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Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda: Se você dá à comunidade, você recebe muito mais de volta" (Simone Padovani/Awakening/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 18h30.
Última atualização em 5 de fevereiro de 2026 às 19h08.
Aos 81 anos, Mary Robinson acredita que nunca será velha demais para aprender. Primeira mulher a ser presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, ela revelou de forma humilde o que poucos esperavam: durante todo o seu mandato presidencial, entre 1990 e 1997, não fez "um único discurso sobre mudança climática".
"Eu não apreciava a realidade da crise climática. Falava sobre meio ambiente, mas não clima. Alguns cientistas tentavam nos alertar, mas não estávamos ouvindo", confessou em entrevista à EXAME.
A virada de chave aconteceu quando deixou a presidência e, anos depois, fundou uma organização que trabalhava com direitos humanos em países africanos.
Era 2003, e Robinson estava longe dos holofotes, mas perto das realidades locais. Viajou muito e viu o impacto devastador de eventos extremos.
Foram as mulheres africanas que a despertaram definitivamente. "Elas me diziam: 'Deus está nos punindo? O que está acontecendo? Isso está fora da nossa experiência.", contou.
Foi só em 2009 que ela participou da sua primeira COP do clima em Copenhague, na Dinamarca. E a partir daquele momento, decidiu que sempre falaria de "justiça climática", colocando as pessoas, especialmente as mais vulneráveis, no centro da discussão. Décadas depois, ela é a principal referência mundial no tema.
Para Robinson, a justiça climática exige resgatar um conceito que os direitos humanos negligenciaram: o dever com a comunidade. Ela cita o artigo 29 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, documento que era sua "bíblia" quando foi Alta Comissária da ONU.
"Todos têm deveres para com a comunidade na qual somente a livre e plena expressão de sua personalidade é alcançada", recita. "A menos que você saiba que tem deveres para com sua comunidade, você mesmo não alcança seu pleno potencial. Se você dá à comunidade, você recebe muito mais de volta", acrescentou.
Hoje, ela trabalha na Irlanda com segurança alimentar através do Projeto Dandelion, usando uma palavra irlandesa e faz uma comparação com o mote da COP30 de "mutirão", no espírito da solidariedade e ação coletiva.
É justamente desse lugar de quem viu de perto o sofrimento causado pela crise climática que Robinson admite: a solução não será indolor e muito menos simples.
"A transição justa vai ser difícil. Haverá perdedores", afirmou. "Temos que enfrentar isso e ser honestos."
Para ela, o processo pode acabar criando novas injustiças enquanto resolve "antigas".
"Vou dar um exemplo. Precisamos de minerais raros e alguns deles, como sabemos, estão em lugares como a República Democrática do Congo, onde há tanto abuso de direitos humanos."
O país africano detém cerca de 70% das reservas mundiais de cobalto, mineral essencial para baterias de carros elétricos e outras tecnologias verdes. Robinson lembra de um deslizamento de terra que matou mineradores locais ao tentar extrair o mineral.
É o paradoxo da transição, observou: "Para salvar o planeta, precisamos de minerais cuja extração pode perpetuar violações de direitos humanos e até criar novas vítimas".
"Haverá custos também para a transição justa", admitiu. "Mas os custos são muito menores tanto imediatamente quanto para garantir um futuro sustentável."
A solução? Robinson aposta em inovação baseada na ciência e soluções baseadas na natureza.
Ela cita Omar Yaghi, um dos guardiões dos limites planetários que ganhou um prêmio de química por desenvolver tecnologia para extrair água do ar e capturar carbono.
"Há mais oportunidades atualmente, podemos aproveitar a inteligência artificial (IA) e a inteligência humana para trabalhar juntas por inovações rápidas."
Sobre a COP30 em Belém, Robinson é realista mas reconhece avanços. O primeiro deles foi a própria criação do pavilhão científico, uma inovação que trouxe a ciência para o centro das negociações pela primeira vez. Inclusive, foi lá que a ex-presidente passou a maior parte do seu tempo.
"Não conseguimos o resultado que queríamos no final, nem a eliminação gradual dos combustíveis fósseis", admite. Mas credita à presidência brasileira ter conseguido o melhor possível num contexto adverso.
"Trump já havia saído do Acordo de Paris e agora ele saiu da UNFCCC e de outras agências", contextualiza. Ela descreveu a "intimidação" do lobby dos combustíveis fósseis que causou "um retrocesso de três anos".
Por outro lado, Robinson diz felizmente não ver os outros países o seguindo [Trump].
"Olhe para Belém, todos vieram. E o que posso dizer é que a América ainda está dentro", destacou ao listar que os próprios governos estaduais, prefeitos e empresas americanas continuam investindo em energia limpa de forma independente.
O compromisso brasileiro com um "roadmap" ou "mapa do caminho" rumo à COP31 na Turquia é visto por ela como uma oportunidade única de "falar genuinamente sobre começar a ter roteiros sérios em diferentes regiões e países".
Foto: Leandro Fonseca
A lição, para ela, é clara: é preciso mover o dinheiro e remover os subsídios aos fósseis para incentivar a mudança mais rápida. "É só uma questão — somos seres humanos. Podemos racionalizar e dizer que queremos ter um futuro habitável", reiterou.
Em relação às políticas anti-clima de Trump e a série de retrocessos humanitários, Robinson não poupou palavras.
"O presidente americano tentou deliberadamente minar o estado de direito no nível internacional e dentro de seu próprio país, o que é extraordinariamente sério. Ele não se importa com direitos humanos e nem com a verdade".
Ela citou os casos recentes de assassinatos deliberados pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) e os vídeos que posteriormente desmentiram a narrativa oficial do governo. "Me parece que as pessoas estão se levantando pela verdade".
E fez uma analogia: "É como a história do menino que disse que o imperador não tem roupas. Ele está começando a "ficar sem roupas". Está começando a ficar um pouco nu e nós vemos isso. E isso significa que não tem tanto poder", explicou.
Sobre a política anti-imigração de Trump num mundo em aquecimento, Robinson é enfática ao explicar tamanha contradição.
Ela elogia a Espanha, que recentemente legalizou cerca de 500 mil imigrantes.
"A Europa está envelhecendo e quer trabalhadores. É assim que deveríamos estar abordando a migração", defendeu.
Segundo a ex-presidente, deveríamos valorizar a diversidade e entender que é importante abraçar aqueles que estão fugindo, seja de conflito ou até pelo próprio clima extremo.
Questionada sobre sua esperança em relação ao futuro, Robinson disse: esperança é ação.
"O copo pode não estar meio cheio, mas você trabalha com a realidade, você colabora, você o faz crescer. Você faz o que pode fazer". Como conselho para esta geração e as próximas, ela acredita que não importa o quão ansioso você está sobre a questão climática no momento, é preciso se envolver com a comunidade local.
"É sobre esperança pessoal, mas também é a esperança para o mundo", disse. E concluiu: "Sou prisioneira da esperança e sempre serei".