Parceiro institucional:
Com tecnologias de alto custo disponíveis, JSL usa eficiência como estratégia para reduzir impacto ambiental (Alexandre Battibugli/Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 15h32.
Última atualização em 19 de fevereiro de 2026 às 15h38.
Este conteúdo faz parte de uma série de reportagens sobre a descarbonização no transporte pesado. Você pode ler a reportagem publicada anteriormente aqui.
O transporte pesado por rodovias é, de longe, o maior emissor de gases de efeito estufa no setor de transportes no Brasil. O modal rodoviário concentra 93% das emissões do setor, segundo estimativas do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa.
Apenas a carga rodoviária responde por quase metade de todas as emissões do transporte no país, algo na casa de 110 a 120 milhões de toneladas de CO₂ equivalente ao ano, uma vez que o transporte como um todo representa cerca de 11% das emissões totais de CO₂ do Brasil.
O principal desafio é que o caminhão não tem uma alternativa óbvia de baixo carbono para rotas longas e cargas pesadas, comuns ao setor.
O transporte segue como favorito porque é o único que acessa locais de difícil acesso, conectando regiões remotas de todo o Brasil com vasta flexibilidade.
É nesse contexto — de um modal essencial, mas carbonizado por natureza — que a JSL, operadora logística rodoviária líder no Brasil, tenta construir um caminho para emitir menos. O gerente fde sustentabilidade da companhia, Gustavo Brito, conversou com a EXAME e contou mais sobre a sua estratégia para reduzir o impacto ambiental diário.
A JSL opera em todos os estados brasileiros e em mais seis países, atendendo cerca de 20 setores da economia. Com essa escala, qualquer ganho de eficiência — por menor que pareça individualmente — se multiplica ao longo de milhares de rotas e veículos. É por isso que a principal alavanca de descarbonização da empresa não é tecnológica, mas justamente operacional.
"Iniciativas que reduzem o consumo de combustível, o número de viagens e a quantidade de veículos em circulação têm impacto direto na sustentabilidade e na redução de emissões", diz Gustavo Brito, gerente de Sustentabilidade da JSL, que conversou com exclusividade com a EXAME. "A descarbonização na JSL está diretamente ligada a uma operação mais eficiente, inteligente e bem gerida."
Um dos pilares dessa estratégia é a juventude da frota. A idade média dos veículos da JSL é de 3,5 anos, contra mais de 13 anos da média do mercado. Frotas mais novas consomem menos combustível, reduzem a quantidade de poluentes e geram menos resíduos operacionais — como pneus, óleos e peças mecânicas que precisam de descarte adequado.
A isso se soma um uso intensivo de telemetria: sensores inteligentes monitoram em tempo real o comportamento de cada motorista. Isso permite que se identifique freadas bruscas, acelerações desnecessárias e qualquer padrão que eleve o consumo de combustível.
No ano passado, a JSL ainda estruturou um projeto específico de redução de diesel, combinando análises individuais, treinamentos personalizados e bonificações para quem bate metas de consumo.
Nos últimos anos, a empresa avançou em iniciativas mais concretas de inovação. Uma delas é praticamente uma mudança de geometria: a adoção do hexatrem — maior caminhão em operação no Brasil — no transporte de madeira, substituindo o bitrem convencional.
O novo modelo conta com 52 metros de comprimento e permite transportar até 250 toneladas de material. Com mais volume por viagem, a companhia atinge uma diferença que evita cerca de 8 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano, só por reduzir o número de veículos em circulação.
O raciocínio é o mesmo que move a estratégia de uma ferrovia: menos viagens, com mais carga cada uma, significa menos emissões absolutas. No rodoviário, onde cada caminhão tem limites físicos e regulatórios muito mais rígidos do que um trem, encontrar margem para aumentar a carga por viagem é um desafio considerável.
Outro avanço recente foi o projeto pioneiro com caminhões movidos a biometano no Rio de Janeiro, operando com frota dedicada abastecida na maior usina de biometano da América Latina.
"Também ampliamos o uso de veículos a gás natural e elétricos, especialmente em rotas curtas e operações urbanas, onde essas tecnologias já apresentam maior viabilidade", explica Brito.
Mais padrões também têm ajudado a garantir maior alcance de metas: a JSL implementou o uso de veículos com a tecnologia Euro 6, padrão europeu de emissões que reduz de forma relevante os poluentes atmosféricos. O sistema usa tecnologias como SCR (Redução Catalítica Seletiva), DPF (Diesel Particulate Filter) e recirculação de gases para tornar o ar mais limpo, filtrando óxidos de nitrogênio (NOx) e material particulado.
JSL passou a usar hexatrem, caminhão com 52 metros de comprimento e que permite transportar até 250 toneladas de material (Alexandre Battibugli/Divulgação)
Os resultados começam a aparecer nos números. Em 2024, a JSL registrou a quinta redução consecutiva na intensidade de emissões de gases de efeito estufa, com queda de 6,2% em relação a 2023 e um acumulado de 24,5% nos últimos quatro anos — considerando emissões dos Escopos 1, 2 e de categorias relevantes do Escopo 3 em relação à receita líquida.
Brito explica que a trajetória está alinhada à meta da SIMPAR, controladora da JSL, de reduzir em 15% a intensidade das emissões até 2030. "Esse compromisso é atrelado a um Sustainability-Linked Bond [instrumento financeiro em que a taxa de juros pode subir caso as metas não sejam cumpridas], o que reforça a seriedade e a governança do processo", conta. Em outras palavras: a sustentabilidade entra no balanço.
Apesar dos avanços, Brito é direto sobre os limites da transição. "O principal gargalo ainda é estrutural. O transporte pesado no Brasil depende majoritariamente do diesel, e as alternativas de menor emissão ainda apresentam custo elevado, disponibilidade limitada e infraestrutura incipiente para abastecimento e manutenção em larga escala", afirma.
Há também um problema contratual: em muitas operações dedicadas de longo prazo, a adoção de tecnologias mais limpas exige investimentos adicionais que precisam ser compartilhados com os clientes.
Sem essa divisão de custos, a viabilidade econômica simplesmente não fecha — e nenhuma empresa escala o que não é viável.
Para avançar, Brito aponta três frentes essenciais:
"Parcerias estratégicas entre operadores logísticos, clientes e fornecedores também são essenciais para viabilizar projetos-piloto, contratos de longo prazo e modelos que permitam dividir riscos e investimentos de forma equilibrada", completa.
Para Brito, descarbonizar não é só uma obrigação ambiental, mas também é uma demanda crescente dos próprios clientes. Essa transformação, reconhece, não depende só de vontade ou de inovação. Depende de infraestrutura, de política pública, de contratos e de tempo.
"Cada vez mais, somos parceiros estratégicos na busca por metas e ambições ESG, contribuindo ativamente com soluções logísticas mais eficientes, de menor impacto ambiental e alinhadas às estratégias socioambientais de cada operação", diz.
O argumento é o mesmo a outros modais: operações mais eficientes reduzem custos e emissões ao mesmo tempo. No rodoviário, porém, o caminho é mais longo, que exige transformar a própria base tecnológica.