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Descarbonizar dá trabalho — e lucro, dizem líderes da indústria

Em Davos, executivos brasileiros defendem escala, capital de longo prazo e inovação como caminhos para transformar a agenda climática em vantagem competitiva real

Executivos de Gerdau, Vale, Randoncorp e Be8 Energy na Brazil House, em Davos: o papel da indústria brasileira na transição energética.

Executivos de Gerdau, Vale, Randoncorp e Be8 Energy na Brazil House, em Davos: o papel da indústria brasileira na transição energética.

Gabriella Sandoval
Gabriella Sandoval

Editora de projetos especiais

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 11h23.

Última atualização em 30 de janeiro de 2026 às 15h13.

*De Davos, na Suíça

No painel “Além da COP30: liderança industrial para o clima, a natureza e o crescimento”, realizado na Brazil House, em Davos, executivos de Gerdau, Vale, Randoncorp e Be8 Energy compartilharam como vêm transformando metas ambientais em decisões operacionais, investimentos bilionários e inovação tecnológica — inclusive em setores historicamente considerados difíceis de descarbonizar.

Para Marcos Cantarino, gerente de Relações Institucionais da Gerdau, a discussão sobre clima precisa partir da realidade industrial. A siderurgia, lembra ele, é essencial para infraestrutura, energia, mobilidade e desenvolvimento — e justamente por isso precisa assumir protagonismo na transição.

“A siderurgia é um setor difícil de descarbonizar, mas também é parte da solução. Hoje, cerca de 70% da nossa produção já vem de aço feito a partir de sucata, o que coloca a economia circular no centro da nossa estratégia climática.”

Além da reciclagem, a Gerdau vem ampliando o uso de energia renovável, com investimentos em fontes solar e hidrelétrica, e apostando no carvão vegetal como alternativa ao carvão mineral.

“Não existe transição sem política pública, sem cadeia produtiva e sem sociedade. Para destravar investimentos, precisamos de previsibilidade regulatória e de um ambiente que incentive capital de longo prazo”, afirmou Cantarino.

Marcos Cantarino, da Gerdau: “siderurgia é um setor difícil de descarbonizar, mas também é parte da solução”

Minerais críticos e a corrida global por escala e eficiência

Na Vale, a descarbonização deixou de ser um capítulo apartado de sustentabilidade para se tornar eixo estratégico do negócio. Segundo Grazielle Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade da companhia, o próprio portfólio da mineradora passou por uma revisão profunda.

“Nosso minério de ferro é de altíssima qualidade, e isso é fundamental para reduzir emissões no processo siderúrgico dos nossos clientes. A descarbonização não acontece só dentro da Vale, mas ao longo de toda a cadeia.”

Um dos destaques é o desenvolvimento de briquetes de minério, que permitem reduzir em até 70% o consumo de energia nos altos-fornos. “Foram quase 18 anos de desenvolvimento. Isso mostra que essa é uma indústria de visão de longo prazo, intensiva em capital, que exige persistência e parceria.”

A Vale também foi pioneira ao estabelecer metas para o escopo 3 — as emissões indiretas da cadeia — e vem investindo em biocombustíveis, eletrificação e na descarbonização do transporte marítimo. “As soluções existem, mas ainda são caras. O desafio agora é escala. Não há impacto sem escala — e não há escala sem um modelo econômico viável.”

Grazielle Parenti, da Vale: “o futuro pode ser caro, mas não agir custa muito mais”

Biocombustíveis: a transição que já funciona hoje

Se há um setor que chegou a Davos com soluções prontas para rodar, foi o de biocombustíveis. Para Camilo Adas, diretor de Transição Energética da Be8 Energy, a empresa nasceu, há duas décadas, já orientada pela lógica da transição energética.

“Desde o começo, acreditamos que usar recursos renováveis da natureza era muito mais estratégico do que depender de combustíveis fósseis. Nosso processo é totalmente circular: não existe resíduo.”

A companhia investe em biodiesel, etanol, novos combustíveis renováveis e hidrogênio. Um dos projetos mais simbólicos foi uma viagem de 4 mil quilômetros pelo Brasil com caminhões abastecidos exclusivamente com biocombustível, sem qualquer adaptação nos motores. “Mostramos que é possível reduzir emissões agora, sem mudar o veículo, sem mudar a infraestrutura. A transição não pode esperar.”

Para Adas, a COP30 precisa marcar uma virada prática. “Não precisamos de mais diagnósticos. Precisamos de uma COP da ação. Se não encontrarmos formas de financiar essa transição, empresas quebram — e o planeta não pode esperar.”

Inovação industrial como vantagem competitiva

Na Randoncorp, a agenda climática está diretamente conectada à inovação e à eficiência operacional. Segundo Joarez José Piccinini, diretor de Relações Institucionais da Randoncorp e presidente do Conselho do Banco Randon, a companhia trabalha com metas públicas de redução de até 42% das emissões dos escopos 1 e 2 até 2030 — e avança de forma consistente para cumpri-las.

“A descarbonização só acontece quando vira estratégia. No nosso caso, isso significa biomassa, energia limpa e muita inovação dentro da operação.”

Entre os projetos mais emblemáticos está um sistema de recuperação de energia cinética em carretas, que transforma a energia gerada na frenagem em potência adicional para o veículo. “Esse sistema pode reduzir o consumo de diesel em até 25%. É bom para o meio ambiente, mas também para o bolso do transportador.”

A empresa também aposta em nanotecnologia para reduzir peso, aumentar a durabilidade dos veículos e ampliar a eficiência logística. “Não existe transição sustentável sem competitividade econômica. Quando a inovação gera ganho ambiental e financeiro, ela escala.”

Joarez José Piccinini, da Randoncorp: “quando a inovação gera ganho ambiental e financeiro, ela escala”

Capital, tempo e coragem para sustentar a transição

Apesar dos avanços, os executivos foram unânimes em apontar o financiamento como o grande gargalo. Juros elevados, risco tecnológico e retorno de longo prazo ainda afastam parte do capital. “Pesquisa e desenvolvimento são caros, incertos e levam tempo. Sem instrumentos financeiros adequados, a transição não ganha escala”, resumiu Piccinini.

Ainda assim, a mensagem final foi de convicção. Mesmo em um cenário global mais instável, as empresas afirmaram que não há volta. “A estratégia está definida. O mercado apoia, a sociedade cobra e o planeta não negocia”, disse Grazielle Parenti. “O futuro pode ser caro, mas não agir custa muito mais.”

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