pico próximo ao fim de 2026 e impactos climáticos que podem avançar no próximo ano.

O estudo empregou a expressão “Super El Niño” para descrever esse cenário mais severo, embora essa não seja uma classificação utilizada oficialmente pela OMM.

El Niño encontra um planeta superaquecido

O maior problema do fenômeno intenso de 2026, é que ele se sobrepõe às mudanças climáticas em curso.

A preocupação ganha uma proporção ainda maior quando se olha para a ultrapassagem do limite estabelecido pelo Acordo de Paris, com o planeta caminhando para níveis de temperatura considerados inseguros e com uma série de efeitos em cascata. 

A OMM ressalta que o fenômeno é uma oscilação natural do sistema climático, caracterizada pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e oriental.

A questão é que um El Niño muito forte agora se desenvolve sobre um planeta que já está mais quente devido às altas emissões de gases de efeito estufa.

Como o fenômeno é capaz de alterar temperaturas, chuvas e a circulação atmosférica a milhares de quilômetros do Pacífico, essa combinação amplia a possibilidade de eventos extremos.

“O El Niño está sendo superdimensionado diante dos nossos olhos. A ciência não deixa espaço para dúvidas: o planeta está em águas desconhecidas e elas estão esquentando”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Segundo ele, as temperaturas da superfície dos oceanos continuam subindo, assim como os termômetros globais, colocando o mundo em uma “zona de perigo” para um clima extremo.

“A corrida agora é entre riscos crescentes e nosso compromisso de agir sobre o clima e proteger as pessoas. Precisamos vencer”, destacou Guterres.

O que está acontecendo no Pacífico

Os dados mais recentes do oceano ajudam a explicar por que a OMM elevou o grau de preocupação, e demonstra uma confiança incomum na previsão atual.

As temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial central e oriental, região diretamente associada ao desenvolvimento do El Niño, estão bem acima da média e continuam aumentando.

O índice Niño 3.4, uma das principais referências para acompanhar o fenômeno, registrou anomalia média de +1,5°C entre maio e julho de 2026. Em julho, já estava 2°C acima do normal.

E o aquecimento continuou avançando. Entre o fim de julho e meados de agosto, os registros semanais ficaram entre aproximadamente +2,2°C e +2,6°C acima da média, indicando para uma intensificação.

Debaixo da superfície, a anomalia é ainda mais evidente. Em algumas áreas do Pacífico, as águas chegaram a registrar temperaturas mais de 8°C acima da média durante julho e o início de agosto.

Uma atualização sazonal complementar divulgada pela OMM nesta quinta-feira mostra que o aquecimento ainda pode avançar.

O conjunto de modelos da organização projeta que a anomalia média do Niño 3.4 pode chegar a aproximadamente +3,6°C entre setembro e novembro de 2026, com trajetória de intensificação até atingir um pico entre novembro e dezembro.

Há outro elemento que chama a atenção dos meteorologistas: os diferentes modelos estão convergindo para uma trajetória semelhante. A dispersão entre os sistemas de previsão permanece estreita, o que, segundo a OMM, reflete uma elevada confiança nas projeções.

No boletim sobre o El Niño, a organização também afirma que essa confiança é sustentada por fortes sinais oceânicos e atmosféricos que se reforçam mutuamente, além da concordância entre os sistemas de previsão sazonal.

++ Leia mais: OMM confirma El Niño forte a partir de agosto: o risco de desastres climáticos vai aumentar?

Em outras palavras, não é apenas a temperatura da superfície do Pacífico que aponta para um El Niño muito forte. O comportamento da atmosfera, o calor armazenado abaixo da superfície e os diferentes modelos climáticos caminham na mesma direção.

A combinação desses fatores ajuda a explicar por que há uma probabilidade próxima de 100% de permanência do El Niño até fevereiro de 2027.

“Este El Niño excepcional exige preparação e resposta excepcionais”, afirmou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.

Segundo ela, a organização iniciou uma mobilização histórica com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais diante dos riscos associados ao fenômeno.

Os impactos não serão iguais em todas as regiões

Apesar do alerta, a OMM faz uma ressalva: a intensidade do El Niño, sozinha, não determina a gravidade dos impactos em cada país ou região.

Os efeitos variam conforme a localização e a época do ano e também dependem da interação com outros componentes do sistema climático, incluindo as condições dos oceanos Atlântico e Índico.

Para o período entre setembro e novembro de 2026, os modelos da organização apontam maior probabilidade de temperaturas acima do normal em quase todas as áreas continentais do planeta, além de padrões de chuva que mostram uma resposta atmosférica considerada clássica de um forte El Niño no Pacífico.

Outro elemento no radar é o Dipolo do Oceano Índico, que deve entrar em fase positiva e alcançar média sazonal de 0,9°C entre setembro e novembro. As águas do Atlântico Tropical Norte e Sul, por sua vez, também devem permanecer acima da média.

Esses fatores podem amplificar, reduzir ou modificar os efeitos normalmente associados ao El Niño dependendo da região.

“Já estamos vendo perturbações e devastação provocadas por secas e enchentes e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifica”, afirmou Celeste.

Segundo a secretária-geral, o fenômeno tem potencial para provocar um “grande golpe” sobre comunidades e economias em diferentes partes do mundo.

A preocupação se estende especialmente a setores diretamente dependentes do clima, como agricultura, saúde, geração de energia e recursos hídricos. A OMM afirma que continuará atualizando as projeções regionais à medida que o fenômeno evoluir.

O El Niño ocorre, em média, a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Normalmente, começa a se desenvolver entre março e junho e atinge sua intensidade máxima entre novembro e fevereiro.

Seus efeitos, no entanto, podem durar mais. Segundo a OMM, o impacto sobre as temperaturas globais pode continuar mesmo depois do pico de aquecimento das águas do Pacífico e, em alguns casos, ser mais pronunciado no ano seguinte ao seu desenvolvimento. 

Em um planeta já aquecido, transformar previsões em ações preventivas será cada vez mais importante para reduzir perdas e adaptar cidades, economias e comunidades aos extremos climáticos.

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