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Maurício Rodrigues, presidente da divisão agrícola da Bayer para América Latina: "A agricultura regenerativa é o norte: produzir mais, emitir menos e regenerar" (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 9 de dezembro de 2025 às 17h46.
Após cinco anos desenvolvendo metodologias para medir emissões no campo, a Bayer anunciou a transformação do PRO Carbono em uma plataforma aberta.
A iniciativa, que reúne dados de 3 mil agricultores em três países da América Latina, busca criar um ecossistema colaborativo para resolver o maior desafio climático da descarbonização de indústrias do setor: o escopo 3, que começa na fazenda.
"O mais difícil do processo foi começar do zero. Primeiro entendemos como mensurar, quais práticas regenerativas estavam funcionando, para então colaborar e finalmente construir credibilidade. Agora, a ambição é escalar cada vez mais", afirmou Maurício Rodrigues, presidente da divisão agrícola da Bayer para América Latina, em entrevista à EXAME durante o Carbon Science Talks, evento realizado na Amcham Brasil nesta terça-feira, 9.
A escolha do palco não foi casual. Foi nesse contexto, diante de potenciais parceiros e uma série de empresas, que a gigante do agro anunciou a abertura da plataforma.
Para 2026, a meta é clara: atrair mais parceiros que agreguem e compartilhem dos mesmos valores.
"Espero continuar à frente de uma empresa curiosa, criativa e colaborativa", disse, ao projetar um ano que, segundo ele, não será necessariamente mais fácil, mas que pode ser "resiliente" se apoiado em cooperação.
Com 26 anos de carreira na Bayer e um dos poucos CEOs negros do Brasil, Rodrigues acredita que a colaboração é resultado direto de dois pilares: diversidade e inovação.
Desde 2021, lidera a operação latino-americana e define a agricultura regenerativa como o norte de sua gestão. "O conceito é produzir mais, emitir menos e regenerar mais", destacou.
Para o CEO, essa direção não é apenas ambiental, mas responde aos principais dilemas das próximas décadas: em um cenário de insegurança alimentar, é preciso aumentar a produtividade enquanto se conserva o solo.
"Quanto maior a diversidade e inovação em uma organização, mais fácil vai ser interagir com esses diferentes players", explicou, conectando sua visão de liderança com a estratégia de construir ecossistemas colaborativos.
Com uma trajetória nada convencional, o executivo conta que sempre se sentiu "a exceção em um contexto de representatividade extremamente limitada". No colégio Bandeirantes em São Paulo, era o único negro da sala.
Depois, foi um dos poucos a concluir a graduação em engenharia pela Universidade de São Paulo (USP). Sua carreira começou no mercado financeiro até chegar na Monsanto (atual Bayer) em 1999 e nunca mais sair da área do agronegócio.
Entre 2010 e 2014, viveu nos Estados Unidos e no México, onde precisou "conquistar espaço do zero, em outra cultura e em outro idioma". Hoje, essa bagagem se traduz em uma visão: "construir pontes em vez de muros".
Para avançar em diversidade, a Bayer também lançou um programa focado em fornecedores, levando os aprendizados da empresa para toda a cadeia.
Segundo o líder, a ideia casa perfeitamente com o modelo do PRO Carbono: não basta resolver internamente, é preciso influenciar o ecossistema.
"É nossa forma de contribuir e dizer: olha o que aprendemos, como podemos replicar juntos?", refletiu.
A transformação do PRO Carbono em plataforma aberta representa uma mudança de paradigma no setor. Em vez de guardar dados e metodologias como vantagem competitiva, a Bayer convida outras empresas para usar e enriquecer o ecossistema.
"Não é um projeto da Bayer exclusivamente. É uma colaboração com a Embrapa e uma série de clientes e experts do mercado, evidentemente trazendo os agricultores como parte fundamental", reforçou Rodrigues. Em 2026, seu foco será em como trazer mais players para o ecossistema e o "engrandecê-lo" ainda mais.
Isto porque, descarbonizar cadeias agrícolas é um desafio que não pode ser resolvido isoladamente. Para muitas indústrias, as emissões do Escopo 3 - aquelas que acontecem nos fornecedores - começam no campo e representam a maior fatia de suas pegadas de carbono. Mas mensurar o impacto com precisão é complexo e custoso.
Foi tentando solucionar este gargalo que o PRO Carbono nasceu em 2020 e hoje se tornou o maior banco de dados sobre agricultura regenerativa da América Latina. Ao longo de cinco anos, a Bayer construiu, em parceria com 47 especialistas e 19 instituições científicas, uma série de metodologias para quantificar emissões e remover carbono no campo por meio de práticas sustentáveis.
Atualmente, a plataforma integra mais de 3.000 agricultores no Brasil, Argentina e Paraguai, cobrindo mais de 3 milhões de hectares de soja, milho e algodão.
Os números comprovam o tamanho do impacto: as fazendas participantes registraram ganho médio de 11% na produtividade anual e aumento de 9% na estabilidade produtiva.
As áreas de soja apresentaram pegada de carbono 50% menor do que a média nacional, com potencial de superar 70% de redução com melhorias de manejo. Já o sequestro de carbono aumentou 50%, mesmo diante do contexto de mudanças climáticas.
Nestes cinco anos, os projetos já removeram mais de 1,39 milhão de toneladas de CO₂ equivalente da atmosfera, o equivalente ao reflorestamento de 231 mil hectares.
Marina Menin, diretora do Negócio de Carbono da Bayer para a América Latina, acrescentou que esse desempenho superior demonstra que, com as ferramentas certas, é possível não apenas reduzir emissões, mas transformar a agricultura em sumidouro de carbono.
A plataforma oferece três ferramentas integradas que sustentam os resultados: o Footprint PRO Carbono, desenvolvido com a Embrapa, que calcula a pegada de carbono de soja, milho e algodão com dados primários e gera relatórios auditáveis; o PROCarbon-Soil (PROCS), que estima o potencial de sequestro de carbono no solo e orienta decisões estratégicas; e o Conecta PRO Carbono, sistema de medição, monitoramento, reporte e verificação que assegura rastreabilidade e credibilidade.
O modelo colaborativo já está em operação. A parceria entre Bayer e Viterra, anunciada recentemente, reúne mais de 1.200 produtores e supera 2 milhões de hectares na Argentina.
No primeiro ano, as áreas participantes apresentaram pegada 35% menor em comparação à média nacional, com potencial de superar 60% de redução com a intensificação de práticas regenerativas. A próxima fase prevê expansão para o Paraguai.
Outra iniciativa é a linha de crédito desenvolvida com o Rabobank, que combina soluções regenerativas do PRO Carbono com incentivos financeiros. Para acessar a linha, o agricultor precisa assumir três indicadores de ESG, sendo obrigatório o de emissões de gases de efeito estufa, acompanhado de um plano de redução.
Para Maurício Rodrigues, um dos principais desafios atuais não está no campo, mas na comunicação. "O produtor não é o maior desafio. Afinal, ninguém melhor que ele para querer proteger o solo porque é o principal ativo dele", disse o CEO.
O executivo argumenta que produtores brasileiros já utilizam em média 10 práticas sustentáveis, contra 7 da média mundial, mas isso não é amplamente conhecido.
"Existe uma falta de entendimento e de clareza no setor. É preciso fazer uma revisão e comunicar tudo de positivo que o agro faz, ele já é sustentável", reconhece.
Ele cita práticas e tecnologias bastante consagradas como plantio direto, rotação de culturas e que fazemos em uma escala "bem maior que outros países".
A percepção de que a comunicação do agronegócio precisa melhorar foi um dos pontos que tornaram a COP30, realizada em Belém, particularmente relevante para o executivo.
Em sua quarta conferência climática, Rodrigues ressaltou a importância de posicionar a agricultura brasileira no centro do debate climático global.
O principal destaque foi a criação da AgriZone, espaço exclusivo conduzido pela Embrapa e apoiado por empresas como a Bayer, que permitiu que produtores, pesquisadores e empresas demonstrassem na prática soluções já em operação no campo pela primeira vez em uma COP.
"Isto foi um grande golaço: ajudou a intensificar o debate, desmitificar e posicionar o agro de maneira correta", afirmou.
A inovação deve se consolidar como legado e abre caminho para ser replicada em futuras conferências climáticas.
"Precisamos falar mais sobre o quão complexo é você lidar com um clima tropical como o nosso e ao mesmo tempo desenvolver uma agricultura de altíssima produtividade e eficiência", complementou o CEO.
Outro ponto que o executivo acompanha com atenção é o mapa do caminho para combate ao desmatamento, que ficou fora do acordo final da COP30 mas foi assumido como compromisso pela presidência brasileira para 2026.
"É um movimento bastante positivo. É muito difícil haver um consenso total e por isso muitas decisões muitas vezes não se concretizam plenamente numa COP, mas por outro lado geram frutos que de alguma forma se materializam", destacou.
A Bayer também está em diálogo ativo com o Ministério da Agricultura e tenta influenciar as discussões. "Não diretamente neste mapa do caminho, mas em todos que contribuam para uma agricultura mais regenerativa", frisou Rodrigues.